a) A reclamação mais comum entre escritores é, sem dúvida, a falta de um público leitor. No entanto, estatísticas (sempre elas) mostram que nunca se leu tanto no país, no mundo. A pergunta que fica: mas o que exatamente estão lendo? E os autores complementam: literatura brasileira contemporânea que não.

b) Porém, quando pessoas comentam que “ninguém lê nesse país”, não se referem à “nova literatura brasileira”, mas à literatura de modo geral, creio, e é esse o foco do meu post (esqueçam autores brasileiros).

c) Um dos argumentos usados é que “no Brasil, o preço do livro é muito caro”. Vou me deter um pouco mais nesse ponto. Primeiro: quem disse que as pessoas não tem dinheiro para comprar livro? Olhem ao redor: chevettes tunados com rodas cromadas, Nikes espalhafatosos, celulares com trinta mil funções. Não é apenas a classe média que está comprando esses produtos. Nananinanão. A classe média-baixa e até a classe baixa tem sido vorazes consumidores de supérfluos da linha tecnológica (e estética). Sabem quanto custa para rebaixar um carro? O suficiente para comprar váários livros. Claro, surge o inteligente contra-argumento de que “de qualquer forma, 50 reais por um livro ainda parece um roubo” e também que “na Europa e nos EUA sai muito menos”. Em primeiro lugar, o custo de produção de um livro é menor para eles: papel sai mais barato, é impresso lá longe, explorando mão-de-obra barata, e, no caso dos EUA em si, só 1% dos livros publicados são traduções, ou seja, não há gasto com tradutor (que é das coisas que mais encarecem o livro). Isso porém, é só blábláblá perto do centro da questão: os livros saem mais baratos lá porque tem público leitor. As tiragens são muito maiores que as brasileiras. Tendo leitores (vulgo: mercado) de sobra, é fácil baixar o preço do livro.

d) Tratando das políticas de incentivo à leitura, acho que tem muitos equívocos na área. Em primeiro lugar, a idéia de que todo mundo deveria ler livros, uma idéia estapafúrdia. Quem não lê livros talvez seja muito mais feliz do que quem lê. Ler livros não traz nenhuma vantagem material ou simbólica, não iludam os não-leitores.

e) Por outro lado, o incentivo à leitura é importante para descobrir leitores em potencial, que não teriam acesso ao livro se não fosse por esse incentivo. Ler não é algo natural, exceto se os pais estão sempre lendo e a criança se habitua desde cedo com isso. Uma raridade no contexto atual, acredito. Pessoas com “vocação de leitor” (existe isso, em algum nível, creio, nem que seja no “prazer de ficar sozinho” e “tendência a introspecção”) podem se descobrir leitoras através de programas de incentivo.

f) “Ler livros não traz nenhuma vantagem material ou simbólica, não iludam os não-leitores”, eu disse no ponto d). Se tem algo que me irrita nessa história de leitores/não-leitores/o escambau, é que muita gente lê para “extrair algo do livro”. Não só auto-ajuda e “A arte da guerra para executivos”. Estou falando de fenômenos como a explosão de livros que se passam no oriente médio, que daí a pessoa lê para “ficar informada”, “compreender melhor a situação política”, e outros zzz. Esse leitor utilitarista (utilitarismo é a palavra-chave) nunca será um leitor de ficção fora dos bestsellers. Nunca.

g) Alguém criticou o acompanhamento que a Cia das Letras fez da HQ “Cachalote” no seu blog, dizendo que era um tratamento de Revista Caras. Rapaz, quem fez a crítica deve ser uma pessoa que reclama que não existem leitores. Que bom que estão fotografando os autores e mostrando sucesso.  Aproxima a literatura do mundo, coloca lançamento de livros como algo massa de se ir, espetaculariza um pouco o ofício.  Não há nada de errado nisso (desde que escritores não se deixem levar pelo ego e etc. e blábláblá). Lembro de comentário de Ítalo Ogliari para platéia de alunos do EJA: “as pessoas deveriam falar de livros da mesma maneira como recomendam um filme para uma pessoa: tu precisa ler isso aqui, é do caralho!”. Acho que atitudes como essa da Cia. meio que funcionam nessa linha. Gente se divertindo num lançamento. Fim. (o blog da Cia ainda tem outros mil acertos, especialmente ao dar voz aos editores e mostrá-los como pessoas de carne e osso – mas isso é assunto para outro post).

h) Voltando ao tópico de incentivo a leitura: nada mata mais leitores em potencial do que o ensino de literatura no colégio. Nada. Crianças obrigadas a ler Camões na 8ª série: não vai dar certo, nunca. Raríssimos professores de extremo talento conseguiriam levar isso adiante, fazer do currículo de clássicos brasileiros algo proveitoso. A grande maioria é incapaz. Tem que se mudar todo o ensino de literatura ou apenas jogá-lo pela janela.

i) Voltando ao d), a idéia de que todo mundo deveria ler livros. Puah. As pessoas não precisam de literatura para sobreviver. Talvez elas precisem de narrativas, e essas elas podem conseguir no cinema, no gibi, na televisão, no videogame. A literatura é apenas uma forma de narrar, uma dentre muitas possíveis, e ela não tem um lugarzinho sagrado e privilegiado na hierarquia.

j) Acho que é mais ou menos isso. Posso – devo – estar errado em muitos desses pontos, e sei que os (meus) leitores logo apontarão muitos desses erros.


