Estou abastecido de boa parte (quase todos, alguns diriam) dos ensaios publicados do escritor sul-africano J.M. Coetzee. Falo dos livros Doubling The Point (com ensaios coletados de 1970 – 1990, intercalados com entrevistas feitas pelo David Atwell), o Stranger Shores (ensaios de 1986 – 1999) e o Inner Workings (2000 – 2005).
Quando iniciei minha incursão no Coetzee ensaísta, pensei que encontraria algo na linha do que o autor demonstrara em Elizabeth Costello, romance onde a personagem principal lê palestras inteiras (técnica que ficou conhecida como ensaio ficcional) ou como os ensaios presentes no Diário de Um Ano Ruim. Não poderia estar mais enganado. Se, na ficção dele, Coetzee é um ensaísta sem rigor, quase leviano, nos ensaios “propriamente ditos”, ele é o contrário. Doubling The Point choca pelo uso intensivo de citações com propriedade. Em um artigo sobre Tolstói e Rousseau, Coetzee se utiliza de conceitos de Paul de Man e Derrida sem se preocupar em fazer um texto acessível a todos (como são os ensaios do Diário de um Ano Ruim). Claro, eu suspeitava que Coetzee era um leitor dos teóricos da desconstrução com base nos romances dele, mas é sempre meio chocante se deparar com um artigo que confirma que aquele autor que você sempre leu tem formação acadêmica. Porque, apesar de tudo, eu não via Coetzee como um acadêmico, eu o via como alguém que era capaz de produzir ficção que dialogava com questões recorrentes na discussão intelectual dos dias de hoje. Mas não. Coetzee é hardcore.
Os outros livros de ensaios, pelo que vi, não têm namedropping de teóricos (ok, peguei pesado, Coetzee não faz namedropping, ele cita com propriedade, ok, ok). O Stranger Shores, se peca por alguma coisa, é pelo seu didatismo excessivo, como no caso do texto sobre Borges, que parece apresentar o autor para alguém que nunca ouviu falar dele. Não obstante, o livro parece recheado de pequenas maravilhas (só li 4 textos dele até agora). O ensaio de abertura, “What is a classic?”, me respondeu muitas dúvidas que tiravam meu sono. Ele trata justamente da questão de todo conceito de valor ser culturamente construído, algo dado como óbvio no mundo acadêmico. (se você, por algum motivo, esteve longe o tempo todo da vida acadêmica, i.e., se você é uma pessoa feliz, pode não saber que o “universal” foi derrubado, que Shakespeare ou Proust são culturalmente construídos, seu valor existe com base no que uma certa cultura ocidental considera como “belo”). Pois, partindo de uma anedota pessoal do jovem Coetzinho passeando pela rua e ouvindo Bach pela primeira vez aos quinze aninhos e se emocionando com isso, ele se pergunta o seguinte: como hoje, sabendo todos os “arredores” do modo de produção que possibilitou o surgimento de Bach, i.e., o contexto histórico preciso, a história da sua recepção etc., podemos continuar nos emocionando com Bach? e como ele, quando jovem, sem saber que música era aquela, se emocionou? E bola uma definição do que é clássico de romper os testículos do Calvino: o clássico como aquilo que sobrevive o “probing” dos críticos com o passar dos tempos, clássico como o que não fica datado, o que resiste a qualquer nova teoria formulada por um francês entediado, que resiste a uma análise marxista, a uma análise pós-estruturalista, a uma análise-. Datz classic, bro.
Massa, né não? Coetzee é o bicho, eu sempre digo. Vou desligar o metal e ouvir Bach um pouquinho até.

Estou terminando a leitura de Elizabeth Costello (2003), livro de ensaios disfarçado de romance do Coetzee, ou melhor, talvez, romance disfarçado de livro de ensaios. Parece indicar para onde o Coetzee seguiria em 2007, com o Diário de um ano ruim (que é admitidamente um livro de ensaios E um romance, separados por um corte de página), e parece sinalizar mais cousas ainda. Que coisas?

