Lembrei de uma cena de um dos 6 mini-romances que compõem o Cloud Atlas, onde um personagem começa a ler Assim Falou Zaratustra e desiste porque tem a impressão que é o livro que está lendo ele, e não o contrário.
Lembrei porque li trechos selecionados do ensaio E unibus pluram, do David Foster Wallace [ver os trechos aqui (em inglês)], e as coisas que Wallace diz são, bem, muitas coisas que eu já pensava e dizia, só que sem o talento, é claro, do ficcionista americano.
O Foster Wallace ataca, nesse texto, a “ironia instuticionalizada”. Ele se pergunta (tradução relâmpago minha): “como pode a ironia, a irreverência e a rebeliação deixarem de ser libertadoras e se tornarem enfraquecedoras na cultura que a vanguarda de hoje tenta escrever?”. Sim, DFW, SIM. Prossegue: “Isto ocorre porque a ironia, por mais divertida que seja, serve quase exclusivamente para negar. É crítica e destrutiva, limpa o terreno. Com certeza essa é a maneira que os nossos pais do pós-modernismo a enxergaram. Mas a ironia é particularmente inútil quando chega o momento de construir algo no lugar da hipocrisia que denunciou.”
Sim, SIM, sim. É difícil eu tentar escrever algo além do que o Wallace disse, de tão bonita que a síntese que ele faz. Essa tirania da ironia também foi denunciada pelo Vila-Matas, apesar de que V-M insiste no recurso, afinal, “ela sempre pareceu um bom artifício para desativar a realidade”.
Mas o Wallace, como ficcionista, na minha opinião, buscava bem isso. Transcender o distanciamento irônico da ficção pós-modernista, buscar novas maneiras de significar na literatura contemporânea. Ele tentava, por mais brega, retrógrado que isso possa parecer, descobrir algo sobre o ser humano, ou, pelo menos, sobre si mesmo, ou, então, quem sabe, sobre a sociedade na qual vivia.
É muito divertido um livro que evita “dizer” algo, que ri das pessoas que “afirmam”, mas é também um livro covarde. Há certa covardia na ironia. Ainda que exija criatividade, ela coloca sempre o autor num ponto mais elevado. Ele ri de todos lá do topo de sua montanha. Não há risco. Dizer coisas, ou até mesmo buscar fazer as perguntas certas, aí há risco, aí há ética (e não só estética e viagens ao redor do próprio texto).
Escrito em 93, o texto segue ridiculamente atual, ainda mais com toda uma cultura indie/hipster montada em cima de ironia, do distanciamento, do blasé, em cima do cool, que é o maior inimigo, acredito, do humano. Não o cool do Steve McQueen, o cool da frieza da releitura irônica que nada comunica. Mas eu falei demais, quando o Wallace fala melhor. Nas palavras dele:
“Rebeldes de verdade, pelo que eu posso ver, arriscam ser rejeitados. (…) Os riscos de hoje são diferentes. Os novos rebeldes podem ser artistas que estão dispostos a sofrer com bocejos, um rolar dos olhos, o sorriso frio, a paródia de ironistas talentosas, o “Ó, que banal”. Arriscam acusações de sentimentalismo e melodrama. (…)”
Ah, que diabos, não dependam da minha tradução relâmpago. Leiam o texto em inglês logo. s/m