O crítico americano James Wood me parece, pelas 150 primeiras páginas do How fiction works, um grande apaixonado pelo narrador em terceira pessoa. Wood argumenta até mesmo que o narrador em terceira pessoa é menos “confiável” que o em primeira, posição que a princípio soa absurda, mas que bem argumentada soa, hum, interessante. Nesse amor todo pela terceira pessoa, Wood estende sua paixão – lógico – ao narrador flaubertiano. “Tudo começa e tudo termina com Flaubert”, escreve.

Ao falar do flâneur, o caminhante pela rua que observa o mundo, Wood não pega o exemplo mais clássico do universo (Baudelaire), e sim o velho Flôba. Diz Wood que o narrador de Flaubert passeia pela rua como uma câmera, nos fazendo prestar atenção em detalhes e que nos faz até esquecer que, ao enfocar uma coisa, ele está escondendo outras. Atenção ao detalhe: a vida é cheia de detalhes, é tão sobrecarregada deles, que não conseguimos notá-los, não conseguimos dar atenção individualmente a cada coisa, diz o crítico. A literatura, ele prossegue, nos ensina a “perceber” melhor as coisas, “teaches us to notice”.

Talvez porque tenha começado a ler How fiction works no mesmo dia que chegou meu Red Dead Redemption, não sei, talvez por isso, me pus a refletir sobre o gênero sandbox no videogame e a relação com tudo isso que disse acima.

Sandbox (como qualquer pessoa que continuou lendo o post mesmo sabendo que era sobre videogame provavelmente sabe) é como chamam a estrutura “mundo aberto” de jogos, não-linear, onde o protagonista pode passear por um longo mundo, encontrar missões e coisas para fazer, pessoas para conversar, cenários para admirar etc. Assim como na literatura, jogos narrativos costumam ser contados ou em primeira pessoa (modelo Doom) ou em terceira pessoa (modelo Metal Gear Solid).

O problema da primeira pessoa não é de confiabilidade, mas sim que é impossível bancar o flâneur em um game sandbox limitado a essa perspectiva. Exemplo disso é o Elder Scrolls: Oblivion, jogaço que faz da atividade de passear por aí algo muito divertido. Não obstante, a limitação só se nota quando posto em comparação com um sandbox em terceira pessoa, como é esse belo Red dead redemption, da Rockstar Games. Situado no Velho Oeste, o protagonista de Red dead caminha ou cavalga pelo sul dos Estados Unidos e pelo México, conhece vilarejos e cidadezinhas, adentra cânions etc. etc. Trata-se de um Velho Oeste nada morto, porém. Sempre estão acontecendo coisas, milhares de coisas. Uma mulher é sequestrada, um sujeito rouba no pôquer, um cavalo é roubado, um banco assaltado, uma freira atravessa o trilho de trem, um cavalo solto caminha pelo campo. O jogo é repleto de detalhes, e o fato de que a câmera, e não apenas o protagonista, pode ser controlada, isso pode ser usado para criar uma sensação flâneurística. Usando o right stick, o jogador pode caminhar enquanto “enquadra” o mundo pelo ângulo que lhe parecer esteticamente mais aprazível. O jogador, além de ser ativo para o desenrolar dos eventos e ações, participa da criação visual do jogo e da percepção de detalhes ao controlar a câmera. Ele define qual detalhe é importante e qual não é. Ele divide, de maneiras que ainda necessitam ser mais analisadas, o papel de narrador com os autores do jogo.

E o que isso tudo quer dizer? Sei lá, mas eu achei massa.


Sem regras

09/06/10 | Tags: ,

Geralmente as leituras que impactam um leitor são aquelas “diferentes de tudo já visto antes”. Esquisito, então, eu ficar tão impactado com Naquele dia, o último romance do mestre do policial contemporâneo Dennis Lehane (de Sobre meninos e lobos). Por que ele me impressionou tanto? Porque é um livro excelente e porque ele é completamente ordinário. Sim, Naquele dia é narrado em terceira pessoa onisciente. Não há uma diferença muito marcante entre o narrador de Lehane e aquele realista do século XIX, exceto talvez que os Flauberts da vida são mais apaixonados por detalhes e frases elaboradas. Tá, OK, há gazilhões de diferenças. Não é isso que quero dizer. Quero dizer que, em momento algum, a problemática de “como contar uma história” vem à tona em Naquele dia. Não. Nenhum sofrimento quanto a isso, com “o que é literatura” ou “como se pode falar qualquer coisa” ou “quem conta essa história?”. Como um best-seller, só que bom (antes que me acusem de preconceito, que conste que tentei ler o Yalom e o D Brown). Naquele dia é aquilo que eu, enquanto autor, nunca conseguiria fazer, e que muitos autores da minha geração aqui do Brasil também não: uma história bem contada, sem mais. Bons personagens, muitos acontecimentos. Fim. E pensar que eu já disse que escrever ficção em terceira pessoa onisciente nos dias de hoje era impossível, parecia impostura.

