Publiquei um artigo longo que traça uma panorâmica da obra completa do autor norte-americano Bret Easton Ellis, um dos escritores mais ignorados pela crítica e detestados por alguns leitores. Acabou sendo matéria de capa do Idéias & Livros do Jornal do Brasil, uma das últimas edições impressas do jornal. O JB vai deixar saudade, pelo menos para mim. Como sempre, segue cópia do artigo na íntegra abaixo. Versão online aqui.

Um inferno pessoal

Antônio Xerxenesky

O caso de Bret Easton Ellis é peculiar: o escritor californiano tornou-se um sucesso de vendas desde o primeiro livro (“Abaixo de Zero”) e assim se mantém até hoje. Seus romances continuam sendo publicados por editoras de prestígio, são amplamente traduzidos e três deles já foram adaptados para o cinema (sem contar a adaptação do livro de contos “Os Informantes”). Não obstante, a crítica literária dita “séria” nunca deu muita atenção ao escritor depois da sua explosão inicial nos anos 80. Até aí não há nada de peculiar ou diferente: o que pode ser mais comum do que um best-seller ignorado pelos leitores sérios? Entrando em contato com a prosa do autor é que o fenômeno se torna curioso. Ellis é violento demais, prolixo demais, experimental demais para se encaixar em uma literatura pop. Por outro lado, sua temática, geralmente focada sobre a vida de ricaços e celebridades, e seu estilo, ausente de reflexões profundas, fazem de Bret Easton Ellis um estranho na biblioteca dos acadêmicos. Com o lançamento norte-americano de “Imperial Bedrooms”, narrativa na qual o autor retoma os personagens do seu primeiro romance 25 anos depois (e, de certa forma, encerra um ciclo), cabe fazer um balanço de sua atípica carreira.

Parece fácil atribuir o epíteto de “romance de geração” para “Abaixo de Zero”, a estréia literária de Ellis. Publicado originalmente em 1985, o livro acompanhava o cotidiano de estudantes endinheirados recém saídos da adolescência. Narrado em tom frio, como se desligado de sentimentos, retratava uma geração obcecada por consumo, sexo e drogas, porém muito distante do sonho hippie das décadas anteriores. O amor livre propagado a partir dos anos 60 dá espaço a uma promiscuidade desumana em “Abaixo de Zero”. Os jovens trocam de parceiro como quem troca de carro: personagens se confundem, tamanha a semelhança das suas opiniões e comentários, e nenhum deles jamais lembra quem já dormiu com quem. As drogas, que tinham uma função recreativa e de “expansão de consciência” nos anos da psicodelia, passam a mostrar seu lado sombrio: o vício e os danos físicos e mentais. Os anos 80, mais que uma década, parecem um lugar, um pequeno inferno do qual o narrador não consegue sair.

Relendo a obra nos dias de hoje, fica fácil rotular Ellis como um moralista (título esse que o próprio autor se dá). Na época, porém, “Abaixo de Zero” foi lido de formas muito diversas. Se, por um lado, jovens leitores viram nele uma celebração do que há de cool na década de 80, por outro, alguns críticos reclamaram da inverossimilhança da trama. “Essas pessoas não existem! Ninguém é tão rico e estúpido!”, argumentava uma resenha do Details de 1985. Bret Easton Ellis, nos dias de hoje, uma época de “Paris Hiltons”, gargalha desse tipo de comentário. “Abaixo de Zero”, então, talvez fique na história mais como “profético” do que como um “retrato de uma geração”.

“Imperial Bedrooms”, seu livro mais recente, cuja tradução sairá em breve pela Editora Rocco, retoma todos os personagens de “Abaixo de Zero” e mostra que muito pouco mudou. Agora os protagonistas passam o tempo trocando e-mails e mensagens de texto do seu iPhone, mas, à parte do meio de comunicação, o conteúdo permanece no mesmo vazio. Se a sociedade dos anos 80 era a da ganância e do consumo, a atual é a da informação, que, na visão de um livro de Ellis, obviamente ganha tons sombrios. Iniciando como uma espécie de romance policial noir, “Imperial Bedrooms” se desenrola com base na paranóia, que distorce os limites entre realidade e imaginação (tema recorrente em toda sua obra: basta ler “Glamorama” ou “Lunar Park”). A violência desmesurada, que surge num repente na narrativa, confirma o pessimismo da prosa do autor. Ao lermos as últimas linhas de “Imperial Bedroom”, não é possível enxergar nem um mínimo de resquício do que poderia ser interpretado como “glamour” (algo que ainda era observável, ainda que de forma recalcada, em “Abaixo de Zero”).

Tomando o primeiro livro do autor e este último como referência, parece que se constrói uma visão panorâmica da obra de Ellis. Terrível engano. O californiano não se deixa catalogar tão facilmente. Entre “Abaixo de Zero” e “Imperial Bedrooms” existiram quatro romances e uma coletânea de contos que exploraram direções muito diferentes. Em “Regras da Atração”, por exemplo, Ellis usa o artifício, muito em voga nos dias de hoje, de narrar a mesma história de vários pontos de vista. Ele o faz, porém, com brio: por se tratarem de universitários que abusam de drogas e álcool, os relatos individuais dos mesmos eventos se mostram contraditórios e o leitor nunca tem certeza do que de fato aconteceu na trama. A adaptação cinematográfica de Roger Avary tentou dar conta dessa forma de narrar com vários artifícios próprios da linguagem do cinema, como dividir a tela em dois. O resultado, porém, não é capaz de dar conta de todas as nuances do texto literário.

Já em “Lunar Park”, penúltimo livro de Ellis, o autor transforma-se em personagem, ficcionalizando a própria vida e inserindo personagens de outros livros como “fantasmas” a perseguir o autor-protagonista. Esse recurso pós-modernista conhecido como “autoficção” foi amplamente debatido e analisado em livros de autores como Vila-Matas e Coetzee. “Lunar Park”, no entanto, foi bastante ignorado pela crítica acadêmica, que não soube valorizar esse aspecto da obra.

A produção de Ellis é irregular, acidentada, mas também variada e curiosa, não apenas por um “possível retrato da sociedade”, mas pela habilidade nas experimentações formais do autor. Acima de tudo, esse escritor pode ser pensado como um artista que buscou pintar o inferno das mais diversas maneiras, dos mais inesperados ângulos. Um inferno pessoal, que começou nos anos 80 e vem mudando de rosto com o passar das décadas.


Segue abaixo uma cópia do meu artigo para o Estado de S. Paulo sobre a influência de Bolaño publicado hoje (22/05) no caderno Sabático. Pode ser visto online aqui também. Sempre coloco aqui cópias dos textos impressos que publico (como as resenhas do JB) por motivos de arquivamento e porque às vezes os veículos impressos tem que aparar umas frases para caber no espaço.

