Indievelhismo

19/01/10 | Tags:

Descobrir qual banda/livro/filme vai “ficar”, no sentido de “permanecer lembrado na história”, é um esporte popular. Mas – e às vezes eu acordo nessa espécie de pesadelo – e se nada ficasse? E se o culto fosse sempre do “novo” (que, nos últimos anos, tem significado a releitura de algo passado)?

Quando eu descobri o chamado “indie rock”, as principais bandas eram Sonic Youth, Yo La Tengo, Built to Spill, My Bloody Valentine, Trail of Dead, Sleater-Kinney, Mogwai, Belle & Sebastian e um par de outras. Eu sou um cara jovem, de 25 anos, porém conheço pessoas mais novas que eu. Proponho um experimento: mostre essas bandas (antigas? mas são do fim dos 90, início dos 00!) para os jovens. Primeiro que não vão gostar muito. Segundo que não considerarão “indie rock”, e com razão. O termo hoje é aplicado para bandas e estilos completamente diferentes, a ponto de ter perdido o sentido de ser, ter se tornado indefinível. “Indie rock” pode tanto significar roqueiros barulhentos de óculos wayfarer como um hippie tocando uma arpa de cabeça pra baixo. Mas no início (o verdadeiro início eu não peguei, claro, olhem a minha idade, eu sou um piá) não era tão assim, o termo parecia ter algum sentido, havia uma série de características formais identificáveis. Todas pareciam servir de possível trilha sonora para filmes do Hal Hartley. Hartley (rei) é um cineasta que, como essas bandas, foi esquecido, engolido pelo tempo, e, no entanto, abriu o caminho para o cinema independente. É difícil pensar em Kevin Smith existindo, não fosse o Hartley.

Esse não é um post de “ó, as coisas não deveriam ser assim, que raiva”, nem um post nostálgico (ok, um pouco nostálgico talvez seja – e quão ridículo é ser nostálgico aos 25? 25!!). É mais de alguém tentando entender como tudo isso foi esquecido. Quando eu vejo os novos adolescentes adorando Vampire Weekend, The XX e coisas que para meus ouvidos soam asquerosas, penso que toda essa leva também vai ser esquecida. Talvez essa seja a mudança (ontológica?) surgida a partir da geração X. A partir de certo ponto, “nada permanece”, nada se fixa no tempo. Yo La Tengo não permaneceu. Essas novas bandas sumirão. Só ficará sei lá, Radiohead, ou algo assim, que conseguiu transcender o nicho. E eu penso, em digressão, nos Beatles, em como os Beatles foram o mais próximo de uma unanimidade que o mundo da música encontrou, todo mundo gostava, se escuta até hoje, se reconhece o valor, e como isso é historicamente impossível de se repetir.


vicchesnuttDe todas as mortes de famosos em 2009 (sim, porque o twitter virou um gigantesco obituário virtual: morreu, apareceu no twitter), a mais lamentável na minha opinião – pela precocidade e pelas circunstâncias – é a do Vic Chesnutt, músico que andava tocando com o Silver Mount Zion e lançando seus discos pela Constellation Records, gravadora que mora no meu coração e que quase me levou para o frio de Montreal lá por 2006.

Chesnutt tocava numa cadeira de rodas (sofreu um acidente aos 18 anos) e se suicidou agora, no natal, aos 45 anos, no seu ápice criativo. Ironicamente, o release do seu último disco lançado diz: “Vic Chesnutt is the real deal, a man who lives for music”.


Embora eu tenha feito uma lista de melhores do ano, estou meio fatigado de listas. Cabe aqui mencionar sem compromisso ou ordem, então, um punhado de discos lançados em 2009 que, na minha opinião, merecem ser ouvidos. Na minha lista, os 7 melhores, com exceção do Bill Callahan, são discos barulhentos (metal, hardcore, drone ou noise). Como sei que parte do público não se dá bem com ruído, vou dividir em duas partes a lista.

Discos com ruído:

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Mastodon – Crack the Skye e Isis – Wavering Radiant. O Mojo, para me irritar, diz que isso aí é metal para indie, ou que não é metal. E de fato, são bandas que fogem do metal padrão, e por isso mesmo talvez alcancem um público maior do que o gueto headbanger. Em Isis predominam as influências do pós-rock (Mogwai, Slint, &c), e em Mastodon, bem, eu sinto até vergonha de dizer, mas tem rock progressivo ali no meio, na grandiosidade de “vou fazer um disco conceito”. Porém funciona, e muito bem. É um disco mais lento, menos agressivo. Parece um bom álbum de metal para ouvidos não-treinados.