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Não há uma hierarquia entre livros narrados de x maneira ou y, entre livros que questionam o seu próprio objeto e os que não, livros que se vendem como “alta literatura” e livros despretensiosos. Essa é uma lição, talvez.

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Como é comum ouvir da boca de alguém: “a literatura deveria …”. Deveria o quê? Retratar o mundo como ele é? Dar voz aos que não tem? Questionar seus limites? Repensar sua função? Contar uma história, sem mais nem menos?

Todos tem uma teoria. Eu tenho a minha, e é a seguinte: o escritor escreve do jeito que ele sabe escrever sobre os assuntos que ele sabe. Ele não escreve “o livro que quer ler”, porque geralmente gosta de coisas muito diversas. As chamadas “influências” nem sempre se mostram vivas no livro.

Eu sei escrever daquele jeito, do jeito que eu forjei. Mescla de bagagem de leituras, preferências estéticas, experiência de vida e outras coisas que entram na equação e que nunca saberemos ao certo quais são. Meu escritor brasileiro favorito, o André Sant’Anna, escreve de uma maneira que não tem nada a ver com a minha. São maneiras de narrar totalmente válidas, a minha e a dele.

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No último post defendi o experimentalíssimo David Markson, que construiu sua literatura sobre questionamentos do que é um romance, e aqui defendo o oposto dele, o Dennis Lehane, que só contou histórias. Quem está certo? Vale lembrar a frase de Pynchon, num de seus raros comentários públicos, quando apresentou seu livro Against the Day: “Let the reader decide, let the reader beware. Good luck.” Que o leitor decida.

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É uma questão de mercado. Não “mercado” no sentido “força opressora invisível”, não. No sentido de que cada autor forma seu público leitor, cava seu nicho. Se você é um leitor que detesta autores que só criam ficção ao redor da própria vida, você evitará até a morte J.M. Coetzee. Se você detesta livros que só falam de outros livros, não lerá Enrique Vila-Matas. Se você detesta livros policiais, não lerá Raymond Chandler. Se você detesta literatura cheia de subjetivismo, fugirá de Lispector. Eu fujo.

O leitor que decide. A literatura não deveria ser de X ou Y ou maneira. “Os livros não devem falar de si mesmos!”, eu escuto sempre. Puah. O leitor que decida. Cada um lê o que quer. Ninguém te obriga a nada. E o meme da internet tem cada vez mais razão: “Hater’s gonna hate”. Quem odeia X, continuará assim. Evite. Nem chegue perto, economize os trocos.

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Dizer que a literatura não tem fôrma de bolo é um lugar comum monstruoso. Se não fosse verdade, cansaria repetir. Sendo tão verdadeiro, cabe falar disso mais uma vez sempre que nos deparamos com um livro que nos lembra disso. O meu foi Naquele dia. Agora vou ficar mais uns cinco anos sem dizer que “escrever literatura em terceira pessoa onisciente nos dias de hoje é impossível”. Sim, o post foi, de certa forma, um gigantesco mea culpa. A gente diz cada bobagem nessa vida. Se serve de defesa, que conste que o Sebald já disse algo similar.

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Não tem regras, o leitor que decida. Hater’s gonna hate, lover’s gonna love. Boa tarde.


Sempre que me encontro sem nada para fazer, nenhum objetivo pulsante ou trabalho urgente, acabo lendo um livro do Philip Roth. Roth, por mais que eu admire, sempre será uma espécie de literatura de férias para mim. Compostos de frases curtas que fluem em um bom ritmo, os livros do escritor americano não trazem muita mirabolância estética (exceção: O teatro de Sabbath), mas sempre apresentam ótimos personagens e boas reflexões. Nesse espírito de fim das férias, comecei a leitura de Pastoral americana, romance tijolesco de 1997. Nele, Roth retoma seu alter ego, o ficcionista Nathan Zuckerman. Zuckerman decide contar a história do “Sueco”, atleta judeu que marcou sua infância.

Aprecio muito o que faz Roth quando usa Zuckerman de narrador. Ele admite que não existe tal coisa como um narrador onisciente, mas, ao mesmo tempo, conta uma história em terceira pessoa. Por outro lado, não cai no extremo oposto da metaficção selvagem (não gosto de inserir coisas pessoais no blog, porém confesso que tropecei nesse extremo em alguns momentos do meu romance). Esse meio-termo equilibrado, do narrador que é Zuckerman, me parece um exemplo legal da literatura sob medida, profissional. Roth é, certas horas, “literatura de tio”, o tipo de realista maduro que não se perde em pirotecnias. Eu normalmente sou um partidário do exagero e do erro, porém, com o passar dos anos, tenho apreciado mais essa serenidade do bom escritor.

