Resenha de “Doutor Pasavento” publicada no Jornal do Brasil (Rio de Janeiro). Cópia online aqui. (ponho todas resenhas & etc. no meu blog por questões de arquivamento). Já escrevi outras cousas acerca de Vila-Matas no blog, basta clicar na tag acima ou ao lado.

DE LEITOR PARA LEITOR

Doutor Pasavento, romance de Enrique Vila-Matas lançado agora no Brasil, representa uma das obras mais complexas e herméticas do autor – e uma das mais recompensadoras também.

“Sou um leitor que escreve.” É assim que se define o catalão Enrique Vila-Matas em entrevista a Juan Villoro no documentário Café com shandy. De fato, com exceção de A viagem vertical, todos os outros romances de Vila-Matas disponíveis no Brasil comprovam que ele é um leitor tão compulsivo que suas leituras vazam para dentro do tecido narrativo. Em Bartleby & companhia, constrói um catálogo de escritores (a maioria real, alguns fictícios) que, por um motivo ou outro, abandonaram a literatura. Em O mal de Montano, a escrita surge para curar a pulsão negativa retratada em Bartleby. O autor parte para o exato oposto: personagens doentes de excesso de literatura.

Doutor Pasavento, originalmente de 2004, lançado agora no país pela CosacNaify, surge como continuidade natural das preocupações do autor. Inclusive, em texto coletado no livro Vila-Matas Portátil (que reúne artigos críticos acerca do catalão), o escritor afirma enxergar Pasavento como fim de uma “trilogia da metaficção”, composta por Bartleby & companhiaO mal de Montano. A metaficção seria uma espécie de prosa voltada a si mesma, que versa sobre o próprio ato de escrever e que coloca preocupações literárias no centro do palco.

Logo nas primeiras linhas de Pasavento já se pode vislumbrar a alta carga referencial da prosa de Vila-Matas, que, transformado em personagem, serve de narrador e protagonista. “De onde vem a sua paixão por desaparecer?” é a pergunta feita por ninguém menos que o fantasma de Montaigne (“inventor” do gênero ensaístico) ao alter ego do autor. A partir dessa premissa, da obsessão latente pelo desejo de desaparecer, tem início o romance. Convidado para dar uma palestra em Sevilha sobre as fronteiras entre realidade e ficção, assunto sobre o qual não tem interesse em discutir, o narrador aproveita-se de um sósia que encontra num trem para escapar do evento e, partindo dessa coincidência, assume a personalidade de um fictício psiquiatra, o doutor Pasavento do título. É curioso observar que o assunto adiado (as fronteiras da realidade e da ficção) acabou por ser o tema central do livro seguinte de Vila-Matas, Exploradores del abismo.

As estratégias adotadas pelo narrador para buscar o sumiço iniciam por essa adoção de uma personalidade fictícia e pela obsessão por Robert Walser, escritor que conseguiu a desaparição tanto na vida real como, de certo modo, na própria ficção. Na ficção? A escrita como um modo de sumir? Os pensamentos do narrador parecem conduzir à célebre frase de Georges Bataille: “Escrevo para apagar meu nome”. Na segunda e na terceira partes, as mais longas do livro, Vila-Matas abusa da mescla entre ensaio e romance, locomovendo-se por referências e citações para compor uma bela reflexão acerca da natureza da literatura. O autor catalão demonstra um incrível talento para desenhar relações inusitadas: através de Walser, passeia por Kafka e Sebald; a partir de uma rua em Paris, liga pessoas tão díspares como André Gide e Karl Marx.

O romance, estruturado praticamente como uma guia do apagamento (impossível não lembrar a famosa música do Radiohead, How to disappear completely), chega ao ápice na quarta parte, na qual o narrador furta a identidade de um escritor que existe, o recluso Thomas Pynchon, cujo rosto é desconhecido por todos. O tema da impostura não é novidade para Vila-Matas, que, com frequência, falsifica a própria biografia, mas em Pasavento alcança novas e instigantes reflexões. Imitador fracassado, o Pynchon de Vila-Matas acaba se tornando um Pinchon com “i”, preso entre o original e a cópia, entre o real e o falso, entre a verdade e a ficção e, portanto, questiona todo esse sistema binário de posições. Um leitor interessado em teoria e filosofia pode associar essa reflexão com a noção de différance, do filósofo desconstrutivista Jacques Derrida.

Dito tudo isso, cabe a pergunta: quem é o leitor de Vila-Matas? Existe um público interessado em uma ficção tão autorreflexiva, erudita, lotada de referências como a dele? Quantos leitores captarão as referências a O arco-íris da gravidade na última parte de Pasavento? Esse tipo de prosa, cuja preocupação central é a própria escrita, não seria de certo modo o fim da literatura? Maurice Blanchot, citado pelo próprio Vila-Matas, profetiza: “Para onde vai a literatura? Rumo a si mesma, que é seu desaparecimento”. Muitos detratores do catalão criticam justamente isso: faltam personagens humanos, dramas terrenos. Falar apenas de literatura não passaria de um exercício de umbiguismo?

