Não entendo de quadrinhos, HQs, graphic novels. Por muito tempo achei o formato um saco, porque sempre tentavam me empurrar a série Sandman, do Neil Gaiman, e eu lia aquilo lá na esperança de encontrar a revelação que os outros leitores tinham. O resultado? Acabei nunca me interessando muito por HQs, e só a partir do ano passado, quando li a obra-prima Watchmen, fiquei com vontade de ler mais coisas no formato. Segue, então, micro-resenhas de quadrinhos que li de lá pra cá, em uma visão bem impressionista da coisa. Impressionista, claro. Como seria diferente? Não entendo do assunto. Enfim. Coloquei os HQs em ordem cronológica de leitura:
Persépolis, de Marjane Satrapi: Li numa época em que eu estava bastante interessado nas questões do multiculturalismo (ou melhor: em todos os pontos onde ele fracassa), no debate diversidade cultural vs. diferença cultural. Talvez Persépolis não tenha lançado muitas luzes nessa área, mas o humor do livro me conquistou. Mais tarde li outro livro da Satrapi, o
Frango com ameixas, de Marjane Satrapia: que achei muito melhor que o Persépolis. É bem mais curto. Se Persépolis é uma graphic novel, Franguito é um graphic conto (porque graphic short story é meio brega). O charme do livro está na estrutura, em costurar a narrativa de forma muito criativa, de modo que o final, previsto desde a primeira página, se revela como uma grande surpresa. Chorei litros.
O Incal, de Alejandro Jodorowsky: sabe aquele tipo de livro que você adora, mas não recomenda para ninguém, porque sabe que as chances de outra pessoa gostar daquilo são ínfimas? Pois é. É assim com O Incal, viagem futurista do genial cineasta Jodô. Muita metafísica barata, muito anos 80 na veia, e, o melhor, desenhos do Moebius. Não recomendo a ninguém, mas amo secretamente.
Promethea, do Alan Moore: altas expectativas por ser do mesmo autor de Watchmen. Não vi graça. Mal lembro do HQ para comentar aqui. Só lembro que tinha mil referências, como todos livros do Alan Moore.
Maus, do Art Spiegelman: altas expectativas porque ganhou prêmios importantes. Gostei muito da parte da autoficção, das discussões da dificuldade de contar a história. De resto, não me emocionou como parece ter emocionado outras pessoas. Me agradou a caracterização dos nazistas/judeus feita com animais, e alguns dos desenhos são estarrecedores.
Mesmo delivery, de Rafael Grampá: puta que pariu! Curtíssimo (consegui ler cagando) e impactante. Parecia que eu estava assistindo um curta do Takashi Miike. Mal posso esperar pelo Furry water.
Fun home, de Alison Bechdel: disparado o melhor que li dessa lista. A princípio tive birra com o jeitinho indie de desenhar da autora, mas ela me conquistou com a estrutura e a premissa. É a história de como se descobriu lésbica e, mais importante, seu relacionamento com o pai. A graça? Cada capítulo é mais ou menos montado em cima de uma obra literária. A cada parte compreendemos melhor o pai da narradora através da literatura. Alison Bechdel, que não era capaz de entender a esquisita relação que mantinha com o pai, que se suicidou, é capaz de chegar a um novo nível de compreensão pela leitura dos livros, que, no final das contas, eram a única coisa que ela tinha em comum com aquela figura paterna tão ambivalente.
Vallat: uma investigação dadaísta, de Milano e Moser: não me disse nada. Mas tem desenhos bonitos.
Hellboy: A feiticeira troll e outras histórias, de Mike Mignola: sou fã dos filmes do Guillermo del Toro, mas essa HQ me matou de tédio. Histórias curtas demais para empolgar. Não vi a menor graça.
Leões de Badgá, de Brian K. Vaughn: metáfora óbvia da guerra, mas eficaz. Interessante, mas não deixou marcas.
Retalhos, de Craig Thompson: bonitinho e fofinho, mas dá nos nervos por exagerar nessas características. Muita vontade de sacudir o protagonista e gritar “deixa de frescura!”. Vale muito pelos desenhos e pela arte narrativa de contar e dizer muito através dos desenhos. Assim como o melhor do cinema reside no trabalho narrativo pela imagem, talvez em HQs seja igual, não sei. O fato é que minha sensibilidade ainda não está devidamente treinada para avaliar. Senti que lendo Retalhos aprimorei essa sensibilidade.
Black hole, de Charles Burns: Seattle, década de 70. Doença misteriosa transmitida sexualmente transforma adolescentes em mutantes. Que premissa mais Cronenberg, não? Em Black Hole, os personagens todos são tão parecidos fisicamente que chegam a confundir o leitor. Acredito que era a intenção. Todos personagens, de certa forma, sofrem dos mesmos males. É uma HQ de atmosfera. O enredo é quase irrelevante, não vai a muitos lugares. A HQ triunfa mesmo pela atmosfera criada, pelos joguinhos semióticos que parecem uma versão visual de História do olho do Bataille (calma, não estou falando de pornografia, semiótica gente, semiótica). Não sei se é uma HQ para não-iniciados. Parece o tipo de livro que eu gostaria de ler depois de ter ganho mais experiência com o formato.
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É isso. Ontem o Samir me emprestou Umbigo sem fundo, do Dash Shaw. Vamos ver que tal.