O livro claramente versa sobre diversas coisas, mas se pedissem para resumir em uma só frase, diria que leio Pastoral Americana como um livro sobre o filistinismo. Explano. É uma tendência (ainda que preconceituosa, absurda e inconsciente) de parte dos intelectuais em enxergar alguns membros da classe média como filisteus. Gente boa de vida, sem muitas preocupações filosóficas ou artísticas, que vivem uma vida tranquila e sem crises ou questionamentos. Esse ponto de vista intelectual já foi devidamente satirizado pelo Noah Baumbach e pelo Xkcd.

Zuckerman, o narrador de Roth, é um sujeito que acredita que uma pessoa pode passar a vida como um bom americano, sem “vida interior”. O interesse absurdo despertado pelo protagonista do romance, o “Sueco”, no narrador surge justamente daí: Zuckerman precisa descobrir como é a vida interior de uma pessoa que, de longe, parece ter a melhor e mais tranquila de todas as vidas. Descobre que algo recente tirou o “Sueco” dos eixos e procura uma gênese para o surgimento dessa “consciência” no Sueco. Atribui isso a um atentado terrorista realizada pela filha dele. É a partir desse trauma que o Sueco desenvolveria uma personalidade (ou uma huamnidade) de fato e romperia com a pessoa perfeita que exibia à sociedade. Na visão de Zuckerman, só o transtorno e o sofrimento podem “elevar” um americano de classe média ao humano. São as noites de insônia e crise interior que nos tiram do filistinismo. Pelo menos é o que leio na narração de Zuckerman. Mas, como sempre, não tenho certeza de nada e ainda não sei o que pensar disso tudo.


OK. Vamos fazer o seguinte, vamos fazer de conta que não sabemos nada sobre o tribunal ao qual Gustave Flaubert foi submetido. Vamos apagar tudo que acidentalmente ficamos sabendo sobre aquele processo. Vamos apenas nos lembrar da frase famosa “Emma Bovary c’est moi”. Considere isso um exercício. Exercícios são coisas que as mentes ociosas acabam fazendo, sem muita razão ou propósito, mas que soam um tantinho mais produtivos do que virar uma noite tentando bater recordes de time trial no VVVVVV.

Emma Bovary c’est moi, sou eu. Modos de entender isso fora do contexto. Primeira possibilidade: eu simpatizo com a luta de Emma. Eu também detesto a mediocridade provinciana, eu também detesto os modos da sociedade, eu também sou contra esse casamento-prisão. O romancista toma a luta (ideológica? política?) da protagonista para si. O romance a princípio disfarça: narrador em terceira pessoa, atitudes de menina mimada ocasionais por parte da Emmita. No tribunal, porém, o romancista escancara, sou eu, eu carrego essa bandeira contra a hipocrisia dos bons costumes.

Segunda possibilidade: eu sou Emma, ela é baseada na minha experiência pessoal. Bem, senhor Flôba, você é adúltero? Vou contar para sua esposa. Você acaba de confessar no tribunal que trai sua mulher e se deixa levar pelos amantes, e que depois é capaz dos atos mais extremos de mãozinha no joelho para conseguir dinheiro em um momento de desespero. Você está disposto a admitir isso, senhor Flaubert? Está?

Porra, Flaubert. Você tem coragem.

O pós-modernismo dê-lhe que dê-lhe brincando de nos confundir. A literatura enquanto jogo. Vila-Matas, o contrabandista de identidades construindo passados falsos para si em cada um dos seus livros. Borges mesclando fato e ficção sem distinção. A foto do Bernardo Carvalho (verdadeira? falsa?) quando criança ao lado de um índio na orelha do Nove Noites. “Escritores são mentirosos profissionais”, dizendo o Mojids para toda a Wikipédia. E você chega, Flaubert, lá do passado, e o seu Madame Bovary c’est moi perdura. As circunstâncias em que foram ditas se perdem, são esquecidas, não são mencionadas na quarta capa nem na orelha nem no prólogo. Mas a frase segue, em todos os cantos do mundinho literário, excessivamente citada, abusada, ligando para sempre romancista e personagem, fazendo a tão temida conexão autor e obra, tão detestada por Barthes. Porra, Flaubert.


a-fraction-of-the-wholeTerminei semana passada o tijolão A fraction of the whole, do Steve Toltz, e não consigo entender direito porque não gostei do livro.

1. O livro foi “descoberto” pela Bensimon em Paris. Steve Toltz é um autor australiano que ainda não estourou muito por esses lados aqui. Daniel “Mojids” Felizzardi amou o livro e defendeu o romance como eu só tinha visto ele fazer com The last samurai da Helen DeWitt. Tiago “Ductilissimo” A., fez defesa similar. Então eu tive que conferir, não?