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A SOMBRA DE BOLAÑO

Em certo momento do documentário Bolaño Cercano, comenta-se que muitos jovens autores olham para a figura (e para a prosa) do chileno Roberto Bolaño como referência. O fenômeno parece realmente sólido na América Latina: em uma simples viagem a Buenos Aires, esbarramos com entusiastas e mais entusiastas do autor. Aqui no Brasil, a influência (ou melhor: a sombra, para nos livrar dessa palavra tão caída que é “influência”) não se apresenta tão palpável.

Claro, pode-se traçar alguma relação entre os contos metaliterários de Joca Reiners Terron em Sonho interrompido por guilhotina e as narrativas de Bolaño. Terron, ávido leitor da nova geração de latino-americanos, familiarizou-se desde cedo com o autor. Em outro caso mais explícito, aponta-se a confraria de escritores que confundem ficção e realidade do romance Cordilheira, de Daniel Galera, como outra marca da sombra de Bolaño no país. Entrando em território mais pessoal, posso confessar que situei meu romance Areia nos dentes no D.F. mexicano por causa de Os detetives selvagens. A figura do narrador também foi levemente moldada com base no personagem Amadeo Salvatierra. Por fim, posso afirmar que o livro de contos que lanço em 2011 traz muitas referências formais ao ainda inédito no país Llamadas telefónicas.

Isso tudo, porém, não passa de riscos na superfície. Para entender a sombra de Roberto Bolaño na literatura mundial (ou ao menos na ocidental) é necessário cavar mais fundo na obra do chileno. Lembrem que grande parte de sua prosa (e de sua poesia) trata justamente da relação entre literatura e vida.

Em Os detetives selvagens, temos jovens querendo uma vida digna de ficção. Em Noturno do Chile, a questão central é muito mais sombria: enquanto a intelectualidade discute literatura, a ditadura militar segue forte e virulenta. Em Amuleto, torna-se claro que toda a leitura do mundo nada fez para impedir a violência na América Latina. Pelo contrário, poesia e violência “são duas faces da mesma moeda”, nas palavras da narradora Auxilio Lacouture. O póstumo 2666 complexifica essa relação, e qualquer tentativa de resumo em uma só linha está fadada ao fracasso.

Bolaño, portanto, definiu novos parâmetros acerca da posição e função do escritor no mundo. Até mesmo os narradores marginais que buscavam contestação política descobriram sua irrelevância. Livros são insignificantes pragmaticamente. E, ainda assim, os personagens de Bolaño continuam obcecados por livros, por escrever, por ler, por conhecer autores. A síntese proposta pela revista norte-americana n+1 sobre o universo do autor é certeira: “Os livros significam tudo e nada; o escritor é um herói e um idiota – [isso] se tornou uma das poucas atitudes literárias plausíveis hoje em dia.”

Sempre que penso nesse “paradigma Bolaño” fico chocado. Uma época eu mantinha, em cima da escrivaninha onde escrevo, uma foto do autor, a foto clássica na qual ele parece um detetive de polícia. Tive que tirar a foto. A sua sombra era desesperadora.


Atendendo pedidos no twitter e no sistema de comentários, ressuscito aqui o que apaguei.

É o post intitulado “Tentando entender”, publicado dia 02/05. Depois que vi as coisas por outro ângulo (dia 03/05), apaguei o texto. Outra hora explico minha mudança de opinião.

Enquanto eu estava nesse apaga-ou-fica no blog, saiu mais uma resposta a Flora Süssekind, dessa vez por parte do poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna. E pela primeira vez posso romper a lógica do post original (que está logo abaixo) e dizer que discordei em todos os aspectos possíveis com Affonso Romano.

Enfim.

Segue abaixo o post original.

TENTANDO ENTENDER (02/05/10)

Logo que saiu o texto da Flora Süssekind, “A crítica como papel de bala”, o twitterismo literário só falava disso. Acho que a própria crítica, ao redigir esse texto, sabia (e planejava) que ia rolar polêmica. Nada de errado com isso, se ficamos mais de um ano sem uma polêmica na área, uma sacudida, uma crise, uma desestabilizada, as coisas ficam sem graça. Li o texto de Flora no mesmo dia e pensei com meus botões: “hmm, ela tem razão”. Na verdade pensei algo como “she’s got a point” – meio intraduzível para o português. Ela tem alguma razão, em alguns pontos. Mas enfim, o texto não repercutiu muito em mim, não pensei muito nele, e daí… uns dias depois…

Li o texto do Flávio Moura sobre o artigo. Ele “comenta” o artigo da Flora, no sentido de quase “narrar” o artigo. Apresenta alguns problemas de falta de desenvolvimento no texto original e tenta encontrar onde estava o “cutucão” de Flora. Eu li o texto do sr. Moura e pensei com meus botões, hmm, ele tem razão, alguma razão, “got a point”. Mas também esqueci do texto.

Daí faz pouco saiu a resposta do Sérgio Rodrigues, do TodoProsa, ao artigo. Um tanto mais crítico do texto de Flora, Rodrigues aproveita e faz alguns ataques ao mundo acadêmico. E eu li o texto dele e pensei, hmm, ele tem razão, alguma razão.

E daí eu vi no twitter que um pessoal da Letras/USP montou um guia para se coordenar na polêmica. Muito útil, pois foi o guia que me levou aos textos originalmente citados por Flora na sua crítica. Li o texto de Alcir Pécora e pensei: “hmm, ele tem razão, alguma razão.” E li o texto de Miguel Sanches Neto, este mais focado na figura de Wilson Martins e sem tantos comentários generalizadores sobre o estado da crítica atual, e pensei “hmm, ele tem razão, alguma razão.”

No final disso tudo, notei que dei alguma razão a todos os lados do debate. Isso, porém, deveria ser impossível. Eles não estavam discordando? Disparando alfinetadas? Ou será que há muita coisa enterrada no subtexto¹, e eu, ingênuo, afastado dessa discussão crítica, não era capaz de captar? Aposto muito nisso.

E aposto também em outra coisa. Que minha experiência não é capaz de generalizar nada sobre “o estado da crítica”. Não apenas porque sou um “resenhista ocasional, de fim-de-semana”. Nah! Nem me considero crítico. E sim porque minha experiência “empírica” (ughs) é totalmente diferente.

Veja bem: a questão da “crítica acadêmica”, é, para mim, o cerne de toda a discussão. Então eu penso na UFRGS, onde faço mestrado em Literatura Comparada, e lembro que lá poucos professores (e menos alunos) lêem literatura contemporânea mundial. Coetzee, Bolaño, Pynchon são nomes ausentes do debate (apenas para citar alguns favoritos meus). Literatura brasileira contemporânea, então? Pff! Nem se fala. Parece que não há nem desejo de acompanhar a coitada. Culpa de bairrismo dos gaúchos? Sei lá. Só sei que quando vejo pessoas discutindo o estado da crítica nos círculos acadêmicos, me pergunto: “Que crítica? Existe esse tipo de coisa, além de alguns poucos esforços aqui e acolá?”.