Converge - Axe to Fall [2009]

Converge – Axe to fall. Desde o divisor de águas Jane doe (2001), o Converge não lança algo tão bacana. Sabem aqueles termos idiotas que jornalistas inventam para tentar descrever uma banda? Pois, o que usam para o Converge é “metalcore”. Péssimo, eu sei. Pior ainda pelo fato de que a maioria de bandas que recebem o termo são parentes do emo com síndrome de Tourette. Nada mais distante do Converge e seus ritmos relâmpagos e matemáticos. A banda sempre caminhou entre as influências do hardcore e do metal, e nesse disco pendem mais para o último, irritando alguns fãs. Eu gostei, e muito.

sunnnadja-when-i-seeSunn 0))) – Monoliths & Dimensions e Nadja – When I see the sun always shines on TV. Coloquei as duas bandas juntas porque ambas são consideradas expoentes do drone, ou seja, um metal lento e arrastado de poucas e repetidas notas. No entanto, quem é mais familiarizado vê que as bandas são beeem diferentes. Sunn 0))), nesse disco, rompe o padrão e coloca vocais angelicais e outros instrumentos impróprios para uma banda tão sombria. O resultado é um disco ainda mais bizarro que o normal. O Nadja também levou 2009 na brincadeira e lançou esse disco de covers, com releituras drone das mais variadas bandas, de My Bloody Valentine a Elliot Smith, passando por coisas bregas dos anos 80 como A-Ha. É melhor do que parece.

Menções honrosas de discos barulhentos: Lightning Bolt – Earthly Delights (experimentos da banda com músicas menos “vou estuprar teu cachorro”) e Wolves in the throne room – Black Cascade (black metal para quem não consegue ouvir o verdadeiro black metal por mais de cinco minutos)

Discos para quem não gosta de barulho:

Quase não ouvi nenhum disco bom “normal” em 2009. Várias das bandas que admiro e acompanho há anos, como Animal Collective, Built to Spill e Marissa Nadler lançaram seus piores discos esse ano. Talvez pareçam legais para quem não é familiarizado com o resto da obra deles, mas para mim soaram decepcionantes. Como ponto alto de discos normais de 2009, escolho esses dois:

callahanalelaBill Callahan – Sometimes I wish we were an eagle e Alela Diane – To be still. Mundinho folk em chamas. Callahan já era rei na época do Smog, mas parece que esse disco é o lugar para o qual ele sempre esteve caminhando. 8 canções e um interlúdio: nenhum momento desperdiçável. Alela Diane é uma prima menos maluca da Joanna Newsom. Não é tão arriscada com a Newsom, nem tão recompensadora. To be still é um disco bonito, de qualquer forma.

Menções honrosas de discos “normais”: Bromst, do Dan Deacon e Dragonslayer, do Sunset Rubdown.


Continuando a série de listas da década iniciada pela de livros. Tem gente afirmando que não faz sentindo falar em listas da década se ela só acaba em 2010. Bom, isso se considerarmos de 2001 em diante. Eu considero de 2000 a 2009, o que inclui 10 anos redondinhos.

Fiquei chocado de como tem de tudo na minha lista de música: pós-rock, pop, ambient, folk, psicodélico, metal, hardcore, punk-rock, funk, indie rock, idm, klezmer… Como na de livros, não repeti “autor”: escolhi no máximo um disco por banda.