2.1 A primeira coisa que me incomodou no livro, é que nas 520 páginas dele não param de acontecer coisas. Sério, parece romance picaresco. A cada página um episódio diferente. A cada 50, uma reviravolta. Uma morte a cada 100.

2.2 Mas dá para reclamar de uma coisa dessas? Essa minha incomodação é válida? Será que eu gosto é de livro parado, livro chato, livro não-narrativo? Que espécie de argumento é esse?

3.1 Outra coisa que me incomodou é o humor, o livro é constantemente “engraçadinho”/”espertinho”. Na verdade as palavras mais adequadas para definir A fraction of the whole seriam “witty” e “clever”, e acredite, são palavras sem equivalente no português. A cada parágrafo tem uma observação espertinha acerca da vida, o universo e tudo mais.

3.2 De novo: dá para reclamar de uma coisa dessas? Não dá! Por que me irritou? Não sei! Me irritou como me irritou acontecer coisas demais! Será que isso quer dizer que gosto de um livro chato, sem humor?

4.1 e .2 O livro é todo bem construidinho: bons personagens, boas descrições. Parece resultado nota A de um curso de creative writing. Segue bem a tradição anglófona de literatura. Está, na minha opinião, bem na linha de autores norte-americanos como Safran Foer & cia. E isso também me incomodou! Deus do céu, estou chato.

5.1 Por fim, é um livro que não constrói algo no final. É composto de pequenas frações do todo, mas no final da leitura, senti ter saído dela incólume.

5.2 Mas não seria esse o propósito do livro? Olha o título, “uma fração do todo!”, o livro não pretende construir um grande significado final. E existe algo mais ridículo no século XXI do que esperar um todo? Não deveria ficar feliz com os fragmentos, com a impossibilidade do todo? Sim, eu deveria, todo meu conhecimento me orienta para isso. E, no entanto, não fiquei feliz.

Um resumo: Eu não gostei do livro, embora não tenha conseguido largar ele. Pior, não consegui encontrar um só argumento válido para explicar porque eu não gostei do livro. Se eu fosse pago para resenhar a obra, provavelmente faria uma resenha positiva, pois não dá para eu me render a um impressionismo tão obscuro, dá? Não, não dá. E ainda assim, não consigo ficar em paz.

Um resumo sobre o resumo: O que eu quis dizer com esse post? Acho saudável explicitar, já que muita gente me entende errado nessas bandas. ORAS, SIMPLES, só que eu não entendo meus procedimentos de leitura, ou então que meu processo de fruição é diferente dos meus procedimentos críticos, frios. E que conclusão podemos tirar disso? Não sei! Isso não é desesperador?


Traduzi, com autorização do autor, o conto “O hipnotizador pessoal”, do argentino Pedro Mairal. Coloquei notas acerca da tradução na caixa de comentários.

O hipnotizador pessoal

Pedro Mairal

Há dez anos, em uma oficina literária, conheci uma garota que tinha muita grana. Melhor dizendo, seus pais tinham muita grana. Não se chamava Verônica, mas vou chamá-la de Verônica por discrição, embora ela não more mais na Argentina. Verônica escrevia contos que se passavam em Paris, em Nova York, em Amsterdã, com personagens que eram sempre convidados a grandes festas. A oficina ficava na rua Callao com a Córdoba, e na saída eu a levava na minha bicicleta até Las Heras. Não nos dávamos conta de como era perigoso, ou talvez sim, e isso nos divertia. Uma vez, um ônibus 60 quase nos esmagou; foi por pouco. Eu freava apertando o pé contra a roda. Às vezes nos metíamos em livrarias e ela comprava um livro, mas depois, quando eu perguntava se ela tinha gostado do livro, me respondia que não tinha lido. Não gostava muito de ler. Encontrava-se o tempo todo com ex-colegas do colégio e depois me falava mal delas. Vivem numa bolha, me dizia, estão sempre falando de ir esquiar ou de Punta del Este, não se dão conta de que as coisas vão um pouco mais além. Como costuma acontecer, Verônica desprezava as pessoas que eram parecidas com ela. Lembro de que ela tinha cabelo liso, principalmente disso. Era mais lisa do que linda. E me lembro de seu cheiro de shampoo, quando ia sentada no quadro da bicicleta. Sem que eu sequer a tenha beijado, ela me incitava e me desprezava, ia alternando entre essas duas atitudes com sutileza, me mantendo afastado, mas, ao mesmo tempo, ao alcance da mão. Se ela tivesse me pedido, eu a teria levado pedalando até o Brasil.

