Eu nunca imaginaria que na Copa de Literatura surgiria um debate que vale a pena acompanhar nas caixas de comentário. Nada contra a Copa organizada pelo Murtinho, mas caixas de comentários são, no final das contas, caixas de comentários. Lembro daquela tirinha do XKCD onde lançam um vírus que lê em voz alta o comentário que a pessoa acaba de enviar no youtube, e só então a pessoa percebe como foi uma idiota.
O debate surgiu no 3º jogo, que tem o ótimo O Verão do Chibo como participante. Para quem não leu o romance a quatro mãos¹, fique sabendo que ele é narrado por uma criança. Ou seria um adulto rememorando? O fato é que o registro linguístico não é de uma criança, que a colocação pronominal e a escolha de vocabulário é impossível para uma criança. Isso suscitou um debate sobre uma possível “falta de verossimilhança” em Chibo.
Lá pela caixa de comentários, deixei o resumão da maneira como vejo as coisas: “Verossimilhança, no fim das contas, é coerência interna.” Essa frase, por sinal, eu roubei da minha mãe, que martela a máxima na minha cabeça desde que sou niño e assistíamos os filmes de 007 (“mas como que ele entrou dentro do avião em movimento??”).
De qualquer forma, decidi fazer uma investigação pessoal/impressionista dos meus problemas com verossimilhança e registro linguístico. Em Extremamente alto e incrivelmente perto, do Safran Foer, um livro narrado por uma criança-prodígio de 9 anos, raras vezes me incomodei com o seu modo de narrar. Já em The last samurai (não confundir com a tranqueira do Tom Cruise), da Helen DeWitt, fiquei irritadíssimo com a impossibilidade de uma criança escrever um diário daquele jeito. E, no Verão do Chibo, devo admitir que fiquei desconfortável vez em quando, mas, no geral, aceitei.
Há algo de sedução narrativa necessária para a verossimilhança. Não existe uma fórmula, uma estratégia pronta para narrar como uma criança² (cortar frases longas, unir orações com “e”). Existem livros que encantam o leitor e geram a tal “suspensão da descrença” e outros livros que não. Ou melhor: há leitores e leitores. Eu não me incomodei com o Safran Foer, mas muitos se incomodaram.
Qualquer narrador ou personagem “falante” que foge do padrão (e qual seria esse? “classe-média relativamente intelectual”, que é o perfil do leitor médio de literatura?) tem de lidar com a questão do registro linguístico para soar verossímil. Chibo não me incomodou nesse sentido, mas Galiléia, outro vencedor de jogo na Copa, me incomodou por colocar discursos articuladíssimos tanto no médico da cidade grande quanto no morador sem educação do sertão. Não por preconceito que “a classe baixa deve falar diferente”, ou alguma bizarrice assim. Não acho que seja necessário recorrer a coloquialismos extremos e perder uma boa parcela de leitores que não são da região por causa disso. Porém, lendo Galiléia, tudo que eu pensava é: “ninguém fala assim”. Eram frases que soavam artificiais ao meu ouvido. Ninguém conversa como se estivesse escrevendo um ensaio (e é isso que também me incomoda em certos livros do Don DeLillo, como Homem em queda). Levando a discussão para território gaúcho, tenho coceira nos cotovelos quando leio uma história que se passa na Porto Alegre nos dias de hoje e os personagens conjugam o “tu”. Sério, eu nunca, nunca, em minha vida, escutei uma pessoa na vida real falar “tu foste ao cinema?” ao invés de “tu foi”. E esse tipo de artificialismo no registro linguístico, para mim, fere a verossimilhança muito mais do que colocar uma pessoa escapando de uma explosão de bomba nuclear dentro de uma geladeira.
¹ Se um escritor dividir um livro com o fenomenal escritor mexicano maneta Mario Bellatin, o livro seria escrito “a três mãos”? Para quem não sabe, Bellatin, marido de uma artista plástica, sempre usa próteses bizarras na mão direita.
² Estou usando aqui o exemplo de narrar como uma criança, mas como foi posto em pauta, “narrar como um cachorro” é uma impossibilidade metafísica, e, ainda assim, se inventam maneiras para criar um registro linguístico que pareça adequado para o canino.