1) Godspeed You! Black Emperor – Lift your skinny fists like antennas to heaven (2000)
2) Joanna Newsom – Ys (2006)
3) A Silver Mt. Zion – Horses in the Sky (2005)
4) Sunset Rubdown – Random Spirit Lover (2007)
5) The Microphones – The Glow Pt.2 (2001)
6) Explosions in the Sky – The Earth is not a cold dead place (2003)
7) William Basinski – The Disintegration Loops III (2003)
8 ) Mogwai – Mr. Beast (2006)
9) Wolf Parade – Apologies to the Queen Mary (2005)
10) Lightning Bolt – Wonderful Rainbow (2003)
11) Mastodon – Blood Mountain (2006)
12) Converge – Jane Doe (2001)
13) Justin Timberlake – Futuresex/lovesounds (2006)
14) Arab Strap – The Last Romance (2005)
15) …And you will know us by the Trail of Dead – Source Tags & Codes (2002)
16) M.I.A. – Kala (2007)
17) Electric Wizard – Dopethrone (2000)
18) Sleater-Kinney – The Woods (2005)
19) Bad Religion – The Empire Strikes First (2004)
20) Broken Social Scene – s/t (2005)
21) Do Make Say Think – You, you’re a history in rust (2007)
22) Animal Collective – Feels (2005)
23) Destroyer – Your Blues (2004)
24) Six Organs of Admittance – School of the Flower (2005)
25) Max Richter – Songs from before (2006)
26) The Knife – Silent Shout (2006)
27) Mount Eerie – Lost Wisdom (2008)
28) Marissa Nadler – Songs III: Bird on the Water (2007)
29) Nadja – Touched (gravação de 2007)
30) Black Ox Orkestar – Nisht Azoy (2006)
31) Juan Stewart – Los Días (2008)
32) Isis – Wavering Radiant (2009)
33) Él mató a un policía motorizado – Día de los muertos (2008)
34) Sunn 0))) – Black One (2005)
35) Elizabeth Anka Vajagic – Stand with the stillness of this day (2004)
36) Radiohead – Hail to the Thief (2003)
37) Bill Callahan – Sometimes I wish we were an eagle (2009)
38) Björk – Medúlla (2004)
39) Hrsta – Stem stem in electro (2005)
40) Nina Nastasia – On Leaving (2006)


953482-9520-it2O livro Bartleby & Companhia (Anagrama, 2001; CosacNaify, 2005), do catalão Enrique Vila-Matas, monta um verdadeiro compêndio dos “escritores do Não”, gente que, por um motivo ou outro, deixou de escrever. Misturando pessoas de verdade com gente de mentirinha, livros que existiram com outros que não, e histórias/argumentos/especulações que só são possíveis através de um narrador de um livro de ficção, Vila-Matas cataloga os motivos que levam alguém a deixar de escrever.

Como já faz uns três anos que li o livro, não lembro muito bem qual escritor vira um “escritor do Não” por qual motivo. Mas o motivo que mais me chocou foram aqueles que abandonaram a literatura porque nunca se recuperaram após a escritura de uma obra-prima.

Por quê? Bem, porque eu sempre penso nisso no mundo da música. Os exemplos abundam: desde o surto que o Brian Wilson teve nas sessões de gravação do Smile original, pós-Pet Sounds. Como ele ia compor algo que superasse o Pet Sounds? A pressão levou ao piripaque. E eis Brian Wilson gigante de gordo, trancado no seu quarto, se alimentando de milk shakes. Fast-forward para 1991, e temos nosso Brian Wilson moderno. Kevin Shields, líder do My Bloody Valentine, maior exponte do shoegaze (vulgo, ruído alto e alegre-tristonho produzido por gente tímida), após lançar o disco que foi considerado instaneamente um clássico, Loveless, pirou na batatinha, acabou a banda, virou recluso, como Brian Wilson se trancou no quarto, engordou e… bem, começou a criar chinchillas. Muitas chinchillas.

Nada é tão simples assim. “Obra-primas”, eu digo, mas pra quem? Para a crítica? O Bruno Galera sempre preferiu o Isn’t anything ao Loveless. Para muita gente, o Pet sounds está longe de ser o melhor disco dos Beach Boys. Mas, para mim, são todas obras que representam uma grande mudança no paradigma anterior da banda. São discos que se destacam, que são diferentes, e todos tem uma violência estética de intensidade desmedida.

Eu poderia prosseguir com exemplos, poderia falar do fim do Sleater-Kinney após o disco que desconstrói e reconstrói todo o rock clássico, o ruidoso ao extremo The woods. A desculpa que a banda deu foi que uma das garotas saiu da banda para cuidar do filho. Eu, na minha paranóia de rastreador de Bartlebys, desconfio. Isso sem mencionar o Jeff Mangum, do Neutral Milk Hotel.

Quais são as razões? Pressão por parte da crítica? Pressão que eles mesmo se impõem? Será que nunca mais conseguiriam produzir outra obra naquela altura e pareça melhor desaparecer do que continuar produzindo mediocridade? Lembro de Dario Argento e outros artistas que não souberam envelhecer. Será isso? Ou será a violência estética? Penso em Raduan Nassar, o bartleby brasileiro que não consta na enciclopédia do Vila-Matas. Deve acontecer algo com a pessoa após uma experiência tão desgastante. Algo. Mas o quê?