É óbvio que nunca entenderei essa polêmica toda. Parece que estão discutindo algo totalmente abstrato, longe da minha realidade. De qualquer forma, eis meus dois centavos.

Talvez a crítica literária enquanto “grandes nomes falando no jornal” tenha perdido força e papel. Eu, por exemplo, me oriento apenas pela internet. Descobri quem são as pessoas em quem confio no mundo de blogs e acompanho as suas discussões. Alguns têm formação acadêmica, outros não. Alguns são escritores, não “críticos puros” como o Wilson Martins. E eu escolho. Escolho quem ler. Os cadernos de cultura podem encolher cada vez mais o espaço dedicados aos livros. Tudo bem, “a literatura sempre foi uma arte minoritária” (César Aira). Os escritores continuarão escrevendo e os leitores (espero) continuarão lendo. A discussão segue viva, pulverizada na internet.

Esperar uma organização por parte da mídia impressa ou da academia nos dias de hoje parece complicado. É melhor construir as próprias referências. Aceitar “o nicho”.

Ou não.

No final das contas, que diabos eu sei? Eu achava que todo mundo tinha razão.

***

¹ Atualização: minha amiga Vivi Nickel mostrou que muito da briga estava na disputa de espaço acadêmico, uma luta entre “estudos literários puros” (dupla-aspa no puros) vs. “estudos culturais”; eu, que li todos os artigos focando outras questões que não essa (o papel da crítica; academia vs. jornalismo), acabei perdendo. Culpa daquele “um parágrafo” no meio de um texto que de certa forma compõe toda um posicionamento, uma briga. E sobre ela eu comento melhor outra hora.


Resenha de “Doutor Pasavento” publicada no Jornal do Brasil (Rio de Janeiro). Cópia online aqui. (ponho todas resenhas & etc. no meu blog por questões de arquivamento). Já escrevi outras cousas acerca de Vila-Matas no blog, basta clicar na tag acima ou ao lado.

DE LEITOR PARA LEITOR

Doutor Pasavento, romance de Enrique Vila-Matas lançado agora no Brasil, representa uma das obras mais complexas e herméticas do autor – e uma das mais recompensadoras também.

“Sou um leitor que escreve.” É assim que se define o catalão Enrique Vila-Matas em entrevista a Juan Villoro no documentário Café com shandy. De fato, com exceção de A viagem vertical, todos os outros romances de Vila-Matas disponíveis no Brasil comprovam que ele é um leitor tão compulsivo que suas leituras vazam para dentro do tecido narrativo. Em Bartleby & companhia, constrói um catálogo de escritores (a maioria real, alguns fictícios) que, por um motivo ou outro, abandonaram a literatura. Em O mal de Montano, a escrita surge para curar a pulsão negativa retratada em Bartleby. O autor parte para o exato oposto: personagens doentes de excesso de literatura.

Doutor Pasavento, originalmente de 2004, lançado agora no país pela CosacNaify, surge como continuidade natural das preocupações do autor. Inclusive, em texto coletado no livro Vila-Matas Portátil (que reúne artigos críticos acerca do catalão), o escritor afirma enxergar Pasavento como fim de uma “trilogia da metaficção”, composta por Bartleby & companhiaO mal de Montano. A metaficção seria uma espécie de prosa voltada a si mesma, que versa sobre o próprio ato de escrever e que coloca preocupações literárias no centro do palco.

Logo nas primeiras linhas de Pasavento já se pode vislumbrar a alta carga referencial da prosa de Vila-Matas, que, transformado em personagem, serve de narrador e protagonista. “De onde vem a sua paixão por desaparecer?” é a pergunta feita por ninguém menos que o fantasma de Montaigne (“inventor” do gênero ensaístico) ao alter ego do autor. A partir dessa premissa, da obsessão latente pelo desejo de desaparecer, tem início o romance. Convidado para dar uma palestra em Sevilha sobre as fronteiras entre realidade e ficção, assunto sobre o qual não tem interesse em discutir, o narrador aproveita-se de um sósia que encontra num trem para escapar do evento e, partindo dessa coincidência, assume a personalidade de um fictício psiquiatra, o doutor Pasavento do título. É curioso observar que o assunto adiado (as fronteiras da realidade e da ficção) acabou por ser o tema central do livro seguinte de Vila-Matas, Exploradores del abismo.

As estratégias adotadas pelo narrador para buscar o sumiço iniciam por essa adoção de uma personalidade fictícia e pela obsessão por Robert Walser, escritor que conseguiu a desaparição tanto na vida real como, de certo modo, na própria ficção. Na ficção? A escrita como um modo de sumir? Os pensamentos do narrador parecem conduzir à célebre frase de Georges Bataille: “Escrevo para apagar meu nome”. Na segunda e na terceira partes, as mais longas do livro, Vila-Matas abusa da mescla entre ensaio e romance, locomovendo-se por referências e citações para compor uma bela reflexão acerca da natureza da literatura. O autor catalão demonstra um incrível talento para desenhar relações inusitadas: através de Walser, passeia por Kafka e Sebald; a partir de uma rua em Paris, liga pessoas tão díspares como André Gide e Karl Marx.

O romance, estruturado praticamente como uma guia do apagamento (impossível não lembrar a famosa música do Radiohead, How to disappear completely), chega ao ápice na quarta parte, na qual o narrador furta a identidade de um escritor que existe, o recluso Thomas Pynchon, cujo rosto é desconhecido por todos. O tema da impostura não é novidade para Vila-Matas, que, com frequência, falsifica a própria biografia, mas em Pasavento alcança novas e instigantes reflexões. Imitador fracassado, o Pynchon de Vila-Matas acaba se tornando um Pinchon com “i”, preso entre o original e a cópia, entre o real e o falso, entre a verdade e a ficção e, portanto, questiona todo esse sistema binário de posições. Um leitor interessado em teoria e filosofia pode associar essa reflexão com a noção de différance, do filósofo desconstrutivista Jacques Derrida.

Dito tudo isso, cabe a pergunta: quem é o leitor de Vila-Matas? Existe um público interessado em uma ficção tão autorreflexiva, erudita, lotada de referências como a dele? Quantos leitores captarão as referências a O arco-íris da gravidade na última parte de Pasavento? Esse tipo de prosa, cuja preocupação central é a própria escrita, não seria de certo modo o fim da literatura? Maurice Blanchot, citado pelo próprio Vila-Matas, profetiza: “Para onde vai a literatura? Rumo a si mesma, que é seu desaparecimento”. Muitos detratores do catalão criticam justamente isso: faltam personagens humanos, dramas terrenos. Falar apenas de literatura não passaria de um exercício de umbiguismo?

Em defesa do autor surge a voz do argentino Alan Pauls, autor do brilhante O passado. Pauls defende que a principal razão para invejar Vila-Matas é que ele resolveu o conflito entre a “literatura de mundo” e a “literatura que fala de si”, pois através das reflexões acerca da própria literatura Vila-Matas alcança o humano, o metafísico e, por que não, o mundo.

