OK. Vamos fazer o seguinte, vamos fazer de conta que não sabemos nada sobre o tribunal ao qual Gustave Flaubert foi submetido. Vamos apagar tudo que acidentalmente ficamos sabendo sobre aquele processo. Vamos apenas nos lembrar da frase famosa “Emma Bovary c’est moi”. Considere isso um exercício. Exercícios são coisas que as mentes ociosas acabam fazendo, sem muita razão ou propósito, mas que soam um tantinho mais produtivos do que virar uma noite tentando bater recordes de time trial no VVVVVV.
Emma Bovary c’est moi, sou eu. Modos de entender isso fora do contexto. Primeira possibilidade: eu simpatizo com a luta de Emma. Eu também detesto a mediocridade provinciana, eu também detesto os modos da sociedade, eu também sou contra esse casamento-prisão. O romancista toma a luta (ideológica? política?) da protagonista para si. O romance a princípio disfarça: narrador em terceira pessoa, atitudes de menina mimada ocasionais por parte da Emmita. No tribunal, porém, o romancista escancara, sou eu, eu carrego essa bandeira contra a hipocrisia dos bons costumes.
Segunda possibilidade: eu sou Emma, ela é baseada na minha experiência pessoal. Bem, senhor Flôba, você é adúltero? Vou contar para sua esposa. Você acaba de confessar no tribunal que trai sua mulher e se deixa levar pelos amantes, e que depois é capaz dos atos mais extremos de mãozinha no joelho para conseguir dinheiro em um momento de desespero. Você está disposto a admitir isso, senhor Flaubert? Está?
Porra, Flaubert. Você tem coragem.
O pós-modernismo dê-lhe que dê-lhe brincando de nos confundir. A literatura enquanto jogo. Vila-Matas, o contrabandista de identidades construindo passados falsos para si em cada um dos seus livros. Borges mesclando fato e ficção sem distinção. A foto do Bernardo Carvalho (verdadeira? falsa?) quando criança ao lado de um índio na orelha do Nove Noites. “Escritores são mentirosos profissionais”, dizendo o Mojids para toda a Wikipédia. E você chega, Flaubert, lá do passado, e o seu Madame Bovary c’est moi perdura. As circunstâncias em que foram ditas se perdem, são esquecidas, não são mencionadas na quarta capa nem na orelha nem no prólogo. Mas a frase segue, em todos os cantos do mundinho literário, excessivamente citada, abusada, ligando para sempre romancista e personagem, fazendo a tão temida conexão autor e obra, tão detestada por Barthes. Porra, Flaubert.

Alerta: contém spoilers.
O filme sueco Deixa ela entrar¹ (2008) implora tanto por uma leitura psicanalítica que isso quase reduz sua possibilidade de múltiplas leituras. O que seria uma pena, claro, pois é raro ver um filme nos cinemas que enfoca justamente o tema mais “na moda” da filosofia contemporânea, que é a questão do limiar, da fronteira enquanto território de passagem. Não li o livro no qual o filme se baseia, mas o diretor de Deixe ela entrar obsessivamente registra janelas e portas. O prédio é visto enquanto duas janelas não comunicantes; os quartos são filmados com a distância do marco da porta, através da porta; os personagens, para chegar até onde está alguém, sempre batem na porta e pedem passagem. Até, claro, o momento ápice onde a personagem-chave, a menina vampiro Eli, explica o folclore vampírico do “deixar entrar” ao tímido garotinho que só apanha dos colegas. É necessário “deixar entrar” o desejo de morte, aceitar o lado ruim de si (“eu sou como você”, diz ela, e então rouba a sua voz e repete o desejo de vingança dele, ‘grite feito um porco’”). O ônus da entrada sem aceitação prévia é o sofrimento interno do recalque: o sentimento de raiva em ebulição, caso rejeitado, se transforma na frustração crescente que explode em choro de sangue. É isso que acontece se você não me deixar entrar – estamos falando afinal, de um garoto de 12 anos. Eros e Tânatos, sempre Eros e Tânatos. O desejo sexual surge concomitante com o desejo de morte. Síntese máxima, talvez: o vislumbre do órgão sexual da menina-vampira com marca de violência, a sugestão de castração. Estamos diante de um filme com três colheradinhas de Buñuel, sete doses de Bergman e algumas tantas de coragem. De resto, a estratégia do filme é uma pela qual nutro carinho, a reinvenção da lenda, no caso, a do vampiro. Reinvenção esta que não se dá da maneira banal de que todo filme de vampiros reinventa suas regras – em X filme crucifixos são inúteis, em Y a luz do dia não os barra – mas sim através da ambiguidade. Enquanto filmes de vampiros costumam afirmar categoricamente “ser vampiro é isso”, Deixe ela entrar mantém “O que é ser vampiro?” sem nunca responder a questão. O vampiro, ali, é uma figura do “outro” cuja entrada mediamos, e que nunca conheceremos por completo.

