2010 está sendo um ano esquisito. No mestrado, tenho aula duas vezes por semana, ou seja, minha presença física no campus é mínima. As leituras exigidas eu já tinha lido 50% antes para a vida. Por quê? Bem, porque gosto de ler, essas coisas. Minha renda, esse ano, toda veio dos chamados “freelas”, i.e., trabalhos que podem ser feitos pelado de madrugada. O resultado? Sobrou muito mais tempo para eu me dedicar aos games. Sendo assim, consigo apresentar um recap das coisas legais e as nada legais que joguei e tenho jogado em 2010.
Sim, mais um post sobre videogames. Nada de literatura aqui. Ninguém está te obrigando a ler.
Assassin’s Creed 2 (PS3): tecnicamente um jogo de 2009, mas só fui jogar agora, quando me emprestaram. Ignore todas as resenhas puxa-saquísticas. Se algum crítico acertou no julgamento dele, foi o pessoal da Destructoid, que deu 4.5. O jogo é “bom” – na maneira que um “blockbuster” é “bem feito”. Tem reconstrução de época milimétrica, tem ótimos dubladores, enfim, o jogo cheira a “gastaram muito dinheiro pra fazer isso aqui”. O problema? A jogabilidade, oras. O que adianta reconstruir Florença do século XVI à perfeição se o jogador não se consegue se mexer direito por ela? A parte “plataforma” de Assassin’s Creed 2 é um dos maiores retrocessos que já vi. O protagonista vai escalar paredes quando deve correr, vai dar um pulo pra trás e despencar de 10 andares quando deveria escalar, e assim por diante. É, digamos, um anti-Uncharted.
Super Mario Galaxy 2 (Wii): “Super Mario galaxy 2 vise plus ou moins la même et superbe ambition : le vertige sensitif.”, escreveu o pessoal do Chronic-Art. Não tiro nem ponho. Ótimo, fabuloso, mas joguei pouco, já que o Wii tá emprestado com a sra. Nesky (vulgo “A Neska”).
Red Dead Redemption (PS3): Apesar do meu post emocionado comparando o jogo com Flaubert, umas ressalvas precisam ser feitas. As missões são repetitivas pra caralho. Sofre do mesmo mal que a maioria dos jogos de mundo aberto: as missões se tornam “vá até ponto X e mate tal pessoa”. Explorar e fazer coisas fora das missões é mais divertido e interessante que o normal se você é fã de westerns, mas cansa, como sempre cansam esses jogos de mundo aberto. A trama é boa, o final é emocionante, é um grande épico. Todavia……………
Dragon Age: Origins (PC): Sucessor espiritual de Baldur’s Gate 2. Ou seja: um jogo chato pra caralho com um bom enredo. É muito difícil se “divertir” jogando ele, mas para quem gosta de acompanhar uma história legal e fazer escolhas, i.e., para quem gosta de RPG papel-e-caneta sem todas as piadas e brincadeiras que surgem da interação com os amigos, é uma boa escolha. Superestimado, porém.
Just Cause 2 (PS3): parece ridiculamente divertida a demo, mas estou esperando entrar em promoção para comprar ou algum amigo emprestar. O mesmo vale para God of War 3. Por que estou mencionando jogos que não joguei no meio do post? Ué, pra ninguém reclamar que eu falei de jogos de 2010 e não mencionei esses, rááá.
VVVVVV (PC): Talvez o jogo do ano. Gráficos da década de 80, sim, mas um dos melhores level designs que já vi, acompanhado da trilha sonora mais viciante do mundo. Parece absurdo, mas um jogo tão simples pode provocar imersão total até nos dias de hoje. Me fez gritar de emoção umas 300 vezes.
Uncharted 2 (PS3): É de 2009, mas só joguei esse ano. Em resumo, é o que Indiana Jones 4 deveria ter sido e não foi. Prova final de que, se tratando de blockbusters e aventura/ação, os games realmente estão à frente. Desista, cinema.
Bioshock 2 (PC): Deixa muitas coisas mais divertidas que o 1º Bioshock por causa de pequenas mudanças, como o novo sistema de hacking, onde você hackeia a segurança enquanto desvia de tiros e corre por aí. O jogo ganha em entretenimento e perde em “fator novidade”. É mais do mesmo: mesmos gráficos, mesmo universo.
Mass Effect 2 (PC): OK, esse sim talvez seja O jogo do ano. Ainda não bati o martelo porque estamos recém em agosto e eu joguei apenas 5 horas dele. Conserta todos os equívocos do primeiro Mass Effect, ou seja, torna a ação divertida, emocionante e intuitiva (tudo que não era antes), incentiva o jogador a fazer quests não-obrigatórios. E o melhor: mantém o acerto do primeiro, que é a fabulosa direção de arte. Para apaixonados por ficção científica, é um jogo obrigatório. A beleza plástica das cenas de diálogo, o prazer que é explorar novos planetas… A influência de Blade Runner está por todo lugar. Mass Effect 2 é sombrio e decadente, à moda de Deus Ex. E lindo. É jogar para crer.


Mês esquisito esse de março. Na Vida Simples #91, tem um artigo meu (imagem acima) sobre a popularização dos videogames e a influência deles na cultura. Na Piauí temos
Veja bem, o jogo envolve resolver uma série de “quebra-cabeças” (embora seja incorreto chamar eles assim) como descobrir que a chave está debaixo do tapete, e para isso precisa “mover” o tapete. Tudo em inglês, claro. Vocês sabem como é saudável para uma criança ter acesso a um jogo desses? OK, alguém vai dizer que saudável é o piá ir pra rua jogar futebol e viver a vida. Mas ignorando isso, pensando que ele se renderá a um entretenimento de massa. Aos sete anos de idade, aprendi todos os verbos em inglês que estão na imagem. Quando clicava no objeto (usando o cursor do teclado como mouse) ainda aparecia o nome. E ainda existiam os adventures de texto, como Police Quest, que tudo era digitado pelo usuário (“open door”). Não só aprendi acidentalmente inglês (e foi realmente jogando videogame que sei o inglês que sei hoje) como (acredito) desenvolvi o raciocínio lógico. São os adventures que me dão esperança numa função “pedagógica” do videogame. Quando os pais se apavoram “ohh, deveria eu deixar meus filhos jogar?”, tenho vontade de mostrar para eles jogos assim. Claro que não vejo nada de errado em jogar games de tiro e corrida quando criança, mas os adventures, ah, os adventures.
Machinarium, que mencionei na primeira linha, é prova disso. O jogo, criado por um pessoal da República Tcheca, traz gráficos desenhados a mão, robôs tragicômicos, referências a Atari, trilha sonora digna de um disco ambient que a Pitchfork elogiaria. O jogo não utiliza diálogos (uma criança não aprenderia inglês, portanto), mas exercita o raciocínio nos mais diversos fronts de batalha: do puzzle mais hardcore ao uso do ouvido musical. O encanto permanece o mesmo que na época que eu jogava o primeiro Sam’n'Max.