Doutor Pasavento, neste contexto, surge como expressão máxima do estilo elaborado pelo autor. Quem já era entusiasta da sua prosa, provavelmente considerará este romance um dos melhores da sua carreira. Aqueles que repudiam esse tipo de ficção, encontrarão mais argumentos para criticá-lo. Sai ganhando o leitor disposto a se perder nas redes de infinitas relações literárias que Vila-Matas constrói, o leitor “enfermo de excesso de literatura” (a doença dos personagens de O mal de Montano), o leitor que não tem medo de, como o narrador de Doutor Pasavento, desaparecer no meio da ficção.


a-fraction-of-the-wholeTerminei semana passada o tijolão A fraction of the whole, do Steve Toltz, e não consigo entender direito porque não gostei do livro.

1. O livro foi “descoberto” pela Bensimon em Paris. Steve Toltz é um autor australiano que ainda não estourou muito por esses lados aqui. Daniel “Mojids” Felizzardi amou o livro e defendeu o romance como eu só tinha visto ele fazer com The last samurai da Helen DeWitt. Tiago “Ductilissimo” A., fez defesa similar. Então eu tive que conferir, não?

2.1 A primeira coisa que me incomodou no livro, é que nas 520 páginas dele não param de acontecer coisas. Sério, parece romance picaresco. A cada página um episódio diferente. A cada 50, uma reviravolta. Uma morte a cada 100.

2.2 Mas dá para reclamar de uma coisa dessas? Essa minha incomodação é válida? Será que eu gosto é de livro parado, livro chato, livro não-narrativo? Que espécie de argumento é esse?

3.1 Outra coisa que me incomodou é o humor, o livro é constantemente “engraçadinho”/”espertinho”. Na verdade as palavras mais adequadas para definir A fraction of the whole seriam “witty” e “clever”, e acredite, são palavras sem equivalente no português. A cada parágrafo tem uma observação espertinha acerca da vida, o universo e tudo mais.

3.2 De novo: dá para reclamar de uma coisa dessas? Não dá! Por que me irritou? Não sei! Me irritou como me irritou acontecer coisas demais! Será que isso quer dizer que gosto de um livro chato, sem humor?

4.1 e .2 O livro é todo bem construidinho: bons personagens, boas descrições. Parece resultado nota A de um curso de creative writing. Segue bem a tradição anglófona de literatura. Está, na minha opinião, bem na linha de autores norte-americanos como Safran Foer & cia. E isso também me incomodou! Deus do céu, estou chato.

5.1 Por fim, é um livro que não constrói algo no final. É composto de pequenas frações do todo, mas no final da leitura, senti ter saído dela incólume.

5.2 Mas não seria esse o propósito do livro? Olha o título, “uma fração do todo!”, o livro não pretende construir um grande significado final. E existe algo mais ridículo no século XXI do que esperar um todo? Não deveria ficar feliz com os fragmentos, com a impossibilidade do todo? Sim, eu deveria, todo meu conhecimento me orienta para isso. E, no entanto, não fiquei feliz.

Um resumo: Eu não gostei do livro, embora não tenha conseguido largar ele. Pior, não consegui encontrar um só argumento válido para explicar porque eu não gostei do livro. Se eu fosse pago para resenhar a obra, provavelmente faria uma resenha positiva, pois não dá para eu me render a um impressionismo tão obscuro, dá? Não, não dá. E ainda assim, não consigo ficar em paz.

Um resumo sobre o resumo: O que eu quis dizer com esse post? Acho saudável explicitar, já que muita gente me entende errado nessas bandas. ORAS, SIMPLES, só que eu não entendo meus procedimentos de leitura, ou então que meu processo de fruição é diferente dos meus procedimentos críticos, frios. E que conclusão podemos tirar disso? Não sei! Isso não é desesperador?


Sempre li muito a nova produção brasileira contemporânea, mas desde que sou considerado um escritor tenho lido mais por um simples motivo: Muitos novos autores me abordam e me enviam uma cópia de seu livro de estreia (que eu geralmente retribuo enviando uma cópia do meu). Eternamente grato a eles, eu fico. Um livro que não é lido é um livro morto, e um que não é discutido é um morto-vivo, e me incomoda que tenha tanta gente lançando e tão pouca gente discutindo. A “falta de massa crítica” que o Barbão apontou. Então decidi a partir de agora aproveitar o espaço do blog e comentar algumas dessas leituras que tenho feito. São comentários sinceros e impressionistas: nada de trabalho crítico para a faculdade ou resenha séria para o jornal. Talvez eu sofra um pouco, sim, daquilo que chamei de condescendência nacional.

capamenino 1) O menino da rosa – Tony Monti (Hedra, 2007)

Esse livro aqui chegou acompanhado de outro, eXato acidente, que ainda não li. Escolhi, dentre os dois, ler O menino da rosa por uma questão de frescura: me desagradou a diagramação do eXato acidente, achei cansativo de ler.

Não sabia o que esperar do livro, não conhecia o trabalho do Tony nem tinha escutado comentários. O menino da rosa é um livro agradável, muito agradável, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Retrato de uma infância inventada (adoro), o livro está algum lugar entre o livro de contos e a novela, e esbanja melancolia infanto-juvenil. Tem seus momentos bonitos, e a leitura é fluída. Porém, falta empolgação, falta TRANSTORNO, para o meu gosto. Não era a proposta do Monti, acredito, e na sua proposta ele sai muito bem: reminiscências ficcionais triste-alegres.

9788560160259 2) Mais ao sul – Paloma Vidal (Língua Geral, 2008)

Aqui o caso foi diferente: eu abordei a autora. Gostei da participação dela na revista online Cuadernos Cecilia, e o meu amigo Rodrigo Maceira, cujo gosto literário é bem parecido com o meu, recomendou muito o trabalho da Paloma. A edição da Língua Geral é muito bonita e funde o caráter artesanal das pequenas editoras com um ar de profissionalismo das grandes. A autora, tecnicamente argentina (embora moradora de São Paulo e escrevinhadora em português), vem paraninfada por graúdos: Noll, Ruffato e a Beatriz Resende. As expectativas, portanto, eram altas.

É um livro irregular (como quase todo livro de contos?), porém quando acerta, acerta. Desde que li o livro (faz mais de mês), vez ou outra, caminhando na rua, me lembro de alguma cena dos contos. O talento da Vidal é muito de atmosfera. Meu conto favorito do livro, Jesus de El Paso, lembrou os contos do Bolaño no Putas Asesinas. Gosto do uso criativo que ela faz da língua espanhola dentro do português, ainda mais porque essa dupla identidade – entre a argentina e a brasileira – é o tema chave do livro. A obra de Vidal abre com um conto mais longo que os outros, de 40 páginas (alguém pode chamar isso de novela), e, na minha opinião, a autora trabalha melhor com uma narrativa mais longa. Acho que ela se daria melhor em um romance do que em um livro de contos. Seja como for, Mais ao sul é uma estréia bem interessante.

capaacaricia3) Acaricia meu sonho – Marcelo Barbão (Amauta Editorial, 2007)

Barbão conheci da mesma forma como conheço muita gente: com ele me corrigindo no twitter porque eu disse algo incorreto. Barbão trabalhou na Amauta Editorial, responsável por traduzir algumas das melhores cabeças latinas para o português.

