Simbiose

06/07/10 | Tags:

a) Quero falar da HQ “Cachalote”, de D. Galera e R. Coutinho. Não brincarei de resenha porque sempre surge um mala gritando “amiguinho mimimi”, mesmo quando eu tenho um longo histórico de dizer, sem receios, que não gostei quando, de fato, não gostei.

b) É interessante ver como o estilo do Galera é observável não apenas no texto, mas nos desenhos. Uma breve cena numa agência publicitária (ou seria uma produtora de cinema? – agora bateu a dúvida) podemos ver as descrições Galereanas na imagem, não só no texto.

c) Seria muito idiota, porém, pensar que DG escreveu o roteiro, com diálogos e descrições, e que Coutinho simplesmente “adaptou” o texto.

d) A impressão que passa é que o trabalho a quatro mãos foi de profunda simbiose. Rola uma “iluminação recíproca das artes”. O traço de Coutinho, o preto sobrecarregado em certas partes, como se deixassem cair um frasco de nanquim numa parte do quadro, diz muito sobre o texto do Galera. Mais do que “combinar com ele”, revela cantos obscuros.

e) Da mesma forma, é fácil ver como Coutinho, que também segue seu estilo, parece ganhar com a interação. Falei mais do “lado” do Galera porque entendo mais da questão textual do que da questão gráfica, mas reforço: é recíproco.

f) Terminando “Cachalote”, se sai com a sensação de que aquilo foi um esforço colaborativo que deu muito certo. Olhando a foto dos dois no jornal, quase pensamos que Galera e Coutinho são gêmeos ou döppelgangers, William e Wilson. Um desenhista diferente poderia ter cagado tudo e vice-versa. Ainda bem para nós, leitores, que os sósias se encontraram.


Sugestãm

24/05/10 | Tags:

Essa HQ maravilhosa que é Asterios Polyp, do David Mazzucchelli (o cara por trás da adaptação de City of glass, do Paul Auster). Como a maioria dos leitores aqui do blog sabem, não entendo lhufas de quadrinhos, mas sou um apreciador dessa nova leva de graphic novels de viés chororô sem super-heróis.

Asterios Polyp, arquiteto divorciado, é o protagonista dessa HQ narrada pelo seu irmão gêmeo natimorto. A la Joyce, Mazzucchelli faz seu personagem percorrer a Odisséia de Homero, mais como desculpa, talvez, para lotar a trama de referências a filosofia grega (platonismo, solipsismo, biriri blororó). Seja como for, Asterios Polyp me lembra muito Umbigo sem fundo, do Dash Shaw, pelo uso criativo do espaço da página. Como o protagonista é um arquiteto, muitas das teorias são “aplicadas”, digamos, no espaço do quadrinho. Além disso, cada personagem fala com uma tipografia específica, e cada “balão” de fala é moldada de acordo com a visão de mundo. O contraste, como fica óbvio logo nas primeiras páginas, é da visão cartesiana e dialética de mundo versus (humm… fiquei sem os termos certos agora) a pluralista e… bem…

Alguns momentos a HQ parece forçar a barra para se deixar entender nos mínimos detalhes (ver imagem abaixo), mas nada que tire a força da narrativa. Uma pequena preciosidade que, dizem as más línguas, ainda vai demorar para sair no Brasil. Bom, pesquisando lojas de livros usados dá para encontar a edição hardcover por um preço bem decente. E essa é minha sugestão de segunda-feira.

(agradecimentos a Izadora Skcsksruiwjww77834, que me mostrou a HQ no início do ano)


umbigoAlerta: alguns pequenos spoilers salpicados por aqui.

No post anterior fiz aquela leiturinha impressionista de quase todos os HQs que li desde que HQs despertaram meu interesse. Como todos viram, não entendo muito do assunto. Ainda assim, quero gastar umas palavrinhas para falar da que li ontem, Umbigo sem fundo, do Dash Shaw, que, junto Fun Home, achei a melhor graphic novel do balaio. A história conta da separação de um casal já bastante idoso e de dramas/tensões familiares que o divórcio gera nos filhos. É uma proposta típica do cinema alternativo norte-americano, e a HQ de fato lembra em mais de um momento, os filmes de Wes Anderson e Noah Baumbach. O tom está sob medida: assim como em Os excêntricos Tenenbaums, o cômico e o trágico interagem das mais diversas maneiras, ora transformando o triste em patético, ora fazendo do humor, bem, humor negro. Umbigo sem fundo também lembra o filme Felicidade, do Todd Solondz, mas sem aquele pessimismo-chororô de “no fundo todo mundo é podre por dentro”.