Em uma dessas voltas, me convidou para ir a casa dela na rua Galileo, porque iam seus amigos do cinema (estudava cinema em um instituto no centro). Anda, venha, não me presto a esperar sozinha, me disse. Chegamos e nos abriu a porta da rua um guarda de segurança, de uniforme cinza. Era um dos poucos edifícios em Buenos Aires que, nessa época, já tinha segurança privada 24 horas. Subimos. O apartamento era enorme, decorado com poltronas brancas e tapetes. Ela vivia sozinha porque seus pais sempre estavam em lugares exóticos do mundo. Tinha uma empregada velha dando voltas pela cozinha, com a qual tinha discussões ferozes que a envergonhavam. Em meia hora, me mostrou sua câmera nova, me mostrou fotos de uma viagem a Índia, me mostrou algo no computador que eu não entendi até anos depois, quando se popularizou a Internet, pôs um CD em um equipamento super Hi-Fi, deu voltas pelo apartamento, me mostrou a arma do pai, comemos sorvete, e aos poucos foram chegando os amigos.

Eram mais ou menos da nossa idade. Tinha uma das garotas que se chamava Fabiana e um cara de cabelo comprido que se chamava Pablo, que eu pensei que eram namorados, porque se massageavam no sofá. Todos pareciam estar muito habituados ao lugar, se jogavam no living sem problema, abriam a geladeira e pediam sucos para a empregada. Observei-os várias vezes e fui mimetizando essa atitude de confiança.

Ali faziam a sua base e depois se mandavam para outras festas, em outras casas. Eu fui só uma vez a uma dessas festas, onde fizeram o mesmo, apenas com outras pessoas e com outra marca de cerveja: sentaram e falaram da festa que iriam depois. O melhor, a festa ideal, sempre estava em outro lugar.

Em alguma dessas conversas de sofá, saiu a típica pergunta: se você pudesse ter qualquer coisa no mundo, o que gostaria de ter? A maioria queria ter outro corpo, ou muito dinheiro. A resposta de Verônica me chamou a atenção. Eu quero ter um hipnotizador pessoal, disse, um “hipno”, existem, juro que existem. Um cara que me hipnotize nas horas monótonas, que me acorde só para os momentos de ação, que me anule o tempo morto. Isso é o que queria Verônica, alguém que lhe editasse a vida. Perguntaram para ela como seria, e ela explicava que o hipnotizador teria que fazê-la dormir, por exemplo, antes de sair de viagem a Paris. Ele a subiria adormecida no carro, a levava até o aeroporto, faria os trâmites, a colocava no avião e a acordava um tempo durante o vôo para comer; depois a adormecia de novo e a despertava no táxi, nas ruas de Paris, rumo ao hotel. Tinha que ser um sujeito forte para poder carregá-la nos braços.

Me surpreendeu a expressão “tempo morto”. Escutei ela falar aos seus amigos cineastas, mas eu não entendia tudo o que ela queria dizer. E me fez lembrar uns vizinhos numa barraca na praia de Pinamar: dois casais que jogavam bridge depois do meio-dia, jogavam por horas na sombra, até que um dos homens olhava o relógio e dizia: “Ui, já são seis horas. Matamos a tarde!”. Batia palmas ruidosas e esfregava as mãos porque a tarde tinha morrido; eles a tinham matado.

A idéia de Verônica também era matar o tempo, matar o tempo morto. Ela tinha intolerância ao tempo real. Não suportava o tempo que mediava os momentos supostamente relevantes da sua vida. Não suportava o tempo morto frente ao semáforo ou em salas de espera ou na fila. Os momentos em que não acontece nada.

Quando chegou minha vez de dizer o que eu queria, pensei que queria ter a Verônica, mas não disse isso. Não me lembro com o quê consegui me safar. Também não sei se foi nessa mesma noite que consegui beijá-la. Lembro que caminhamos pela Galileo até nos sentarmos na escadaria da Plaza Mitre e, como eu tinha tomado muita cerveja, me animei. Mas era difícil. Me escapava. Como se não estivesse ali. Vivia defasada do presente, um pouco acelerada rumo ao futuro, sempre pensando em algo de bom que aconteceria depois, me falando disso, de uma festa, de um filme essa noite, algo que iam filmar, uma roupa que os pais trariam de Nova York, sempre nesse declive de ansiedade, caindo para adiante.

Eu ia com freqüência na casa dela. Às vezes estavam Pablo e Fabiana vendo filmes. Um sábado de noite, convidei Verônica para ir a San Telmo beber algo, mas me disse que estava cansada. Pouco depois apareceram Pablo, Fabiana e uns amigos de Porto Rico que queriam sair para dançar salsa. Trouxeram rum La Negrita e misturaram com Coca-Cola. Eu via que Verônica se preparava para sair, muito divertida, e eu me botei a tomar rum. Um copo depois do outro. Ela queria que eu fosse com eles, mas eu, doente de literatura, preferia a tristeza do perdedor. Acabei tocando a campainha às quatro da manhã, totalmente bêbado, dizendo que eu queria ser seu hipnotizador pessoal. E ela nem estava lá. O guarda do térreo, que já me conhecia, me chamou um táxi e me mandou para casa.

