A Feira reage

14/11/09 | Tags:

Eu já escrevi um montão sobre o que eu achava da Feira do Livro de POA, i.e., tudo que eu achava que estava errado. Escrevi neste post aqui, dia 24/09, antes dela começar.

Sinceramente, eu achei que nada mudaria, que a Feira continuaria tudo igual. Mas não. Os organizadores fizeram tudo igual (aceitaram 3548545 eventos e sessões de autógrafo), mas o público reagiu. A fórmula está desgastada. 2009 foi o ano das vendas despencarem. E agora todos os organizadores estão discutindo e questionando o formato, e há 3 dias as capas do Caderno da Feira são com críticas e novas propostas (gosto dessas do Rosp). Não estou dizendo que eu sou um profeta, claro, estou apenas feliz que finalmente a Feira do Livro tomou um banho de água fria e vai precisar repensar essas questões.

O Ian Alexander, da UFRGS, escreveu hoje na Zero: “Um evento organizado em torno de uma mercadoria, por vendedores daquela mercadoria, sempre vai se adaptar às regras do mercado, e não aos desejos da cultura. Seria diferente se fosse um festival literário, se o foco fossem as pessoas, os escritores e os leitores de livros, e não os livros em si (…)” Belo resumo.

Claro, tem gente que aponta outros fatores, como descontos são iguais aos das grandes redes, que ainda por cima oferecem um catálogo muito mais diversificado (concordo) e o surgimento dos livros eletrônicos (pelo amor de deus, discordo muito – EU nunca vi um e-book – isso nunca afetaria as vendas, não esse ano). Eu apontei aqui, como um dos poucos fatores que redimiriam a Feira, o fato de que o carnaval no centro de POA dava chances para as pequenas livrarias se vingar das grandes. Pelo jeito não funciona mais. É hora de mudar o foco.

Fiquei puto da cara quando soube, agora há pouco, que a Ivana Arruda Leite, uma das escritoras mais lidas e discutidas do momento em São Paulo, deu uma palestra ontem na Feira (que horário? não sei, não divulgaram em lugar algum, exceto talvez no guia de programação, ao lado de outros 300 eventos, todos listados sem uma informação para convencer alguém que não conhece a ir) junto com outros dois autores e que só tinha UMA pessoa na platéia. A Ivana escreve no twitter: “a feira traz 3 escritores de SP, paga hotel e avião p/ eles, e na platéia só tem UMA pessoa. Tem algo errado nessa história, não tem não?”

Tem, tem algo errado com essa história. Hora de mudar o foco, hora de repensar desde o início.


Gosto do Marcelo Frizon porque ele não foge da briga. Eu conheci ele quando ele redigiu um longo post atacando minhas opiniões sobre Juno, que eu considerava (e ainda considero) um filme montado sob medida para agradar o público-alvo alternativo e “cinema para quem não gosta de cinema”. O post, claro, gerou seus eternos desdobramentos e discutimos por algo como páginas e páginas. Frizon não foge da discussão. E eis que Frizon me manda um e-mail sobre meu post da Feira do Livro de POA (alguns posts abaixo). Ao contrário do tema Juno, que me mantive fiel às minhas convicções, o e-mail do Frizzzz me fez rever algumas posições.

A ver: como os cálculos de porcentagem nos mostram, é bem complicado para um livreiro pequeno dar 20% de desconto. Ele faz isso para aumentar suas vendas, afinal, essa é a fase de aumentar as vendas, a Feira do Livro de POA. Todo o resto do ano, quem realmente vende livro novo são as grandes redes, que podem se dar ao luxo de dar desconto o ano todo. Bem, o que isso muda? Muda que talvez todo o frisson (ops, acabo de fazer um trocadilho com Frizon) em cima do consumo de livros (que eu condenei no post anterior), todo o agito de “maior feira de livro a céu aberto”, blá blá blá, tudo isso contribui para montar uma espécie de revanche dos pequenos livreiros. É somente no burburinho da Feira que aquela livraria pequena do Centro de Porto Alegre consegue dar desconto nos livros e, ainda assim, não perder dinheiro, porque suas vendas são triplicadas. É nessa época que a Saraiva e a Cultura de Porto Alegre ficam vazias e as pessoas vão às ruas comprar nas pequenas livrarias. E, nesse sentido, a Feira do Livro é realmente louvável. Sem mais-


Quando eu era criança, lá nos meus 16 anos, não comprava livros todo o mês de agosto e setembro esperando a época da Feira do Livro para pegar descontos. Chegava à Feira e de fato, eu comprava muita coisa, algumas sem o menor sentido, como sei lá, um livro em espanhol sobre pingüins. Com o passar do tempo, essa espera foi perdendo o sentido. Surgiu a Livraria Cultura em Porto Alegre, que sempre oferece desconto de 20% em todos livros da Companhia das Letras (que correspondiam a metade das minhas aquisições), as outras livrarias terrenas davam desconto igual ao da feira, etc, etc. O único motivo para ir na praça da Alfândega era pelo agito mesmo, para ver centenas de pessoas se estapeando na frente das bancas.