Em defesa do autor surge a voz do argentino Alan Pauls, autor do brilhante O passado. Pauls defende que a principal razão para invejar Vila-Matas é que ele resolveu o conflito entre a “literatura de mundo” e a “literatura que fala de si”, pois através das reflexões acerca da própria literatura Vila-Matas alcança o humano, o metafísico e, por que não, o mundo.

Doutor Pasavento, neste contexto, surge como expressão máxima do estilo elaborado pelo autor. Quem já era entusiasta da sua prosa, provavelmente considerará este romance um dos melhores da sua carreira. Aqueles que repudiam esse tipo de ficção, encontrarão mais argumentos para criticá-lo. Sai ganhando o leitor disposto a se perder nas redes de infinitas relações literárias que Vila-Matas constrói, o leitor “enfermo de excesso de literatura” (a doença dos personagens de O mal de Montano), o leitor que não tem medo de, como o narrador de Doutor Pasavento, desaparecer no meio da ficção.


Folha – Em um trecho de “Doutor Pasavento” está escrito: “(…) penso no pouco saudável que, no fim das contas, foi publicar livros e tê-lo feito, em grande parte, para ter certa fama e depois poder administrá-la como um bom burguês e acabar dizendo banalidades em jornais e revistas, incapaz de ser o dono da mais ínfima partícula de terreno de índole privada, pessoal. Escrever é para isso”. O que fazer para que seja diferente?
Vila-Matas - Isso delineia um tema: em todo escritor verdadeiro há sempre um autêntico medo de ser descoberto como um não-escritor verdadeiro, que alguém conheça seus defeitos. Quanto mais verdadeiro e mais autêntico é, mais medo tem de ser descoberto.

Penso também numa frase de Elias Canetti, que diz que todo escritor famoso é um vencedor burguês que está ocupando o lugar de um escritor autêntico, de um escritor que está ausente. É terrível porque, na verdade, eu sempre entendi que o autor de sucesso suplantava o escritor de verdade, que era outro. Mas penso que pode ser que também suplante a ele mesmo, escritor, que só seria livre se não tivesse o nome que alcançou. Para isso, de todo modo, há também a solução de escrever com pseudônimo e voltar ao começo, escrever com toda a liberdade.

O resto tá ótimo e tá aqui.

Reli “Doutor Pasavento” para uma resenha no Jornal do Brasil. Já escrevi a resenha, mas só colocarei no blog quando tiver liberdade para tal, ou seja, depois de sair impresso no jornal.

Depois de ler essa entrevista senti vontade de mudar algumas coisas no meu texto, mas não. Mudar uma opinião por causa do que o autor fala sobre seu próprio livro não parece recomendável. Como dizia uma velha amiga minha, os livros não vem com “pocket writer” junto para te explicar o significado das coisas ou para te apontar caminhos de leituras.


953482-9520-it2O livro Bartleby & Companhia (Anagrama, 2001; CosacNaify, 2005), do catalão Enrique Vila-Matas, monta um verdadeiro compêndio dos “escritores do Não”, gente que, por um motivo ou outro, deixou de escrever. Misturando pessoas de verdade com gente de mentirinha, livros que existiram com outros que não, e histórias/argumentos/especulações que só são possíveis através de um narrador de um livro de ficção, Vila-Matas cataloga os motivos que levam alguém a deixar de escrever.

Como já faz uns três anos que li o livro, não lembro muito bem qual escritor vira um “escritor do Não” por qual motivo. Mas o motivo que mais me chocou foram aqueles que abandonaram a literatura porque nunca se recuperaram após a escritura de uma obra-prima.

Por quê? Bem, porque eu sempre penso nisso no mundo da música. Os exemplos abundam: desde o surto que o Brian Wilson teve nas sessões de gravação do Smile original, pós-Pet Sounds. Como ele ia compor algo que superasse o Pet Sounds? A pressão levou ao piripaque. E eis Brian Wilson gigante de gordo, trancado no seu quarto, se alimentando de milk shakes. Fast-forward para 1991, e temos nosso Brian Wilson moderno. Kevin Shields, líder do My Bloody Valentine, maior exponte do shoegaze (vulgo, ruído alto e alegre-tristonho produzido por gente tímida), após lançar o disco que foi considerado instaneamente um clássico, Loveless, pirou na batatinha, acabou a banda, virou recluso, como Brian Wilson se trancou no quarto, engordou e… bem, começou a criar chinchillas. Muitas chinchillas.

Nada é tão simples assim. “Obra-primas”, eu digo, mas pra quem? Para a crítica? O Bruno Galera sempre preferiu o Isn’t anything ao Loveless. Para muita gente, o Pet sounds está longe de ser o melhor disco dos Beach Boys. Mas, para mim, são todas obras que representam uma grande mudança no paradigma anterior da banda. São discos que se destacam, que são diferentes, e todos tem uma violência estética de intensidade desmedida.

