Já devidamente anunciado no post anterior, consegui libertar-me das amarras de soar incoerente e posso, agora, falar alguma coisa sobre música. E eu quero falar de metal, dos derivados do heavy metal feitos hoje em dia, de recepção e de gênero. E de cinema de gênero. E algumas outras coisas mais. Tentarei. Ou, como diria Yoda, THERE IS NO TRY, DO OR DO NOT.

O metal é, para a música, o mesmo que o terror é para o cinema. Não pelo que se imagina, “demônios”, “pentagramas invertidos”, “cemitérios”. Não, não me refiro ao tema. Me refiro ao estatuto de gênero. Já é bastante arraigada a noção de que os gêneros já não existem mais, que tudo se fundiu, ou que tudo virou mainstream. Não é bem assim a vida. A intelligentsia é famosa por rechaçar o cinema de gênero. Vão assistir um “filme do Wong Kar-Wai”, o “novo filme do Almodóvar”, e se alguém pergunta de que gênero é o filme, não saberão responder de uma maneira prática “ação”, “suspense”, “comédia” ou “romance”. Porque existe uma ideia implícita de que o cinema de auteur não é cinema de gênero. Nem mesmo um filme do Tarantino é um filme de ação – é sempre “um filme do Tarantino”. Há um esforço legítimo da crítica de tentar afastar o cinema-arte do cinema-gênero. Por isso, quando eu era fã de Dario Argento e Lucio Fulci era difícil tentar convencer alguém a assistir Suspiria ou Zombi. “Ah, isso é tudo filme de terror”, diziam. É, são filmes de terror. Mas também são cinema autoral. E Suspiria é uma obra-prima em termos de direção e direção de arte. Convencendo alguém a ver, claro, os resultados costumavam ser insatisfatórios, porque eram vistos por pessoas que não estão acostumados com as convenções do gênero e tudo apontavam como “clichê”. Então vamos passar as coisas a limpo. Existem os gêneros. Os gêneros estão vivos e pulsantes. O gênero é algo que trabalha com convenções já pré-estabelecidas e podem, em vários níveis, subverter esses códigos semióticos. Não obstante, sempre dialogam com toda uma tradição própria do seu gênero.¹

Ufa. Metal, eu falei que ia falar de metal. Enfim. O metal é como o cinema de terror. Ele existe como gênero, mas à margem do resto da música. Um disco do Mastodon pode figurar na lista de melhores da década da Pitchfork, mas não é o tipo de coisa que você apresentaria, tranquilamente para um amigo. Se apresenta Arcade Fire para qualquer um, para o pai, para a mãe, para a prima que só escuta pagode. Agora o metal sempre vem com a alerta: “Mas ó, é metal”.

O metal hoje em dia existe em uma pluralidade de, chamemos, planos. Pode parecer que vou falar de subgêneros, mas não é o caso. Vou falar de diferentes tipos de produção, cada qual com seu público específico. O horizonte de recepção muda. É como se habitassem esferas diferentes. Existe o “true metal”, o metal feito com o espírito clássico que sempre permeou o metal, consumido por gente já versada no gênero. Slayer continua lançando discos, não muito diferentes do que lançavam na década de 80. Ok, talvez sem a genialidade dos bons dias. A cena do “black metal” continua bem viva e produtiva. Existe o metal que se fundiu com o “emo” e pelo jeito emplaca com adolescentes. Não entendo do assunto e só sei da existência de um par de bandas. Existe o metal ressurgido enquanto Camp, em releituras irônicas (ver: The Darkness, Steel Panther), um metal pastiche, homenagem-e-sátira do metal mais exagerado e histérico. E, por fim, existe o metal que me interessa conversar, que é o metal que tem sido estupidamente batizado por diversos veículos de “metal inteligente” e “metal cerebral”². É o metal para não-metaleiros que tem me chamado a atenção pelo poder de servir como ponte entre aficcionados por música e a música de gênero. Há sempre o medo, claro, de que a cultura hipster domine isso e esvazie o gênero de significado. Nada mais nocivo e predatório que a moda e a cultura hipster. Mas disso eu falo na parte 2. Disso e do metal para não-metaleiros. Até mais.

NOTAS:

¹ Boa parte dessas reflexões surgiram do ensaio introdutório da parte “Gêneros” que há na coletânea de ensaios Como se lê e outras intervenções críticas do teórico argentino Daniel Link. A leitura desse livrinho é extremamente recomendada a todos que se interessam pelo assunto.

² Odeio, odeio, odeio quando um veículo dá um nome desses e não percebe a carga de preconceito que leva junto. Ao batizar x bandas de metal inteligente, está dizendo que todo o gênero é essencialmente burro. Nada pode ser mais ignorante.