…supondo que, por algum motivo, tem interesse no que eu escrevo. De resto, esse post poderia muito bem se chamar “Formspring him”.

P: É um livro de contos ou um romance?

R: De contos.

P: Por que voltar aos contos?

R: Porque passei a revalorizar o gênero após leituras de Bolaño, Vila-Matas, Barth, Paley e outros. E também porque, por mais que eu esteja trabalhando em um romance, tive um surto de escrita de contos. Não conseguia parar de escrever. E qual a graça de ter uma editora independente se eu não posso publicar livrinhos como esse?

P: Editora independente. Então você não vai tentar publicar por uma maior?

R: Não esse livrinho, até porque sei que editoras grandes nunca se interessam por contos. Meu próximo romance é outra história, esse eu tentarei. Claro, há chances de eu nunca passar para uma grande e continuar tendo que bancar meus próprios livros. O que me levaria a desistir da brincadeira cedo ou tarde (de publicar, já que parar de escrever é meio impossível para mim).

P: Por que você se refere a ele como “livrinho”?

R: Por causa do tamanho. Será um livro pequeno. Terá uns 7, 8 contos. Claro, serão contos gorduchos, contos como antigamente, extensão Poe, não minicontos, apesar de alguns mais breves.

P: E tem unidade temática?

R: Não acredito em livro de contos sem isso. Só tem contos metaliterários nele, ou seja, uso a própria literatura para falar de literatura. O que é diferente de metaficção. Longa história. Em resumo: os contos giram em torno de leitores, escritores, editores. Essas coisas. Mas são divertidos, creio. Nada de academicismo e “livro para críticos”.

P: E quais as referências principais?

R: Os seguintes livros de contos metaliterários: Llamadas telefónicas, do Bolaño (primeira parte), Exploradores del abismo, do Vila-Matas, e Sonho interrompido por guilhotina, do Joca Reiners Terron. Todos tem mais ou menos a mesma unidade temática que busquei.

P: Quem será responsável pelo visual do livro?

R: O que mais me levou a querer publicar é essa parceria com a fotógrafa Ieve Holthausen, que vai produzir especialmente para o livro várias fotografias. Ela que fez a capa do Pó de parede e as imagens internas.

P: E aquele ensaio sobre o qual você falou aqui. Vai entrar no livro?

R: As primeiras reações ao ensaio foram: “muito chato” e “insuportável”. Não, não vai entrar. Meu plano é liberar ele em PDF mais além, para quem quiser. Acho uma boa companhia para os contos, ainda mais que menciona personagens ficcionais dos contos do livro.

P: Pode falar um pouco de algumas histórias do livro?

R: Duas garotas procuram um original perdido do Borges. Detetive literário busca descobrir onde se esconde Thomas Pynchon, baseado na suposição de que ele foi substituído por um fã. Um conto autoficcional sobre videogames e literatura. Estudante de jornalismo pensa em inúmeras possibilidades de encontro com escritor que admira. Cervantes é sacaneado por cientificistas e seu Quixote é reescrito. Paraplégico narra surgimento e fim de uma nova cena literária. E mais dois contos que ainda não decidi se entram.

P: Se eu detesto esses livrinhos umbiguistas que só ficam falando de literatura… eu deveria ler?

R: Não. E também não entendo o que você está fazendo nesse blog, já que vivo falando de Coetzee, Vila-Matas e companhia, gente que faz exatamente isso.

P: Ele já tem título?

R: Ele tem vários títulos, só não consigo me decidir qual. Um dos descartados foi: “A página assombrada por fantasmas”. Outro descartado foi: “Viagens ao redor da página”.

P: Quando sai?

R: Quero ter a versão final do livro, revisada, até fim de março. O plano é que saia, portanto, lá por julho de 2010.


werbcard_foralugarSe ficou pequeninho (e eu sei que ficou), traduzo aqui: lançamento do livro Fora do lugar, do Rodrigo Rosp, nessa quarta, 2 de dezembro, a partir das 19h, no Boteco do Beco (Dona Laura, 78), em Porto Alegre.