Claro, fui crescendo, me inserindo no mercado editorial, lendo mais, muito mais, estudando um pouco de literatura, entendendo como funcionava a cena literária gaúcha… e tudo isso me levou a onde estou agora, achando a Feira do Livro a coisa mais frustrante que existe. Explico.

Em primeiro lugar, a Feira não é do livro, nem do leitor. É do livreiro. Quem ganha são os livreiros, que muitas vezes colocam 10% de desconto (um desconto absurdamente pequeno) e triplicam suas vendas. A última vez que estive no Rio, o Scott me levou para conhecer um sebo na Gávea (eu acho que era na Gávea). Tinha uma espécie de outlet da Conrad, com diversos livros por 10 reais, além de vários Cia. das Letras não tão populares (Javier Marías!! Onetti!!) por 10 reais. Obviamente surtei e voltei com a mala pesada. Esse sebo funciona todos os dias lá no Rio. Aqui, em Porto Alegre, esperamos o mês da Feira para pegar no máximo 20% de desconto (um livro de contos do Carver sai de 50 reais por 40). Quem ganha sempre são os livreiros.

Mas e os balaios? São fantásticos se você é fã de Morris West ou Zíbia Gasparetto. Para aqueles que não acreditam em espíritos nem apreciam um best-seller, está cada vez mais difícil achar algo que preste no balaio. Tinha um bom na última feira, com Anéis de Saturno do Sebald e Criando Kane da Pauline Kael. Um balaio pequeno, para toda uma feira parece uma média pavorosa.

E as mesas de debate? Gostaria de ilustrar com um exemplo. Na feira de 2007, eu e o meu amigo Kelvin ficamos passados quando abrimos a revista de programação e encontramos o nome do mestre mexicano Mario Bellatin no meio de vários outros nomes. Joder, precisamos ir nisso, Kelvin. Então no dia fomos. Em uma saleta escondida do Memorial, estava sentado no palco o argentino Sergio Chejfec. Nem sinal do mexicano maneta. Perguntei, com meu Lecciones a una Liebre Muerta embaixo do braço que tinha levado para pegar autógrafo, para uma organizadora sobre o Bellatin. Ela não sabia quem era. Mostrei a revista de programação. Ela me comunicou que Bellatin cancelou de última hora, que só estaria o Chejfec. Bom, apesar do Chejfec não me interessar muito, entrei para assistir. E então noto que na sala que reuniria um famoso escritor argentino e o Bellatin só tem 10 pessoas além de mim e do Kelvin. Veja bem: era um sábado à tarde. Imagino que muita gente estaria disponível para ver algo num sábado à tarde. A mesa reunia (reuniria, se tivesse vindo o Bellatin) dois dos principais escritores latino-americanos na atualidade. O evento não teve a MENOR divulgação, ficou esquecido ali em uma salinha. Que diabos, até um micro-evento que participei como convidado sobre jovens escritores tinha mais gente. Mas a ironia suprema talvez esteja em quando eu fui para São Paulo esse ano e pesquei uma sessão de autógrafos com o Bellatin. Estava bem cheia – e de gente interessada¹.

Quando twittei algumas provocações sobre a Feira, alguns não gostaram, e reclamaram que era o momento das pessoas que, ao contrário de mim, não tinham grana para ficar encomendando livro da Amazon irem comprar livros. Oras, com isso eu concordo. A Feira realmente tem o valor social de transformar os livros (ou seria o consumo dos livros?) em estrela. Porém, ao mesmo tempo, cheira a frustração. Porque ela poderia ser MUITO MAIS do que é. Poderia ser algo além de centenas de pessoas comendo pipoca doce e comprando Sidney Sheldon. As mesas de debate poderiam ser valorizadas. Pensem na FLIP, pensando nas pessoas disputando ingressos para ver escritores que nem conhecem falar. Não sei do lado financeiro da Feira, mas se conseguiram trazer Chejfec e (tentaram) Bellatin, algo me diz que podem continuar convidando escritores interessantes. E divulgando como algo importante e relevante. Deslocar o foco do comércio para a literatura em si. É pedir demais?²

E, apesar de eu criticar a Feira, em 2009 recebi o convite para mediar uma mesa. E aceitei. Provavelmente me divertirei aos montes e depois, com sorte, beberei um chopp ali na parte externa do café do Margs. Tentarei fazer uma boa mediação (estarei amparado pelo bom elenco que integra a mesa: Carlos André Moreira, Alexandre Rodrigues, Rafael Bán Jacobsen e Lívia Jappe (esta última ainda não conheço)), afinal do que adianta resmungar sem tentar melhorar o que me desagrada? Uma singela mediação não muda nada, porém ainda é melhor que comer pipoca doce.

NOTAS:

¹ Alguém sempre pode contra-argumentar, claro, que quando Bellatin veio a São Paulo, tinha recém sido lançado pela CosacNaify e ganho um destaque maior. É válido.

² Sim, eu sei que se chama Feira, e que Feira pressupõe foco no comércio. A Mari Messias me twittou que a Feira não decepciona: é exatamente o que se propõe a ser – chimarrão e romance histórico. Grande Messias.