Quando eu era criança, lá nos meus 16 anos, não comprava livros todo o mês de agosto e setembro esperando a época da Feira do Livro para pegar descontos. Chegava à Feira e de fato, eu comprava muita coisa, algumas sem o menor sentido, como sei lá, um livro em espanhol sobre pingüins. Com o passar do tempo, essa espera foi perdendo o sentido. Surgiu a Livraria Cultura em Porto Alegre, que sempre oferece desconto de 20% em todos livros da Companhia das Letras (que correspondiam a metade das minhas aquisições), as outras livrarias terrenas davam desconto igual ao da feira, etc, etc. O único motivo para ir na praça da Alfândega era pelo agito mesmo, para ver centenas de pessoas se estapeando na frente das bancas.
Claro, fui crescendo, me inserindo no mercado editorial, lendo mais, muito mais, estudando um pouco de literatura, entendendo como funcionava a cena literária gaúcha… e tudo isso me levou a onde estou agora, achando a Feira do Livro a coisa mais frustrante que existe. Explico.
Em primeiro lugar, a Feira não é do livro, nem do leitor. É do livreiro. Quem ganha são os livreiros, que muitas vezes colocam 10% de desconto (um desconto absurdamente pequeno) e triplicam suas vendas. A última vez que estive no Rio, o Scott me levou para conhecer um sebo na Gávea (eu acho que era na Gávea). Tinha uma espécie de outlet da Conrad, com diversos livros por 10 reais, além de vários Cia. das Letras não tão populares (Javier Marías!! Onetti!!) por 10 reais. Obviamente surtei e voltei com a mala pesada. Esse sebo funciona todos os dias lá no Rio. Aqui, em Porto Alegre, esperamos o mês da Feira para pegar no máximo 20% de desconto (um livro de contos do Carver sai de 50 reais por 40). Quem ganha sempre são os livreiros.
Mas e os balaios? São fantásticos se você é fã de Morris West ou Zíbia Gasparetto. Para aqueles que não acreditam em espíritos nem apreciam um best-seller, está cada vez mais difícil achar algo que preste no balaio. Tinha um bom na última feira, com Anéis de Saturno do Sebald e Criando Kane da Pauline Kael. Um balaio pequeno, para toda uma feira parece uma média pavorosa.
E as mesas de debate? Gostaria de ilustrar com um exemplo. Na feira de 2007, eu e o meu amigo Kelvin ficamos passados quando abrimos a revista de programação e encontramos o nome do mestre mexicano Mario Bellatin no meio de vários outros nomes. Joder, precisamos ir nisso, Kelvin. Então no dia fomos. Em uma saleta escondida do Memorial, estava sentado no palco o argentino Sergio Chejfec. Nem sinal do mexicano maneta. Perguntei, com meu Lecciones a una Liebre Muerta embaixo do braço que tinha levado para pegar autógrafo, para uma organizadora sobre o Bellatin. Ela não sabia quem era. Mostrei a revista de programação. Ela me comunicou que Bellatin cancelou de última hora, que só estaria o Chejfec. Bom, apesar do Chejfec não me interessar muito, entrei para assistir. E então noto que na sala que reuniria um famoso escritor argentino e o Bellatin só tem 10 pessoas além de mim e do Kelvin. Veja bem: era um sábado à tarde. Imagino que muita gente estaria disponível para ver algo num sábado à tarde. A mesa reunia (reuniria, se tivesse vindo o Bellatin) dois dos principais escritores latino-americanos na atualidade. O evento não teve a MENOR divulgação, ficou esquecido ali em uma salinha. Que diabos, até um micro-evento que participei como convidado sobre jovens escritores tinha mais gente. Mas a ironia suprema talvez esteja em quando eu fui para São Paulo esse ano e pesquei uma sessão de autógrafos com o Bellatin. Estava bem cheia – e de gente interessada¹.
Quando twittei algumas provocações sobre a Feira, alguns não gostaram, e reclamaram que era o momento das pessoas que, ao contrário de mim, não tinham grana para ficar encomendando livro da Amazon irem comprar livros. Oras, com isso eu concordo. A Feira realmente tem o valor social de transformar os livros (ou seria o consumo dos livros?) em estrela. Porém, ao mesmo tempo, cheira a frustração. Porque ela poderia ser MUITO MAIS do que é. Poderia ser algo além de centenas de pessoas comendo pipoca doce e comprando Sidney Sheldon. As mesas de debate poderiam ser valorizadas. Pensem na FLIP, pensando nas pessoas disputando ingressos para ver escritores que nem conhecem falar. Não sei do lado financeiro da Feira, mas se conseguiram trazer Chejfec e (tentaram) Bellatin, algo me diz que podem continuar convidando escritores interessantes. E divulgando como algo importante e relevante. Deslocar o foco do comércio para a literatura em si. É pedir demais?²
E, apesar de eu criticar a Feira, em 2009 recebi o convite para mediar uma mesa. E aceitei. Provavelmente me divertirei aos montes e depois, com sorte, beberei um chopp ali na parte externa do café do Margs. Tentarei fazer uma boa mediação (estarei amparado pelo bom elenco que integra a mesa: Carlos André Moreira, Alexandre Rodrigues, Rafael Bán Jacobsen e Lívia Jappe (esta última ainda não conheço)), afinal do que adianta resmungar sem tentar melhorar o que me desagrada? Uma singela mediação não muda nada, porém ainda é melhor que comer pipoca doce.
NOTAS:
¹ Alguém sempre pode contra-argumentar, claro, que quando Bellatin veio a São Paulo, tinha recém sido lançado pela CosacNaify e ganho um destaque maior. É válido.
² Sim, eu sei que se chama Feira, e que Feira pressupõe foco no comércio. A Mari Messias me twittou que a Feira não decepciona: é exatamente o que se propõe a ser – chimarrão e romance histórico. Grande Messias.