Rosp é meu sócio na Não Editora, e Fora do lugar é o segundo livro dele pela editora. Li a primeira versão do livro no início do ano, e apontei mil coisinhas de sugestões. Muito grande foi minha alegria quando recebi, essa sexta, o volume recém saído da gráfica. Além da edição ter ficado linda, reli o livro inteiro em uma sentada, e nossa, o Rosp trabalhou bastante os contos: estão bem melhores que naquela primeira versão que li. Mais alegria ainda foi porque percebi como o Rosp evoluiu do humor mundano do seu primeiro livro para o estranhamento desse segundo. Não digo isso para puxar saco, só porque é da minha editora, não. Até porque a Não Editora é Não Editora (seis pessoas), e não Xerxenesky Editora, ou seja, não se publica só o que eu gosto.

Mas voltando ao Rosp: tem contos muito bons ali, que investem pesado em uma esquisitice incômoda, que me lembraram os textos mais breves do uruguaio Mario Levrero. No final do livro tem uma cronologia de escrita/publicação dos textos, e nossa, como fiquei contente de notar que os dois contos que me desagradaram são também os mais antigos, redigidos em um remoto 2004. É a prova final da evolução do Rosp enquanto escritor, e isso, de certa forma, me fez acreditar de novo nessa idéia de “evolução”. Um escritor pode melhorar sim, cada vez mais. Basta trabalho duro. E o Rosp trabalhou, e chegou a lugares muito interessantes. O esforço compensa, e Fora do lugar é a prova.


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Ficou difícil de ler? Explico: lançamento do Desacordo Ortográfico sexta, dia 13, a partir das 19h (mas pode chegar depois) no Complexo Master (Pç. Garibaldi, 46). Ondjaki, Altair, Cardoso e Reginaldo autografarão. Irei, é claro.


Um dos segredos mais bem guardados da Não Editora será enfim revelado.TCHÃRÃÃ. Cof, cof, voz de narrador de trailer.

Era abril de 2008, correria para publicar o terceiro livro que saía, o meu Areia nos dentes. Rosp na quinta revisão… enviamos tudo para o Samir, ele nos repassa a parte interna do livro já diagramada, tudo lindão, mandamos logo para a gráfica para dar tempo de divulgar direito…

As caixas de livros são entregues na minha casa. Abro meu livro, acaricio ele, cheiro, abraço o coitado… folheio uma página, outra, olho a mudança de partes… e descubro que está faltando um capítulo.

Não preciso dizer que meu coração saltou pra fora, né? Conferi que não estava louco, fui correndo até o computador reler o capítulo. Olhei as caixas, aquele montão de caixas, 800 exemplares do livro, todos sem o último capítulo da Parte 1. Merda, eu pensei. Li o capítulo anterior ao desaparecido. Li o posterior. Li, no computador, o sumido.

Ufa. Não era imprescindível. Era um micro-capítulo de um só parágrafo. Dava para entender o livro ainda, sem ele. Três horas depois, consegui parar de tremer. Ficava repetindo: só um parágrafo, dá pra entender, ficou até melhor assim…

O segredo do capítulo sumido foi mantido a dezoito chaves porque tínhamos medo que pensariam coisas erradas da editora. “Bando de amadores!”, “Não quero publicar com vocês, vocês perdem capítulos!”, &c e tal. Mas, agora, estamos tão mais confiantes no nosso trabalho, tão certos de que não engoliremos mais capítulos, que o segredo pode finalmente ser revelado.

Na verdade, o desejo de revelar veio de uma entrevista amalucada que eu e o Samir demos hoje na Rádio da UFRGS, onde falamos de tudo, bem desvairados. Samir mencionou o capítulo obliterado e eu prometi para os ouvintes da rádio (haha) que postaria o tal micro-capítulo sumido hoje no blog.

Não deixa de ser interessante: adiciona uma nova camada de metalinguagem. Veja bem, se o narrador-personagem do Areia nos dentes não é confiável, erra, se perde, seu computador é invadido por um vírus e um capítulo é perdido, acaba sendo extremamente irônico que a vida real tenha feito uma dessas, que a Editora também se revelou não-confiável, e que a narrativa foi alterada por causa disso. Interessante, no mínimo. Alô, teóricos da literatura?