O que, para mim, foi o verdadeiro triunfo da HQ, no entanto, é a questão da especificidade da linguagem. Na minha opinião, o melhor cinema é aquele que se vale dos recursos exclusivos à linguagem cinematográfica e busca significar não apenas através do roteiro, mas principalmente por meio de enquadramentos, movimentos de câmera, &c, como os filmes do Michael Mann, por exemplo. Da mesma forma, a literatura não pode apenas ser descrições de movimento + falas das personagens. Essa é a fórmula do best-seller. Talvez seja esse o motivo da já-célebre frase de Stanley Kubrick Alfred Hitchcock, que só um livro medíocre pode gerar um grande filme. O bom livro se vale de recursos que só a linguagem literária permite, como invadir a consciência das personagens, ou, algo mais banal, mas não menos interessante: uma bela frase, uma frase sonora, bem construída.

Umbigo sem fundo se vale o tempo todo da especificidade da linguagem. Um dos personagens se vê como um sapo, e lá está ele representado como um sapo (exceto em um momento-chave): ainda que isso seja possível de ser feito no cinema, não funcionaria tão bem como nas HQs. A valorização da linguagem-HQ se manifesta, também, de várias formas. Certas imagens estão em um quadrado pequeno no meio da página, sozinhas, abandonadas na página. Outras séries de imagens são interrompidas no meio da página. Alguns quadrinhos estão deslocados dos outros quadrinhos. As elipses (um objeto se transforma em outro no quadro seguinte), tão comuns no cinema, aparecem com frequência em Umbigo (não tanto como em Black Hole). Há, ainda, a questão das rubricas, pequenas coisas escritas sinalizando movimento, como “vira”, “abre”, “escova”. Ouvi reclamações que davam a impressão que o desenhista não confiava nas suas imagens para comunicar esses movimentos. Eu, discordando, vi aquilo como “ironia do narrador”, uma espécie de ironia que só os quadrinhos podem comunicar. Me lembrou o narrador em off da série Dogville-Manderlay do Lars Von Trier. É curioso que as rubricas desaparecem de vez em quando, e, ainda que eu não tenha bolado uma interpretação para elas, não parecem gratuitas.

Em continuação do post anterior, Umbigo sem fundo parece uma boa HQ para pessoas como eu, que estão recém começando a desbravar a selva quadrinhística. Ela chama a atenção para usos criativos da “forma” quadrinhos que não são óbvios para quem está acostumado com um livro onde só tem palavras. O difícil será voltar a ler uma HQ “normal” agora.


Não entendo de quadrinhos, HQs, graphic novels. Por muito tempo achei o formato um saco, porque sempre tentavam me empurrar a série Sandman, do Neil Gaiman, e eu lia aquilo lá na esperança de encontrar a revelação que os outros leitores tinham. O resultado? Acabei nunca me interessando muito por HQs, e só a partir do ano passado, quando li a obra-prima Watchmen, fiquei com vontade de ler mais coisas no formato. Segue, então, micro-resenhas de quadrinhos que li de lá pra cá, em uma visão bem impressionista da coisa. Impressionista, claro. Como seria diferente? Não entendo do assunto. Enfim. Coloquei os HQs em ordem cronológica de leitura:

Persépolis, de Marjane Satrapi: Li numa época em que eu estava bastante interessado nas questões do multiculturalismo (ou melhor: em todos os pontos onde ele fracassa), no debate diversidade cultural vs. diferença cultural. Talvez Persépolis não tenha lançado muitas luzes nessa área, mas o humor do livro me conquistou. Mais tarde li outro livro da Satrapi, o

Frango com ameixas, de Marjane Satrapia: que achei muito melhor que o Persépolis. É bem mais curto. Se Persépolis é uma graphic novel, Franguito é um graphic conto (porque graphic short story é meio brega). O charme do livro está na estrutura, em costurar a narrativa de forma muito criativa, de modo que o final, previsto desde a primeira página, se revela como uma grande surpresa. Chorei litros.