O livro me desagradou no início, por uma série de frases desajeitadas nos primeiros capítulos. Peguei vício de editor, de querer sublinhas e apontar essas coisinhas. Acho que com um trabalho de editoração mais pesado o livro teria um início muito melhor. Também me incomodou um sentimentalismo exagerado, embora tenha relação com a proposta (o título do livro, assim como os títulos dos capítulos, todos, fazem referência a clássicos do tango). O livro, porém, não é o início: a prosa vai progressivamente envolvendo o leitor, até seu desfecho quase metafísico que obriga repensar tudo que foi lido anteriormente. É essa sacada o maior triunfo do livro, a chave de leitura que altera tudo. Sem ela, seria um livro agradável, com ela, se torna um livro bem interessante. Tenho curiosidade para ver o futuro do Barbão como escritor. O da Paloma Vidal também, e o do Tony Monti também. São, afinal de contas, iniciantes.


Ano passado eu criei um blog dedicado exclusivamente à entrevistas. Não deu certo e eu desisti depois da terceira. Aproveito o fato de que agora tenho um blog bem sucedido (hshs) e coloco de novo no ar a entrevista que fiz com o Carlos André Moreira, crítico literário da Zero Hora, e, desde 2009, ficcionista, autor de Tudo o que fizemos (Leitura XXI, 2009). Mantenho meu parágrafo introdutório que escrevi para a ocasião. A entrevista foi originalmente postada no dia 2 de agosto de 2008. Sem mais:

Em um domingo de grenal, um pequeno grupo de aficionados se reuniu no Ocidente para assistir ao debate “Mas o que é a nova literatura?”. Deste debate participaram editores (como o Samir, meu sócio na Não), escritores (Léo Felipe) e… um crítico. Carlos André Moreira, possivelmente o único sujeito que escreve críticas em jornal de grande circulação aqui no RS. Duas coisas me surpreenderam quanto ao Carlos André Moreira: a primeira foi como o sujeito era desenvolto nas suas respostas e comentários. É tranquilizante saber que a crítica literária mais lida no RS está a cargo de alguém inteligente. A segunda foi: a vontade das pessoas de saber o que um crítico pensava! A platéia e até mesmo a garçonete do Ocidente disparavam perguntas sem parar para o Carlos André. Foi aí que notei como as pessoas estavam cheias de dúvidas sobre o trabalho do crítico. Por esses dois motivos, Carlos André Moreira estava na minha lista de prioridades quando abri esse blog.
Espero que gostem da entrevista.

Antônio Xerxenesky: Uma imagem clássica do crítico, que retorna a cada polêmica que surge, é do crítico rancoroso, repleto de desavenças pessoais. Um caso recente é o de Jerônimo Teixeira, crítico da Revista Veja, que quando criticou autores contemporâneos em um artigo particularmente cruel (onde chegou a montar um esquema de “como ser um escritor transgressor”) foi acusado por muitos de fazê-lo por recalque, porque suas obras literárias não chamavam atenção da mídia como as daqueles que criticava. O que você acha dessa imagem? E, em uma pergunta mais aberta e lógica: é possível deixar rancores pessoais de lado na hora de escrever uma crítica?

Carlos André Moreira: Começando com o caso do Jerônimo em particular, eu não tenho como tecer comentários sobre os motivos dele ou os de qualquer crítico que não eu mesmo para escrever o que escreve sobre qualquer livro ou autor. No artigo em questão, me lembro de que havia no texto alguns argumentos pertinentes sobre a produção de alguns daqueles autores que foram abafados pelo barulho resultante da provocação aos escritores novos em bloco. Se por um lado isso provocou uma discussão que sempre é notável, acredito, quando a literatura já não ocupa mais o espaço de outros tempos no debate aberto na mídia, por outro desviou para os pontos folclóricos as considerações que o crítico havia apresentado. Digamos que o Jerônimo pegou um mote que foi dado pela própria existência de uma coletânea reunindo alguns daqueles nomes com o adjetivo “transgressores” no título. E os autores replicaram com o fato de que até aquele momento em particular Jerônimo havia feito ele próprio suas tentativas na ficção sem repercussão digna de nota, ou seja, a discussão se assemelhou perigosamente a uma picuinha de parte a parte. E no fim, o que menos se debateu depois que se chegou a esse ponto foram os próprios livros, o que foi uma pena. Hoje o próprio cenário dessa polêmica mudou, dado que cada vez mais os “novos transgressores” são os nomes estabelecidos e o Jerônimo relançou seus livros pela Record.

Quanto aos rancores pessoais e à capacidade de o crítico deixá-los de lado quando em presença de uma obra a ser analisada, acho que há dois ângulos a serem abordados: o primeiro é que sim, é possível, mas acredito que isso vá muito da formação de cada um e de como ele exerce sua atividade crítica. Acho que a melhor maneira de lidar com essa questão é o crítico interrogar-se abertamente o tempo todo: “estou gostando deste livro?”, “não estou?”, “se não estou, é por ser do autor fulano de tal ou porque há deficiências na sua construção, na sua estrutura, no uso da linguagem?” Acho que é isso que qualquer crítico faz em qualquer situação, aliás. O crítico também é um leitor, e também busca na sua leitura o prazer estético, a obra cuja leitura será arrebatadora, o que muitos às vezes esquecem. Falando do meu caso particular, já me aconteceu de ser surpreendido pela leitura interessada e, em alguns pontos, entusiasmada, de um autor por quem nutro poucas simpatias pessoais, e o contrário também ocorre: esperar que um livro de determinado autor seja ótimo por ser daquele autor e se decepcionar. Esse jogo de cintura é fundamental. Agora, se o caso for o de uma antipatia biliar que não seja contornável nem permita juízo racional ou qualquer conexão emocional com a obra, bom, aí é o caso de o crítico ser honesto o bastante para se declarar impedido. Ainda não aconteceu comigo, tive a sorte até o momento de não ter em mãos para analisar livros de ninguém que eu particularmente deteste.

AX: Você é um dos únicos críticos literários do único veículo midiático de grande circulação no RS que ainda publica opinião sobre obras literárias. Além do mais, o espaço para livros é curto, permitindo apenas resenhas breves, nunca críticas mais aprofundadas. Você acha que a situação pode um dia vir a melhorar ou o espaço dedicado à crítica literária apenas diminuirá? É possível pensar na internet (blogs) ou publicações alternativas (zines) como saída?