Eu escrevia coisas para Verônica. Poesia. Uma vez fomos ao cinema de madrugada, depois beber algo, depois caminhamos e, em um quiosque, comprei o diário La prensa recém saído para mostrar que, no suplemento cultural, tinham publicado um poema meu dedicado a ela. Não me sobrava mais nenhum ás na manga e eu ainda não tinha conseguido passar dos primeiros beijos. Eu disse que gostava dela e ela me disse que eu era “um cara muito intenso”. Desde então, esse adjetivo – aplicado a qualquer coisa – me dá um pouco de vergonha.

Uma tarde subi pedalando a ladeira da Galileo. O guarda do edifício me disse: Que tá fazendo, Pedrinho? A Verônica não tá… Cara, o outro sujeito, o de cabelo comprido… Quem, o Pablo?, eu disse. Sim, te ganhou essa. Fica aqui pra dormir e tudo mais. Outro dia eu tirei as caras com a Verônica, viu só, perguntei, “com qual você fica, com o de cabelo comprido ou com o Pedrinho?”, e ela me respondeu, “com o de cabelo comprido”.

Me despedi dele com um sorriso bastante digno, considerando que acabavam de partir meu coração. O guarda tinha me dito a verdade, assim, dura e direta. Eu o odiei, mas hoje acho que me fez um favor, porque, do contrário, eu teria continuado dando voltas e ficado cada vez mais envolvido.

Voltei caminhando ao lado da bicicleta, sem montar. Tinha vontade de ir arrancando minha roupa e me jogar pelado no meio da rua. No sei se foi exatamente esse dia, mas a bicicleta foi parar no depósito. Não voltei mais a essa oficina literária, nem voltei a ver Verônica. Soube, por um amigo de um amigo, que se casou e vive nos Estados Unidos.

Um par de anos atrás, eu escrevi um conto curto tendo ela como personagem. Tenho que corrigi-lo. O narrador era o hipnotizador, o encarregado da feitiçaria quando ela se entediava. Ele ia contando o que tinha feito essa tarde. A história se passava no México porque parecia que ficava melhor. E ele falava da “menina”. “Às duas, a menina me pediu que eu a adormecesse e a levasse a uma festa em Cuernavaca”. Então, eu contava como a fazia adormecer na cadeira, a punha no carro e sentava frente ao volante para dirigir lentamente. Ela, adormecida no banco de trás, ele fumando, com a janela aberta. Descrevia a viagem e como, pelo caminho, era possível enxergar uma tempestade de verão que se aproximava, e depois chovia e caía granizo. Era narrado no presente, vivendo o tempo morto que ela não queria viver. Então chegavam de noite a Cuernavaca e, umas quadras antes, o hipnotizador acordava “a menina”. Contava que tinha chovido granizo e ela ficava braba porque ele não a tinha acordado para ver isso; teria gostado de ver granizo. A menina o repreendia muito e saía do carro rumo à festa, batendo a porta. Ele estava apaixonado por ela.


Mudanças

08/01/10 | Tags:

Me identifiquei com isso que o escritor norte-americano John Wray disse sobre seu terceiro romance (“que pode ser descrito em duas frases”) ser tão diferente do segundo (“que precisaria umas 40 para ser descrito”) e do primeiro. Diz Wray:

“Quando ficou claro para mim que eu terminaria o meu primeiro romance, eu já pensava que queria que o meu segundo fosse completamente diferente do primeiro. E então eu quis que meu terceiro romance fosse o mais diferente possível do segundo. Principalmete porque – não por causa de ambição – eu não gosto da idéia de um escritor sempre escrever o mesmo romance. Existem autores que eu amo e que sempre escrevem o mesmo romance, como Ernest Hemingway ou Cormac McCarthy. Quer dizer, eles podem não pensar assim, Hemingway pode dizer: do que diabos você está falando? Mas de um ponto de vista estético, ele estava escrevendo o mesmo livro de novo e de novo. Me enlouqueceria. Seria como um obsessivo no hospício costurando sempre a mesma meia.”

Traduzido daqui.


…supondo que, por algum motivo, tem interesse no que eu escrevo. De resto, esse post poderia muito bem se chamar “Formspring him”.

P: É um livro de contos ou um romance?

R: De contos.

P: Por que voltar aos contos?

R: Porque passei a revalorizar o gênero após leituras de Bolaño, Vila-Matas, Barth, Paley e outros. E também porque, por mais que eu esteja trabalhando em um romance, tive um surto de escrita de contos. Não conseguia parar de escrever. E qual a graça de ter uma editora independente se eu não posso publicar livrinhos como esse?

P: Editora independente. Então você não vai tentar publicar por uma maior?

R: Não esse livrinho, até porque sei que editoras grandes nunca se interessam por contos. Meu próximo romance é outra história, esse eu tentarei. Claro, há chances de eu nunca passar para uma grande e continuar tendo que bancar meus próprios livros. O que me levaria a desistir da brincadeira cedo ou tarde (de publicar, já que parar de escrever é meio impossível para mim).