Eu poderia prosseguir com exemplos, poderia falar do fim do Sleater-Kinney após o disco que desconstrói e reconstrói todo o rock clássico, o ruidoso ao extremo The woods. A desculpa que a banda deu foi que uma das garotas saiu da banda para cuidar do filho. Eu, na minha paranóia de rastreador de Bartlebys, desconfio. Isso sem mencionar o Jeff Mangum, do Neutral Milk Hotel.

Quais são as razões? Pressão por parte da crítica? Pressão que eles mesmo se impõem? Será que nunca mais conseguiriam produzir outra obra naquela altura e pareça melhor desaparecer do que continuar produzindo mediocridade? Lembro de Dario Argento e outros artistas que não souberam envelhecer. Será isso? Ou será a violência estética? Penso em Raduan Nassar, o bartleby brasileiro que não consta na enciclopédia do Vila-Matas. Deve acontecer algo com a pessoa após uma experiência tão desgastante. Algo. Mas o quê?


“Tudo que eu sei sobre autoficção é que o termo foi cunhado de 1977 por Serge Doubrovsky e que eu supostamente escrevo auto-ficção”¹ disse uma vez Vila-Matas. Sobre a segunda parte da sua afirmação, é bastante unânimo entre a crítica² que (desde um certo conto no Suicídios Exemplares) o escritor tem enveredado pelo caminho do gênero, trabalhado com o que ele mesmo chamada de “recuerdos inventados” (mais ou menos: “lembranças inventadas”) transformando-se em protagonista de suas histórias e ficcionalizando sua vida.

Até aí tudo bem.

Adelante. Já vi, por exemplo, “O filho eterno” do Tezza, ser chamado de autoficção. A história, autobiográfica até a raiz dos cabelos, mas narrada em terceira pessoa, é, de fato, uma ficcionalização de uma autobiografia. Mas não seria toda autobiografia também ficcional? Até as mais fiéis aos supostos “fatos”, ao apresentar um recorte, não se tornariam ficção? Ou melhor, ao apresentar um ponto de vista do “fato” (que, por si só não existe – porém aí a discussão fica por demais abstrata e filosófica) o estatuto de “verdade” já não estaria comprometido? Bem. Então se toda autobiografia é ficção, não seriam todas autoficção? Não para a crítica. Você não espera encontrar Bill Clinton ao lado de Vila-Matas ou Paul Auster ou J.M. Coetzee em uma lista do tipo. O que separaria a autobiografia do gênero autoficcional? Seria a – pasme – intenção? A crítica não tinha assassinado o autor e enterrado a noção de “intenção” há muito tempo atrás? “My Life” do Bill Clinton se pretende verdade, se vende dessa forma. Já Vila-Matas, por outro lado, se vende como um grande enganador, um contrabandista de identidade falsas³. Estaria a intenção vivíssima na hora de definir o que é ou não autoficção?

A cousa se complica mais quando pegamos a crítica menos acadêmica, mais jornalística. Veja bem: eu demorei anos e mais anos para romper meu preconceito contra John Fante e ler seu “Pergunte ao Pó”. Aquele livro é um exemplo clássico de autoficção, tanto como, sei lá, “Juventude” do Coetzee. Mas Fante e todos seus influenciados são chamados de umbiguistas. Você já viu uma pessoa chamar o Coetzee de umbiguista? Ou o Bolaño? No pior dos casos são colocados em oposição aos “escritores de mundo” (gente preocupada em contar histórias de Outros4) o aos “escritores de imaginação” (eufemismo usado por pessoas que tem preconceito contra gêneros como a ficção-científica e a fantasia).

Bem. Eu não sei o que pensar de tudo isso. Seria “autoficção” apenas um termo besta inventado por um francês empolado5 e pervertido pela crítica para dar sinal de status a um o outro escritor? Ou ele (o termo) tem uma definição muito precisa que me escapa? Eu realmente não sei.

NOTAS:

¹ A frase é mais ou menos essa. Citações de cabeça, nunca dão certo.

2 Ver Vila-Matas Portatil: el escritor ante la crítica.

3 Vila-Matas chega um nível de absurdo de auto-consciência no seu último livro, Dietario Volube, um diário com toques ficcionais. O escritor catalão, que escolhe suas próprias capas, colocou uma foto sua na capa, de costas, e, na orelha, de óculos escuros. A foto de divulgação da época é ele, de óculos escuros, abrindo um sobretudo cheio de fotos diferentes dele. Daí que tirei a expressão “contrabandista de identidades falsas”.

4 “Mas o eu não é um outro?” é a pergunta que salta da leitura Doctor Pasavento. Algo me diz que Lacan já refletiu sobre isso, só que na boa, quem consegue ler Lacan?

5 O termo, pelo jeito, é extremamente pop na frança. O artigo na Wikipédia francesa é três vezes maior que na norte-americana, e usa como exemplo geralmente aqueles escritores franceses que ficam falando quase apenas de sua intensa vida sexual.