CAM: Começando pelo fim: acho a internet realmente é um espaço que ainda nos dará muitas boas surpresas na área da literatura, pode funcionar de forma independente, pode lidar melhor com as restrições de espaço e seu custo de produção é barato. Há mais de um caso de portais hoje relevantes em várias áreas que começaram há uns anos como um blog de dois ou três sujeitos e um computador ligado à internet. Na área de cultura e entretenimento, há iniciativas relevantes, por exemplo, como o Omelete, o Neorama e o Digestivo Cultural. O problema é que muitos desses sites, independentemente do conteúdo se de qualidade, não conseguem se tornar iniciativas rentáveis, como o fim do No Mínimo veio provar.

Dito isso, e sabendo que mesmo os grandes veículos acordaram para o potencial da internet e começaram a investir em conteúdo online, creio que virá dessa articulação a subversão da exiguidade dos espaços num futuro imediato. Não é apenas o espaço de crítica literária, é o espaço de texto como um todo, e em todos os grandes jornais, que está sendo progressivamente diminuído, e não vejo reversão dessa tendência por enquanto, ainda mais porque os jornais no mundo inteiro estão verificando uma queda de circulação. Mas como as linhas de gerenciamento desse tipo de coisa se dão em ondas, talvez mais adiante se descubra que o jornal precisa ocupar o espaço do texto consistente que a internet e a TV ainda não ocuparam, e os textos aumentem de novo. Infelizmente, não sei dizer. Acho que se tivesse talento para administrar qualquer coisa teria feito outra faculdade.

AX: A Zero Hora passou a utilizar um sistema de notas de 1 a 5 estrelas para avaliar todos produtos culturais. Dar uma nota a um livro não seria uma tarefa mais difícil que avaliar um filme, já que a história da literatura é maior que a do cinema? É necessário relativizar completamente? Exemplo: considerar o livro avaliado tendo por base se é um livro de Porto Alegre contemporâneo e julgá-lo com base nessa cena, ou um relativismo parcial, conferindo cinco estrelas apenas a um livro que você consideraria um novo clássico da literatura contemporânea. Ou ainda, uma ausência total de relativismo, pensando em uma hierarquia “absoluta” em que os únicos livros 5 estrelas seriam clássicos como Dom Quixote? Como você se posiciona nessa questão?

CAM: Bom, houve uma grande discussão interna quanto a esse sistema de estrelas, e cada área ficou mais ou menos livre para estabelecer seus critérios, valendo-se do bom senso e da fundamentação pessoal do crítico que analisa a matéria a ser comentada. Na área da literatura meu critério tem sido: cinco estrelas, obras de excelência, talvez futuros clássicos, não sei, e é uma categoria que tenho usado com parcimônia. Quatro estrelas: o que é muito bom. A faixa de três estrelas é a do produto médio, que não se eleva mas é bem executado; a de duas é a do que não chegou lá em termos técnicos ou narrativos, apresenta graves defeitos mas não é uma perda total. A de uma estrela é para o que é ruim mesmo – e por enquanto também tenho usado muito pouco.

E o relativismo, embora exista, não é total. Não posso cobrar do autor estreante o mesmo que se espera de um Philip Roth, de um Cormac McCarthy, por exemplo, é o único relativismo que aplico. Fora isso, não vejo por que precisaria relativizar a exigência para a cena local, dado que não critico com veemência a edição de um livro, por exemplo. Diferentemente de um disco ou de um filme, as condições de produção da obra em si dependem unicamente do autor. A apresentação da obra, sua tiragem, mesmo a divulgação dependem de diversos fatores econômicos outros. Mas a qualidade da obra como narrativa não.

AX: Um comentário que escuto com freqüência nos círculos literários é o seguinte: cada vez se escreve mais no Brasil (entre outros motivos, pela proliferação de oficinas), cada vez se publica mais, mas o público leitor interessado em literatura não parece aumentar, ainda que o acesso a livros tenha crescido. Qual a sua posição nessa questão?

CAM: Sim, creio, sem nenhuma base estatística para tanto, que o público consumidor de livros ainda é basicamente o mesmo, em números proporcionais, se não estiver diminuindo. No seu recente livro de crônicas, “O romance morreu”, Rubem Fonseca defende a mesma coisa: o romance não vai morrer, talvez o que morram sejam os leitores. Dito isso, haveria algumas considerações. Uma delas é que no Brasil, como em outros setores da sociedade brasileira, também entre o público leitor (ou o público que vai a cinema, ou o público que ouve música) a regra é uma disparidade incontornável, um abismo entre duas camadas específicas da população, o zero vírgula oito e o oitenta, quem é consumidor regular de livros por hábito e quem passa anos sem abrir nenhum. A maioria, provavelmente. Parece haver uma carência do que se chamaria o “público médio”, aquele leitor mediano que não tem uma base sólida de erudição ou não formou suas leituras sistematicamente, mas consome livros mesmo assim, mesmo que a chamada literatura de entretenimento. Uma coisa que parece clara é que o público leitor e o público interessado em literatura não são exatamente a mesma coisa. O primeiro inclui leitores de gênero, quem só lê um romance policial de vez em quando, leitores de Paulo Coelho, Dan Brown, livros para “divertir”, para o leitor “esquecer do mundo”, Júliabiancasabrina. Já o público interessado em literatura no sentido estrito é bem menor, e talvez sempre tenha sido, dado que a escolaridade para todos é uma noção teórica que só vai ganhar corpo como política de estado no século 20, e só o romance realista, por exemplo, é bem mais antigo do que isso. Logo, o número de leitores hoje provavelmente representa mais do que naquela época.

O próprio George Steiner identifica entre meados do século 19 e o início do 20 o período que ele chama de a “grande trégua” entre público leitor e crítica, o período em que os livros à disposição recebiam atenção pública, leitores, e ainda eram escritos por gente como Zola, Dostoiévski, Poe ou Thackeray. No século 20, ocorre o divórcio vanguardista, que busca meios de expressão condizentes com a fragmentação da experiência na modernidade e o grande público mergulha nos autores mais tradicionais. Hoje o próprio sentido de “vanguarda” artística parece não ter mais lugar, mas o divórcio entre grande público e artistas prossegue, não há como se livrar dele de uma hora para outra. Até porque a própria literatura hoje compete com outras modalidades de arte, mídia e entretenimento. Acredito que fosse muito mais fácil fisgar um leitor quando as únicas alternativas de distração disponíveis eram leitura, teatro à luz de velas ou saraus com piano e poesia na casa de alguém (brrr…)

AX: Você acha que a crítica sobre obras contemporâneas tem como função (uma das funções, pelo menos) dialogar com o autor? Ou ela deve buscar mais a produção de sentido em cima da obra e (no caso da crítica para o jornal) servir como “guia de consumo” para o leitor, indicando no que vale mais a pena investir?

