1363168_4Já li muitos, muitos, muitos livros brasileiros lançados nessa década. De todos os que li, só talvez Mãos de Cavalo chegue perto do impacto emocional que me causou O paraíso é bem bacana, do genial André Sant’Anna. Eu já tinha lido a famosa resenha do Antonio Marcos Pereira onde ele defendia o livro, eu já sabia que o Lucas Murtinho considerava um dos poucos livros brasileiros relevantes da década, mas o pessoal que DETESTA esse livro é bem grande. Também, é um tijolão de 450 páginas sobre um jogador de futebol semi-analfabeto que para chegar ao paraíso muçulmano das 72 virgens se explode no estádio. Como todos os livros do André Sant’Anna (que eu não li, mas que vou correr para ler), a escatologia predomina, e não tem uma palavrinha bonita num raio de 100 páginas. É fácil de entender o ódio de muitos leitores, e talvez por isso eu tenha me enrolado para ler – fiquei sabendo da existência do livro logo que saiu, em 2006, vi a palestra do Sant’Anna na FLIP, mas só fui ler agora em 2009.

Sant’Anna se vale da “linguagem do preconceito”, como ele mesmo define, e extrai virtuosismo das palavras mais ordinárias, banais, mortas. Sim, virtuosismo!, na estrutura, no ritmo. Depois de quinze páginas, sem um indicador de nome conseguimos identificar quem é cada um dos inúmeros narradores que fazem parte da saga polifônica. O livro nos conduz num encadeamento de consciências, monólogos e narrações, saltando de uma para outra nos momentos mais oportunos, seguindo uma unidade invisível, porém coerente. Mas não são só firulas formais, o romance de André Sant’Anna tem o que dizer ainda por cima. Coisa brega, fora de moda, não? Eu adoro. Adoro um livro que tem o que dizer¹.

O Antonio Marcos já indicou: lembra a segunda parte d’Os detetives selvagens, mas é muito, muito diferente. O paraíso é bem bacana parece um livro que só poderia ter sido escrito aqui, no Brasil. Isso não é uma vantagem ou uma característica necessariamente nobre, mas não deixa de ser interessante. Ele é marcadamente brasileiro, quase impossível de ser traduzido, e ele é arriscado, ousado. Eu ainda não entendo como a Companhia das Letras topou publicar. Esse é um livro… complicado. Fácil de ser mal compreendido. Fácil de ser rejeitado, esnobado. Porém é um livro inteligente e com um coração enorme. Me desculpem, eu terminei de ler ele faz uns 20 minutos, ainda estou escrevendo sob emoção forte. Que livro. Que livro.

¹ [UPD]: Com “ter o que dizer” não me refiro a uma “mensagem” tosca do tipo “é necessário ser tolerante com o outro” ou “o livro é uma denúncia a…”. Não acredito em separação forma/conteúdo. O conteúdo muitas vezes está na forma (ver Michael Mann). Com “ter o que dizer” muitas vezes me refiro a um livro que oferece claramente um espaço para reflexão, que direciona o leitor a esse espaço (é possível refletir sobre qualquer livro ou produto cultural, óbvio, mas-). OK, estou me estendendo demais. Outra hora desenvolvo isso em um post sozinho.


Sempre li muito a nova produção brasileira contemporânea, mas desde que sou considerado um escritor tenho lido mais por um simples motivo: Muitos novos autores me abordam e me enviam uma cópia de seu livro de estreia (que eu geralmente retribuo enviando uma cópia do meu). Eternamente grato a eles, eu fico. Um livro que não é lido é um livro morto, e um que não é discutido é um morto-vivo, e me incomoda que tenha tanta gente lançando e tão pouca gente discutindo. A “falta de massa crítica” que o Barbão apontou. Então decidi a partir de agora aproveitar o espaço do blog e comentar algumas dessas leituras que tenho feito. São comentários sinceros e impressionistas: nada de trabalho crítico para a faculdade ou resenha séria para o jornal. Talvez eu sofra um pouco, sim, daquilo que chamei de condescendência nacional.

capamenino 1) O menino da rosa – Tony Monti (Hedra, 2007)

Esse livro aqui chegou acompanhado de outro, eXato acidente, que ainda não li. Escolhi, dentre os dois, ler O menino da rosa por uma questão de frescura: me desagradou a diagramação do eXato acidente, achei cansativo de ler.