Vamos ao capítulo. Antes, contextualização. O capítulo entraria no final da parte 1, como encerramento, seria a página 84 do livro. É um capítulo curtíssimo que EXPLICA o capítulo anterior, que termina com equívocos de digitação (“índhio”, “flehcas”). Tem gente que leu o livro e pensou que eram falhas na revisão, porque o capítulo que explicava aqueles erros é esse, o desaparecido. O capítulo (que é curtíssimo, por sinal, o menor do livro disparado) também voltava a narrativa ao tempo presente no D.F. mexicano e preparava o leitor para a segunda parte, com a chegada do filho do narrador.

Sem mais, segue abaixo o capítulo desaparecido:

“DEUS DO CÉU.  Esse último copo de tequila me devastou. Acordo desmaiado sobre a máquina de escrever. Puxo o papel. Tudo escrito errado, que vergonha. Letras duplicadas. “Índhio”. Não, bebida e literatura não combinam tão bem assim. No banheiro, me ajoelho no chão para vomitar um pouco, aliviar o estômago que está em rebuliço. Ao puxar a descarga, quase perco de escutar a campainha soando. Lembro então que aguardava a chegada do meu filho.”


Me sinto criminoso de usar 2666 outra vez como exemplo de algo, mas enquanto o livro não sair do meu sistema, parece que só consigo pensar a partir dele. Mas se serve de garantia, ele é só o ponto de partida do assunto, nada mais.

A quinta parte do 2666 é focada no autor recluso Benno Von Archimboldi. Benito escreve um romance na década de 40, leva a umas editoras e é recusado. Finalmente leva a um editor que acredita que o livro é genial. Aposta nele e o publica. As críticas que o livro recebe são mornas. O editor publica um segundo livro de Benno, as críticas são piores, as vendas fracas. O terceiro livro é um fracasso completo de vendas: só 96 exemplares vendidos. E, ainda assim, o editor continua acreditando que está diante de um grande autor alemão e continua publicando seus livros, até um livro que considerou péssimo. Pelo livro péssimo oferece um adiantamento menor, Benno reclama, e lá vai o editor e oferece mais que o valor padrão.

Sabemos, pela primeira parte do livro, que Benno Von Archimboldi, nos anos 2000 é considerado um gênio, candidato a ganhar o Nobel. Na quinta parte, descobrimos que ele nunca teria sido publicado se não fosse a coragem do tal editor.

Veja bem. Tal caso (sei que é ficção, mas) hoje em dia seria impossível. Tá certo que hoje em dia é muito fácil publicar, se levanta uma pedra em Porto Alegre e tem 127 contistas, há leis de incentivo, publicações virtuais, &c, &c. Mas: veja bem. As grandes editoras deixaram para as pequenas o ofício de caçar e descobrir o que há de melhor na nova ficção. OK, aceitamos. As pequenas editoras cumprem uma função de vitrine da nova literatura. Quem faz mais sucesso, com sorte salta para uma das grandes e passa a ganhar algum tostão pelo seu livro. Porém não é tão simples. Editoras pequenas não ganham lá muito dinheiro. Como apostar em um autor que, mesmo achando ótimo, não trará dinheiro de volta? Até mesmo quando o autor paga a edição. Eu me pergunto isso com muita frequência graças ao trabalho na Não. Tem muita gente que, se eu tivesse uma herança milionária, apostaria neles. Escritores sem dinheiro para bancar parte da própria publicação, sem família ou rede de amigos extensa o bastante para comprar o maldito livro (vale lembrar, os primeiros leitores sempre são familiares e amigos). É complicado. É um mercado lotado, uma editora não pode fazer milagres por um autor para conseguir destaque na mídia. E às vezes o destaque na mídia não é revertido em vendas. É muito complicado.