O Incal, de Alejandro Jodorowsky: sabe aquele tipo de livro que você adora, mas não recomenda para ninguém, porque sabe que as chances de outra pessoa gostar daquilo são ínfimas? Pois é. É assim com O Incal, viagem futurista do genial cineasta Jodô. Muita metafísica barata, muito anos 80 na veia, e, o melhor, desenhos do Moebius. Não recomendo a ninguém, mas amo secretamente.

Promethea, do Alan Moore: altas expectativas por ser do mesmo autor de Watchmen. Não vi graça. Mal lembro do HQ para comentar aqui. Só lembro que tinha mil referências, como todos livros do Alan Moore.

Maus, do Art Spiegelman: altas expectativas porque ganhou prêmios importantes. Gostei muito da parte da autoficção, das discussões da dificuldade de contar a história. De resto, não me emocionou como parece ter emocionado outras pessoas. Me agradou a caracterização dos nazistas/judeus feita com animais, e alguns dos desenhos são estarrecedores.

Mesmo delivery, de Rafael Grampá: puta que pariu! Curtíssimo (consegui ler cagando) e impactante. Parecia que eu estava assistindo um curta do Takashi Miike. Mal posso esperar pelo Furry water.

Fun home, de Alison Bechdel: disparado o melhor que li dessa lista. A princípio tive birra com o jeitinho indie de desenhar da autora, mas ela me conquistou com a estrutura e a premissa. É a história de como se descobriu lésbica e, mais importante, seu relacionamento com o pai. A graça? Cada capítulo é mais ou menos montado em cima de uma obra literária. A cada parte compreendemos melhor o pai da narradora através da literatura. Alison Bechdel, que não era capaz de entender a esquisita relação que mantinha com o pai, que se suicidou, é capaz de chegar a um novo nível de compreensão pela leitura dos livros, que, no final das contas, eram a única coisa que ela tinha em comum com aquela figura paterna tão ambivalente.

Vallat: uma investigação dadaísta, de Milano e Moser: não me disse nada. Mas tem desenhos bonitos.

Hellboy: A feiticeira troll e outras histórias, de Mike Mignola: sou fã dos filmes do Guillermo del Toro, mas essa HQ me matou de tédio. Histórias curtas demais para empolgar. Não vi a menor graça.

Leões de Badgá, de Brian K. Vaughn: metáfora óbvia da guerra, mas eficaz. Interessante, mas não deixou marcas.

Retalhos, de Craig Thompson: bonitinho e fofinho, mas dá nos nervos por exagerar nessas características. Muita vontade de sacudir o protagonista e gritar “deixa de frescura!”. Vale muito pelos desenhos e pela arte narrativa de contar e dizer muito através dos desenhos. Assim como o melhor do cinema reside no trabalho narrativo pela imagem, talvez em HQs seja igual, não sei. O fato é que minha sensibilidade ainda não está devidamente treinada para avaliar. Senti que lendo Retalhos aprimorei essa sensibilidade.

Black hole, de Charles Burns: Seattle, década de 70. Doença misteriosa transmitida sexualmente transforma adolescentes em mutantes. Que premissa mais Cronenberg, não? Em Black Hole, os personagens todos são tão parecidos fisicamente que chegam a confundir o leitor. Acredito que era a intenção. Todos personagens, de certa forma, sofrem dos mesmos males. É uma HQ de atmosfera. O enredo é quase irrelevante, não vai a muitos lugares. A HQ triunfa mesmo pela atmosfera criada, pelos joguinhos semióticos que parecem uma versão visual de História do olho do Bataille (calma, não estou falando de pornografia, semiótica gente, semiótica). Não sei se é uma HQ para não-iniciados. Parece o tipo de livro que eu gostaria de ler depois de ter ganho mais experiência com o formato.

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É isso. Ontem o Samir me emprestou Umbigo sem fundo, do Dash Shaw. Vamos ver que tal.