Não sabia o que esperar do livro, não conhecia o trabalho do Tony nem tinha escutado comentários. O menino da rosa é um livro agradável, muito agradável, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Retrato de uma infância inventada (adoro), o livro está algum lugar entre o livro de contos e a novela, e esbanja melancolia infanto-juvenil. Tem seus momentos bonitos, e a leitura é fluída. Porém, falta empolgação, falta TRANSTORNO, para o meu gosto. Não era a proposta do Monti, acredito, e na sua proposta ele sai muito bem: reminiscências ficcionais triste-alegres.

9788560160259 2) Mais ao sul – Paloma Vidal (Língua Geral, 2008)

Aqui o caso foi diferente: eu abordei a autora. Gostei da participação dela na revista online Cuadernos Cecilia, e o meu amigo Rodrigo Maceira, cujo gosto literário é bem parecido com o meu, recomendou muito o trabalho da Paloma. A edição da Língua Geral é muito bonita e funde o caráter artesanal das pequenas editoras com um ar de profissionalismo das grandes. A autora, tecnicamente argentina (embora moradora de São Paulo e escrevinhadora em português), vem paraninfada por graúdos: Noll, Ruffato e a Beatriz Resende. As expectativas, portanto, eram altas.

É um livro irregular (como quase todo livro de contos?), porém quando acerta, acerta. Desde que li o livro (faz mais de mês), vez ou outra, caminhando na rua, me lembro de alguma cena dos contos. O talento da Vidal é muito de atmosfera. Meu conto favorito do livro, Jesus de El Paso, lembrou os contos do Bolaño no Putas Asesinas. Gosto do uso criativo que ela faz da língua espanhola dentro do português, ainda mais porque essa dupla identidade – entre a argentina e a brasileira – é o tema chave do livro. A obra de Vidal abre com um conto mais longo que os outros, de 40 páginas (alguém pode chamar isso de novela), e, na minha opinião, a autora trabalha melhor com uma narrativa mais longa. Acho que ela se daria melhor em um romance do que em um livro de contos. Seja como for, Mais ao sul é uma estréia bem interessante.

capaacaricia3) Acaricia meu sonho – Marcelo Barbão (Amauta Editorial, 2007)

Barbão conheci da mesma forma como conheço muita gente: com ele me corrigindo no twitter porque eu disse algo incorreto. Barbão trabalhou na Amauta Editorial, responsável por traduzir algumas das melhores cabeças latinas para o português.

O livro me desagradou no início, por uma série de frases desajeitadas nos primeiros capítulos. Peguei vício de editor, de querer sublinhas e apontar essas coisinhas. Acho que com um trabalho de editoração mais pesado o livro teria um início muito melhor. Também me incomodou um sentimentalismo exagerado, embora tenha relação com a proposta (o título do livro, assim como os títulos dos capítulos, todos, fazem referência a clássicos do tango). O livro, porém, não é o início: a prosa vai progressivamente envolvendo o leitor, até seu desfecho quase metafísico que obriga repensar tudo que foi lido anteriormente. É essa sacada o maior triunfo do livro, a chave de leitura que altera tudo. Sem ela, seria um livro agradável, com ela, se torna um livro bem interessante. Tenho curiosidade para ver o futuro do Barbão como escritor. O da Paloma Vidal também, e o do Tony Monti também. São, afinal de contas, iniciantes.


É comum, em entrevistas, pedirem a um escritor que ele dê conselhos àqueles que estão começando. Parece uma pedido válido. O erro está, talvez, que sempre perguntam isso para mim. Eu tento, claro, desestimular o entrevistador e convencê-lo de que quem está iniciando sou eu, eu que preciso conselhos – que eu tentar dar um conselho não passa de hipocrisia. Mas o entrevistador insiste – foi treinado para isso – e eu respondo (ou melhor, respondia) sempre, que é ler, ler muito, ler literatura contemporânea, ler o que tem sido feito no Brasil hoje em dia para saber em que cenário vai se inserir. Esses dias, entretanto, percebi que eu tinha um conselho muito mais útil para dar, e muito mais enfadonho. É o seguinte: domine os mecanismos de paráfrase da língua. Sério. Com paráfrase não digo só truquezinhos para evitar repetições, por exemplo, em uma frase usar Michael Jackson e na seguinte “o rei do pop” – isso é coisa do jornalismo, não da literatura. Quando falo em dominar os mecanismos de paráfrase, falo em reler todo o texto e substituir partes dele por equivalentes semânticos de forma que o texto fique mais fluído, para que não abuse de gerúndios, para que… E não só por isso, não só por limpeza. A diferença entre uma expressão “certa” que diz o que você quer dizer e a expressão EXATA é brutal. Então, aqui vai um conselho: mecanismos de paráfrase. Monótono? Talvez. Quem mandou pedir conselho para um guri com menos de 25?