A figura do editor-herói está morta. Não quero soar marxista, mas todos sabem que o assassino é o mercado. Não são só as grandes editoras que se preocupam com vendas. As pequenas, que dependem de um capital mínimo para operar, dependem MUITO desse mínimo. Podemos ousar, mas sempre há limites. A Não Editora foi formada com a idéia utópica de apostar nas coisas mais diferenciadas, em publicar de poesia a contos de ficção-científica. Continuamos com esse projeto, continuamos apostando. Mas não é simples. Nunca é simples.

Cabe recordar as palavras do teórico argentino Daniel Link: “Se a literatura hoje parece ‘coisa do passado’, não é por sua incapacidade de dar conta do presente, mas por sua debilidade de enfrentar a lógica (reificante) do mercado que, por outro lado, é sua condição”.

E eu penso em Thomas Pynchon, minha ex-obsessão. O autor norte-americano, recluso, não dá sessões de autógrafo, não participa de leituras, não aparece na FLIP abraçado no Chico Buarque, não toma cafézinho com o Paul Auster. Hoje em dia Pynchon vende porque já é reconhecido pela crítica, já foi canonizado pelo Bloom, &c. Porém, é impossível o surgimento de um novo Pynchon. O novo escritor tem de ter um lado marketeiro dentro de si, tem que saber se vender. Imagine publicar um autor recluso hoje em dia, uma pequena editora. Vai fazer o release e pá, não tem sessão de autógrafo. Convidam ele para um evento em São Paulo, ele não vai, acha uma besteira esses eventos ególatras. Esse autor estará fadado ao esquecimento, ou, no máximo, será cultuado por uma minoria. O escritor hoje em dia precisa bancar a estrela para vender os livros. Tem que segurar melancia no pescoço (alguém pode argumentar que a reclusão é uma forma de melancia) para conseguir vendas, i.e., para conseguir leitores. Tem que ter blog, twitter, tem que parecer inteligente o tempo todo, para convencer alguém a ler o seu livro. Um dia se imaginou que a internet e a difusão de informação melhoraria isso, mas só agravou o problema. Escrever se torna apenas 50% da função, a outra metade é “parecer escritor”, “aparecer”. Eu não tenho nada contra um escritor que sabe se vender, pelo amor de Pynchon, eu tenho blog, twitter e aceito qualquer palestra que me chamam. Mas cansa, sabe? Cansa. Tem momentos em que se pensa, “eu poderia estar escrevendo”, mas lá está você, em algum sarau perdido na noite de Porto Alegre, lendo seu poema para uma platéia desinteressada.


Desacordo Ortográfico

Olá. Já conhece o Desacordo Ortográfico? É o novo projeto da Não Editora, organizado pelo Reginaldo Pujol Filho (já publicamos o Azar do Personagem dele), que reúne uma quantidade absurda de escritores fodas de todo o universo lusófono. Tem angolano, moçambicano (é Moçambique o país que tem um rifle Kalashnikov na bandeira? Surreal aquilo), português, brasileiro (gaúcho, pernambucano, sei lá o que mais). Sério, não faço ideia de como o Reginaldo fez para convencer peixes grandíssimos como o Gonçalo Tavares (o Vila-Matas Saramago¹ disse que era ofensivo alguém com menos de 35 escrever TÃO BEM como o G.T.) a participar da coletânea. O fato é que toda essa gente está lá no livro que vai sair em novembro, todos abusando das particularidades da língua que falam, todos provando que essa história de Acordo Ortográfico não é bem assim, todos celebrando a diferença, ô coisa bonita.

O que me lembra de anunciar duas coisas: a primeira é que esse blog segue um semi-acordo ortográfico. Quando lembro, uso. (“ideia” ali em cima tá sem acento). Português híbrido! Selvageria! Dã. O segundo anúncio é que abri, por pressão de uma meia-dúzia de leitores, a caixa de comentários. Ainda são moderados, claro. Comportem-se, trolls.

¹ Jurava que tinha sido o Vila-Matas que falou isso, mas Joca Terron me corrigiu e eu confirmei, foi o Saramago que disse. O Vila-Matas também é fã do Gonçalo, mas não deu um testemunho tão curioso como esse. Droga, perdeu 90% da graça.