P: Por que você se refere a ele como “livrinho”?

R: Por causa do tamanho. Será um livro pequeno. Terá uns 7, 8 contos. Claro, serão contos gorduchos, contos como antigamente, extensão Poe, não minicontos, apesar de alguns mais breves.

P: E tem unidade temática?

R: Não acredito em livro de contos sem isso. Só tem contos metaliterários nele, ou seja, uso a própria literatura para falar de literatura. O que é diferente de metaficção. Longa história. Em resumo: os contos giram em torno de leitores, escritores, editores. Essas coisas. Mas são divertidos, creio. Nada de academicismo e “livro para críticos”.

P: E quais as referências principais?

R: Os seguintes livros de contos metaliterários: Llamadas telefónicas, do Bolaño (primeira parte), Exploradores del abismo, do Vila-Matas, e Sonho interrompido por guilhotina, do Joca Reiners Terron. Todos tem mais ou menos a mesma unidade temática que busquei.

P: Quem será responsável pelo visual do livro?

R: O que mais me levou a querer publicar é essa parceria com a fotógrafa Ieve Holthausen, que vai produzir especialmente para o livro várias fotografias. Ela que fez a capa do Pó de parede e as imagens internas.

P: E aquele ensaio sobre o qual você falou aqui. Vai entrar no livro?

R: As primeiras reações ao ensaio foram: “muito chato” e “insuportável”. Não, não vai entrar. Meu plano é liberar ele em PDF mais além, para quem quiser. Acho uma boa companhia para os contos, ainda mais que menciona personagens ficcionais dos contos do livro.

P: Pode falar um pouco de algumas histórias do livro?

R: Duas garotas procuram um original perdido do Borges. Detetive literário busca descobrir onde se esconde Thomas Pynchon, baseado na suposição de que ele foi substituído por um fã. Um conto autoficcional sobre videogames e literatura. Estudante de jornalismo pensa em inúmeras possibilidades de encontro com escritor que admira. Cervantes é sacaneado por cientificistas e seu Quixote é reescrito. Paraplégico narra surgimento e fim de uma nova cena literária. E mais dois contos que ainda não decidi se entram.

P: Se eu detesto esses livrinhos umbiguistas que só ficam falando de literatura… eu deveria ler?

R: Não. E também não entendo o que você está fazendo nesse blog, já que vivo falando de Coetzee, Vila-Matas e companhia, gente que faz exatamente isso.

P: Ele já tem título?

R: Ele tem vários títulos, só não consigo me decidir qual. Um dos descartados foi: “A página assombrada por fantasmas”. Outro descartado foi: “Viagens ao redor da página”.

P: Quando sai?

R: Quero ter a versão final do livro, revisada, até fim de março. O plano é que saia, portanto, lá por julho de 2010.


elizabeth-costelloEstou terminando a leitura de Elizabeth Costello (2003), livro de ensaios disfarçado de romance do Coetzee, ou melhor, talvez, romance disfarçado de livro de ensaios. Parece indicar para onde o Coetzee seguiria em 2007, com o Diário de um ano ruim (que é admitidamente um livro de ensaios E um romance, separados por um corte de página), e parece sinalizar mais cousas ainda. Que coisas?

Bem, o que leva alguém a ler Elizabeth Costello? Os assuntos mais debatidos nos ensaios são: África, pós-colonialismo, o ensino de humanidades, vegetarianismo. Veja bem, até eu que sou um acadêmico desvairré não consigo muito me interessar por esses assuntos. A graça de Costello está, a princípio, não em ler uma boa história, mas no prazer de ler uma boa argumentação, um encadeamento de idéias. Sim, porque sinto que, em algum momento da carreira, Coetzee olhou para si mesmo e disse: “não sou um escritor de linguagem, nem mesmo um grande narrador, sou um sujeito de idéias”. E então passou a explorar com ainda mais voracidade (porque sempre esteve presente, mas não dessa forma) o gênero ensaístico, e a cultivar esse híbrido entre romance e ensaio.

A grande descoberta Coetzeeana (embora seja perigoso usar a palavra descoberta, visto que eu não li nem um milionésimo dos livros que existem) está em procurar possíveis respostas, reverberações aos seus pensamentos dentro da própria ficção. Nunca lemos um ensaio do Coetzee sem ver naquelas mesmas páginas alguém reagindo ao que Costello (a personagem-palestrante) afirma, algo só factível mesmo nessa mescla de ensaio e ficção.

E é nesse verbo, “afirmar”, que está também outra ruptura Coetzeeana. Coetzee é o escritor que não afirma. Quer dizer, através de sua personagem pode afirmar coisas, mas são idéias sempre discutidas. Coetzee é da geração que nasceu sabendo que não existem verdades únicas. Talvez por isso o símbolo de interrogação seja um dos mais presentes na sua prosa, até em livros como Juventude e Desonra. Um escritor em busca das perguntas certas. Eis um motivo para ler Coetzee.