Música sobrevivendo

27/10/09 | Tags:

333Era uma vez 2004, uma época em eu portava 19/20 anos na carteira de identidade e meus dois hemisférios do cérebro apresentavam uma taxa média de 37,4% de cocô (indícios apontam redução dessa taxa com o passar dos anos, embora certas pessoas discordem). Foi a primeira vez que escutei os Disintegration Loops, os quatro discos do auteur do ambient William Basinski. Baixei os discos pelo mesmo motivo que norteia as descobertas musicais de outros jovens: tinham recebido a nota 9.4 na PitchforkMedia. Pela nota, imaginei que escutaria um álbum que me sacudisse tanto quanto o Funeral do Arcade Fire, que era minha obsessão em 2004. A ilusão não durou muito tempo. Depois de alguns minutos escutando os loops de Basinski, notei que eram duas ou três notas se repetindo por 40 minutos. Pulei de música. Pulei de disco. Outras notas, repetição ad infinitum. Apaguei tudo da pasta mp3 no mesmo dia. HD era mais valioso naquela época, e 500 mb dos quatro discos era um espaço precioso.

Folheando sem compromisso o RateYourMusic agora em 2009, me deparei outra vez com os Disintegration Loops. Eles continuavam bem cotados, cada um dos Loops bem posicionado na lista de melhores discos daquele ano. Decidi dar uma segunda chance a eles.

Os Disintegration Loops são justo aquilo que eu tinha escutado em 2004: uma repetição de poucas notas até o infinito. São fitas antigas com melodias maravilhosas que o William Basinski encontrou na sua casa e decidiu transferir para o meio digital. O detalhe que Basinski percebeu, enquanto transferia, é que as fitas iam se desgastando durante a trasnferência, e que vários pedaços da música iam sendo comidos. Isso foi em 2001. No dia que ele terminou a gravação, colocou para rodar as fitas no terraço. O dia era 11 de setembro, e ele assistiu do terraço dois aviões atingirem o WTC.

A historinha por trás do disco, a relação com 9/11, pouco me interessa. O que interessa é que os Disintegration Loops são justamente isso: “música morrendo”, como disse um amigo. Uma bela melodia sendo consumida pelo tempo. O 3º disco me comoveu às lágrimas: é o único loop que é desgastado até arrebentar por completo.

Quanto mais “conceitual” é uma obra, maior a chance do “leitor” da obra se sentir enganado. Foi assim que me senti a primeira vez que escutei os loops: “tão de pegadinha comigo”. E qualquer obra radicalmente experimental sempre vai sofrer esse ceticismo. A pessoa nunca vai ter certeza se aquilo é genial ou uma brincadeira, especialmente em épocas de Bienal.

Agora, reescutando o 3º Disintegration Loop, percebo que não é de “música morrendo” que se trata o disco, mas de música sobrevivendo. O tempo vai mastigando os sons, mas a melodia sempre ressurge para um último suspiro. Ela aparece distorcida e deformada, mas é o mesmo som, repetindo, sobrevivendo.


Já devidamente anunciado no post anterior, consegui libertar-me das amarras de soar incoerente e posso, agora, falar alguma coisa sobre música. E eu quero falar de metal, dos derivados do heavy metal feitos hoje em dia, de recepção e de gênero. E de cinema de gênero. E algumas outras coisas mais. Tentarei. Ou, como diria Yoda, THERE IS NO TRY, DO OR DO NOT.

O metal é, para a música, o mesmo que o terror é para o cinema. Não pelo que se imagina, “demônios”, “pentagramas invertidos”, “cemitérios”. Não, não me refiro ao tema. Me refiro ao estatuto de gênero. Já é bastante arraigada a noção de que os gêneros já não existem mais, que tudo se fundiu, ou que tudo virou mainstream. Não é bem assim a vida. A intelligentsia é famosa por rechaçar o cinema de gênero. Vão assistir um “filme do Wong Kar-Wai”, o “novo filme do Almodóvar”, e se alguém pergunta de que gênero é o filme, não saberão responder de uma maneira prática “ação”, “suspense”, “comédia” ou “romance”. Porque existe uma ideia implícita de que o cinema de auteur não é cinema de gênero. Nem mesmo um filme do Tarantino é um filme de ação – é sempre “um filme do Tarantino”. Há um esforço legítimo da crítica de tentar afastar o cinema-arte do cinema-gênero. Por isso, quando eu era fã de Dario Argento e Lucio Fulci era difícil tentar convencer alguém a assistir Suspiria ou Zombi. “Ah, isso é tudo filme de terror”, diziam. É, são filmes de terror. Mas também são cinema autoral. E Suspiria é uma obra-prima em termos de direção e direção de arte. Convencendo alguém a ver, claro, os resultados costumavam ser insatisfatórios, porque eram vistos por pessoas que não estão acostumados com as convenções do gênero e tudo apontavam como “clichê”. Então vamos passar as coisas a limpo. Existem os gêneros. Os gêneros estão vivos e pulsantes. O gênero é algo que trabalha com convenções já pré-estabelecidas e podem, em vários níveis, subverter esses códigos semióticos. Não obstante, sempre dialogam com toda uma tradição própria do seu gênero.¹