CAM
: Acho que se for possível ter todas essas coisas, melhor. Mas tenho a tendência de ver o “diálogo” entre autor e crítica com algum ceticismo. Se um autor tiver uma inquietação real presidindo o plano de sua obra, mesmo com alguns momentos de indecisão ou insegurança ele há de perseverar com ou sem a crítica, e o diálogo que a crítica pode produzir nesse sentido é apontar um que outro problema de ordem técnica _ ainda assim dentro de um determinado contexto. Esses problemas não chegam a configurar um real diálogo porque a crítica é feita sobre uma obra que já está concluída, foi publicada, ganhou o mundo, daqui para diante serão apenas as leituras. Nesse sentido, apontar os tais problemas técnicos seria uma atitude visando à produção futura desse autor, o que assume um, para mim, caráter admonitório não de todo agradável. Essa troca pode realmente ser feita, mas não creio que a crítica deva se arvorar uma missão divina nesse sentido. Creio que a crítica tem de, sim, produzir uma leitura outra de uma obra que não a que o próprio autor já fez _ muitas vezes a leitura de outros vai apontar sentidos que o próprio escritor não captou conscientemente. Outras vezes, a leitura de um terceiro é uma completa bobagem do ponto de vista do autor, mas pelo menos serve para que ele perceba que tipo de leitor não será o seu, digamos assim, e que tipo de elemento ele falhou em expressar na passagem da intenção para a execução. Como eu trabalho em um jornal de grande circulação, por vezes têm-se de lidar também com a questão “guia de consumo”, mas isso é inevitável e condiciona menos do que o aspecto notícia, por vezes, esse sim determinante para que se publique resenhas de Harry Potter ou Paulo Coelho, por exemplo. Como a Zero Hora é um jornal gaúcho, também temos a orientação editorial de lançar um olhar sobre a produção daqui, e acho que isso tem sido feito. Mas o ponto “guia de leitura” eu vejo da seguinte forma: eu leio o livro, eu escrevo um texto que em parte organiza os elementos de enredo para o leitor e em parte é uma leitura minha, o que o livro me suscitou. Dou o preço e a editora, e se o cara quiser comprar, daí é com ele. Lá de vez em quando fazemos uma daquelas matérias recomendando “leituras de estação”, que seja, mas a minha idéia é antes refletir sobre a obra e informar que ela está sendo produzida do que indicar “compre este ou aquele”. O que faço, às vezes, é chamar a atenção quando uma obra que vinha hà tempos esgotada ganha reedição. E quando há mais de uma edição da mesma obra, listá-las, e o leitor decida para onde vai seu rico dinheirinho.

AX: O fato de que há um volume monstruoso de livros sendo lançados por semana dificulta o trabalho do crítico, mesmo que ele escolha apenas um livro para resenhar por semana? Bate a sensação, alguma vez, de que alguma obra não recebeu o tempo de leitura que necessitava?

CAM: O tempo de leitura até que não, talvez o tempo de maturação, aquele respiro no qual as impressões criadas por uma obra começariam a decantar em ti os sentidos e leituras. Mas isso, infelizmente, é meio que inevitável na produção de um jornal diário da imprensa de grande circulação. Portanto, da imprensa que fala para uma faixa ampla de público. Alguns podem argumentar que em literatura o ideal seria uma publicação quinzenal ou mensal, digamos, com um corpo amplo de resenhistas, um pouco como já é o Rascunho, por exemplo, ou como foi a infelizmente encerrada Entrelivros, mas o fato é que a Zero Hora é um veículo de imprensa que precisa lidar com as imposições clássicas do jornalismo diário: a exigüidade do tempo e a necessidade de ser compreendida pelo maior número de pessoas, e o jeito é trabalhar com isso da melhor maneira, o que no meu caso significa ler com atenção e critério e escrever com honestidade. Outra coisa pode acontecer, e comigo já aconteceu: a angústia do crítico perceber que, por uma desinformação pontual ou mesmo por uma idéia que mais tarde se revelou enganosa ou equivocada, ele deixou de lado um livro que merecia uma leitura mais atenta justamente por essa necessidade de selecionar o que é lido. Mas acho que é inerente a um momento em que se publica tanta coisa. Escolhas são necessárias, mesmo que nem sempre as certas. Mas isso, creio, é algo que mesmo um autor enfrenta em seu próprio trabalho: escolher se narra em primeira ou terceira, se em estrutura linear ou fragmentária, como articular a linguagem e o conteúdo. São escolhas constantes, e o autor precisa confiar nelas. No meu caso, confio nas minhas porque me mantenho informado o máximo possível e já li o suficiente nesta vida para reconhecer uma obra boa, por exemplo.

AX: T.S. Eliot, em um texto de 1943 que foi central para o New Criticism, procurou repensar o recorrente tema da “função social da poesia”. Hoje em dia, ainda é possível pensar em uma função social da poesia, ou, de modo mais abrangente, da literatura? O mero ato de escrever literatura pode ser considerado um ato político de alguma relevância?

CAM: Pela última pergunta: sim, acredito que sim. Quem escreve literatura escreve porque acha que o que tem a dizer é relevante em algum cenário ou circunstância, e isso, bem ou mal, é política. Agora, se a literatura deve ou não refletir o seu tempo é uma questão delicada. Acho que vivemos em um tempo em que o valor estético progressivamente começa a tomar o lugar do valor ético. Ou melhor dizendo: vivemos em um tempo de uma ética pautada pela estética, e quando um autor se dedica a sua obra ele tem um compromisso estético com seu trabalho, qualquer compromisso político assumido por um escritor em suas obras terá de passar, no fim, pela questão estética: um livro tangencia questões da realidade ou não, não importa, mas é o livro que o autor quis escrever, em primeiro lugar, ou o livro conseguiu escrever baseado no que queria. A função da literatura é a função da arte como um todo: o valor do inútil, de algo que nos eleva além da existência pragmática e cada vez mais automatizada de todos os dias.


Escreve Michel Laub nesse post aqui (embora eu sugira também a leitura desse aqui):

“Ao contrário do que diz o senso comum, tudo o que o escritor quer é gostar dos livros dos seus colegas. Esse é um dos motivos por que sua leitura nunca terá a mesma isenção da que faz o crítico descompromissado ou o público: frase a frase, parágrafo a parágrafo ele torce para que o texto lhe diga alguma coisa, para que ele não precise experimentar a sensação auto-corrosiva de vergonha ao elogiar o autor seu amigo no bar.”

É um post que eu já tinha lido faz tempo, mas que veio a se somar com algumas coisas que eu vinha pensando, graças a uma discussão em uma comunidade de orkut e a um livro que li recentemente de um escritor graúdo aqui do país.

Laub acertou em cheio (na verdade acertou em todas as suas outras “verdades”). Escritores estrangeiros eu sempre começo lendo com ceticismo, sou particularmente cruel com suas falhas, espero que eles me conquistem. Agora um livro de um brasileiro já começo querendo gostar, até porque o mundo das letras brasileiras é tão pequeno que as chances de um dia eu me encontrar em um bar com o autor em questão é bem grande. E, de fato, perdoamos muito mais os erros em um autor brasileiro. Não apenas nós, escritores, os críticos também. Já vi os principais críticos do país passando a mão na cabeça de livros péssimos que todos, inclusive os escritores, assim que tinham a chance, detonavam.