Ufa. Metal, eu falei que ia falar de metal. Enfim. O metal é como o cinema de terror. Ele existe como gênero, mas à margem do resto da música. Um disco do Mastodon pode figurar na lista de melhores da década da Pitchfork, mas não é o tipo de coisa que você apresentaria, tranquilamente para um amigo. Se apresenta Arcade Fire para qualquer um, para o pai, para a mãe, para a prima que só escuta pagode. Agora o metal sempre vem com a alerta: “Mas ó, é metal”.

O metal hoje em dia existe em uma pluralidade de, chamemos, planos. Pode parecer que vou falar de subgêneros, mas não é o caso. Vou falar de diferentes tipos de produção, cada qual com seu público específico. O horizonte de recepção muda. É como se habitassem esferas diferentes. Existe o “true metal”, o metal feito com o espírito clássico que sempre permeou o metal, consumido por gente já versada no gênero. Slayer continua lançando discos, não muito diferentes do que lançavam na década de 80. Ok, talvez sem a genialidade dos bons dias. A cena do “black metal” continua bem viva e produtiva. Existe o metal que se fundiu com o “emo” e pelo jeito emplaca com adolescentes. Não entendo do assunto e só sei da existência de um par de bandas. Existe o metal ressurgido enquanto Camp, em releituras irônicas (ver: The Darkness, Steel Panther), um metal pastiche, homenagem-e-sátira do metal mais exagerado e histérico. E, por fim, existe o metal que me interessa conversar, que é o metal que tem sido estupidamente batizado por diversos veículos de “metal inteligente” e “metal cerebral”². É o metal para não-metaleiros que tem me chamado a atenção pelo poder de servir como ponte entre aficcionados por música e a música de gênero. Há sempre o medo, claro, de que a cultura hipster domine isso e esvazie o gênero de significado. Nada mais nocivo e predatório que a moda e a cultura hipster. Mas disso eu falo na parte 2. Disso e do metal para não-metaleiros. Até mais.

NOTAS:

¹ Boa parte dessas reflexões surgiram do ensaio introdutório da parte “Gêneros” que há na coletânea de ensaios Como se lê e outras intervenções críticas do teórico argentino Daniel Link. A leitura desse livrinho é extremamente recomendada a todos que se interessam pelo assunto.

² Odeio, odeio, odeio quando um veículo dá um nome desses e não percebe a carga de preconceito que leva junto. Ao batizar x bandas de metal inteligente, está dizendo que todo o gênero é essencialmente burro. Nada pode ser mais ignorante.


Eu estou me coçando para não postar mais coisa de literatura. Eu tento me convencer que existem outros troços tão interessantes quanto livros, mas não sinto muita vontade de falar sobre eles. Porém estou decidido a fazer um esforço e tentar falar sobre música. Eis que me lembro de um empecilho! Certo tempo atrás jurei nunca mais falar do assunto no twitter em uma das minhas constantes diatribes matinais. Essa, em especial, foi contra o jornalismo musical. Imagino que ninguém se lembra da naba¹, então colo aqui.

“Eu já disse hoje que eu odeio jornalismo (crítica) musical? É muito, muito difícil achar algo que preste na área. Pior que no cinema, sério. O problema do jornalismo musical é que QUALQUER indie se considera o maior connoisseur de música. Eu já escrevi resenha musical, mas hoje me proíbo de fazer isso. A última coisa que o mundo precisa é de mais um ignorante bláblázeando. Dizer que X banda é um “pop com PITADAS de ____ ____ e ____” (citar 3 outros estilos) é não dizer NADA. O jornalismo musical indie está tão dominado por jargões que o significado está totalmente separado do signficante. “Folk” não diz mais NADA.”

Sim, foram necessários alguns tweets para conseguir escrever tudo isso.

Relendo a joça noto que me proibi é de escrever resenhas musicais. Acho que ainda posso falar de música, se não for em formato resenha, ufa. Então no próximo post eu falo sobre metal. Não hoje, hoje eu tô cansado. Boa noite a todos.

NOTAS:

¹ Se você se lembra muito bem do meu surto no twitter, você deveria rever suas prioridades na vida e pensar em maneiras mais adequadas de usar sua memória.