Lembro que em uma entrevista o Bernardo Carvalho¹ disse que, na época que escrevia resenhas, só escrevia sobre os livros que gostava. Dos que não gostava era melhor ficar quieto, atacar ia dar muita dor de cabeça. O problema é que os escritores novos ficavam buzinando na orelha do B.C., “pô, por que tu não escreveu nada sobre meu livro no jornal?”.

A política do Bernardo é a mesma que a minha, com a diferença que minhas opiniões não saem no jornal, no máximo em uma mesa de café ou, agora, nesse blog. Se eu gosto vou elogiar sim, sem dúvida. O que é bom deve ser compartilhado. O problema é que se algo desagradou, ih, melhor cuidar as palavras. Quando é amigo até vai: lembro que não gostei de um punhado de coisas no Cordilheira e troquei alguns e-mails quilométricos com o Galera discutindo ponto-a-ponto. Agora quando você não tem a menor relação, publicar algo negativo é o maior tiro no pé que pode existir. Para quem é escritor, você está fechando uma dúzia de portas com isso. Para quem é crítico profissional, está perdendo a chance de ganhar dinheiro com mais críticas (as portas se fecham também). O único realmente livre é o leitor. Mas no Brasil quem mais lê literatura contemporânea brasileira ou é escritor ou é crítico (pelo menos no RS), então não temos quase leitores livres.

Esse passar a mão na cabeça pode ser agradável quando você é o objeto do afago (e eu confirmo: é muito agradável sim), mas vendo a cena de fora é de se lamentar que o Brasil não tenha, como o mundo hispano-hablante uma “massa crítica”. Foi sobre isso que conversei, a última vez que estive em Buenos Aires, com o escritor e tradutor Barbão². Um livro publicado aqui é recebido muito diferentemente do que lá. Lançando na Argentina é certo que seu livro será discutido, analisado, que terá defensores e detratores, enfim: “massa crítica”, como ele disse. Lá um suplemento literário é vendido nas bancas aos sábados e esgota em poucas horas. Tem que correr para comprar.

Conversando com a Carol sobre isso (não sobre isso “isso”, sobre o tema geral desse post) por gTalk, ela apresentou um argumento interessante: lemos os autores estrangeiros com dureza porque os que chegaram até nós já possuíam algum nível de reconhecimento (senão nem teriam chegado até nós), por isso somos mais críticos com eles. Os brasileiros, por outro lado, chegam virgens até nós. Ninguém sabe ainda quem presta ou não, quem vai ficar ou quem vai sumir. Verdade, Carol, verdade.

Então, o que fazemos de tudo isso? Eu não faço idéia.

¹ Como sempre estou parafraseando sem consultar a fonte. Minha única base é a minha memória, e ela não é lá muito confiável.

² Barbão fundou a Editora Amauta quando morava aqui, que publicava gente do mundo hispano-hablante no Brasil. Acho que ele sabe do que fala, portanto.


“Tudo que eu sei sobre autoficção é que o termo foi cunhado de 1977 por Serge Doubrovsky e que eu supostamente escrevo auto-ficção”¹ disse uma vez Vila-Matas. Sobre a segunda parte da sua afirmação, é bastante unânimo entre a crítica² que (desde um certo conto no Suicídios Exemplares) o escritor tem enveredado pelo caminho do gênero, trabalhado com o que ele mesmo chamada de “recuerdos inventados” (mais ou menos: “lembranças inventadas”) transformando-se em protagonista de suas histórias e ficcionalizando sua vida.

Até aí tudo bem.

Adelante. Já vi, por exemplo, “O filho eterno” do Tezza, ser chamado de autoficção. A história, autobiográfica até a raiz dos cabelos, mas narrada em terceira pessoa, é, de fato, uma ficcionalização de uma autobiografia. Mas não seria toda autobiografia também ficcional? Até as mais fiéis aos supostos “fatos”, ao apresentar um recorte, não se tornariam ficção? Ou melhor, ao apresentar um ponto de vista do “fato” (que, por si só não existe – porém aí a discussão fica por demais abstrata e filosófica) o estatuto de “verdade” já não estaria comprometido? Bem. Então se toda autobiografia é ficção, não seriam todas autoficção? Não para a crítica. Você não espera encontrar Bill Clinton ao lado de Vila-Matas ou Paul Auster ou J.M. Coetzee em uma lista do tipo. O que separaria a autobiografia do gênero autoficcional? Seria a – pasme – intenção? A crítica não tinha assassinado o autor e enterrado a noção de “intenção” há muito tempo atrás? “My Life” do Bill Clinton se pretende verdade, se vende dessa forma. Já Vila-Matas, por outro lado, se vende como um grande enganador, um contrabandista de identidade falsas³. Estaria a intenção vivíssima na hora de definir o que é ou não autoficção?

A cousa se complica mais quando pegamos a crítica menos acadêmica, mais jornalística. Veja bem: eu demorei anos e mais anos para romper meu preconceito contra John Fante e ler seu “Pergunte ao Pó”. Aquele livro é um exemplo clássico de autoficção, tanto como, sei lá, “Juventude” do Coetzee. Mas Fante e todos seus influenciados são chamados de umbiguistas. Você já viu uma pessoa chamar o Coetzee de umbiguista? Ou o Bolaño? No pior dos casos são colocados em oposição aos “escritores de mundo” (gente preocupada em contar histórias de Outros4) o aos “escritores de imaginação” (eufemismo usado por pessoas que tem preconceito contra gêneros como a ficção-científica e a fantasia).

Bem. Eu não sei o que pensar de tudo isso. Seria “autoficção” apenas um termo besta inventado por um francês empolado5 e pervertido pela crítica para dar sinal de status a um o outro escritor? Ou ele (o termo) tem uma definição muito precisa que me escapa? Eu realmente não sei.

NOTAS:

¹ A frase é mais ou menos essa. Citações de cabeça, nunca dão certo.

2 Ver Vila-Matas Portatil: el escritor ante la crítica.

3 Vila-Matas chega um nível de absurdo de auto-consciência no seu último livro, Dietario Volube, um diário com toques ficcionais. O escritor catalão, que escolhe suas próprias capas, colocou uma foto sua na capa, de costas, e, na orelha, de óculos escuros. A foto de divulgação da época é ele, de óculos escuros, abrindo um sobretudo cheio de fotos diferentes dele. Daí que tirei a expressão “contrabandista de identidades falsas”.

4 “Mas o eu não é um outro?” é a pergunta que salta da leitura Doctor Pasavento. Algo me diz que Lacan já refletiu sobre isso, só que na boa, quem consegue ler Lacan?

5 O termo, pelo jeito, é extremamente pop na frança. O artigo na Wikipédia francesa é três vezes maior que na norte-americana, e usa como exemplo geralmente aqueles escritores franceses que ficam falando quase apenas de sua intensa vida sexual.