Assisti dois filmes nesse fim de semana que desmontam e remontam gêneros. Não sei o motivo ao certo, mas esse tipo de coisa é o que mais me atrai em qualquer obra de arte: tomar alguma linguagem com códigos já bem marcados e subvertê-la.
O primeiro foi Primer (2004), único filme dirigido por Shane Carruth. Dirigido, produzido, escrito e atuado. Ah, ele também compôs a trilha e editou. O filme foi feito com ridículos sete mil dólares e acabou ganhando o grande prêmio de Sundance. Ao contrário de outros filmes low-budget como El Mariachi e A bruxa de Blair, esse não parece. Quer dizer, os atores não são incríveis, e se nota que o número de cenários é bastante limitado. Porém, é uma ficção científica como há muito não se fazia. Ficção científica sem concessões. Primer foi feito para leitores de Scientific American, gente que se interessa por paradoxos temporais e diagramas de Feynman. Um sujeito como eu, no caso. E não só isso: ele prefere não mostrar muita coisa. Eu passei todos os últimos 30 minutos esperando que alguma hora algum personagem ia parar e dizer, como nos filmes de Hollywood, “então, o que aconteceu foi…” e teríamos flashbacks explicativos. Que nada. O filme não dá uma só colher de chá. Culpa disso, passei a noite lendo messageboards de discussão sobre o filme.
E aí está, uma ficção científica cinematográfica feita no quintal. Essa é uma das grandes graças do filme. A obra gira em torno de quatro cientistas amadores tentando construir uma geringonça na garagem de casa que acaba dando mais certo do que imaginavam. De certa forma, o enredo é metafórico para a própria luta do cineasta Shane Carruth em fazer um filme na garagem da própria casa, em construir uma obra incrível com os menores recursos.
O segundo filme que assisti foi Brick (2005), um neo-noir que se passa num colégio de ensino médio na Califórnia. Pode-se falar muito do filme, mas prefiro focar apenas nessa frase resumo que dei ali em cima. Brick é exatamente isso: uma mistura, uma sobreposição das convenções do gênero de mistério, o noir, com as convenções do gênero do filme americano de colégio, com cheerleaders e a turma dos excluídos. Parece sem graça ou idiota, de longe, mas não é. Ocorre aquilo que os teóricos costumam chamar de “iluminação recíproca das artes” quando duas linguagens são postas em comparação (cinema e literatura, p. ex.). Aqui, cada gênero denuncia a artificialidade do outro. Colocar adolescentes trocando diálogos rápidos roubados de Dashiell Hammett, ou então usar como femme fatale aquela que estava no papel de “garota mais popular da turma”. Cada gênero denuncia o arquétipo do outro gênero. Poderia acabar em um desastre, como boa parte das obras pós-modernistas. Mas não. Funciona, porque sabe dosar homenagem e sátira. Porque no fundo dessa aceitação de que o trabalho com o gênero depende de convenções, está o profundo desejo de narrar uma história significativa. Significativa no sentido real de “significar”. Aí está o segredo, creio.

Apesar da juventude inevitável dos meus 25 anos, tenho alguns tiques de velhice, como preferir rever um filme antigo e “garantido” do que me arriscar a alugar um filme novo com grandes chances de ser ruim. Foi nesse espírito que recentemente revi 8 e 1/2 (1963), meu favorito do Fellini. É o tipo de filme que gosto de ver no mínimo uma vez a cada dois anos, ou seja, desde a primeira vez que vi, aos 15, devo ter visto umas 6, 7 vezes.
O pássaro sangrento (Stage Fright/Deliria, 1987): Soavi estréia arrasando. É um típico filme à moda italiana. A Itália sempre foi o primo pobre (financeiramente) de Hollywood, e O pássaro sangrento é um bom exemplo. Pouquíssima grana, muita criatividade, Soavi recria os famosos slashers, tão na moda nos Estados Unidos dos anos 80, como Sexta-Feira XIII e A Hora do Pesadelo. A diferença? Soavi tem um par de olhos funcionantes. A trama: um homem vestido de pássaro mata um pessoal adolescente no teatro. Típico. Porém, desde o início metalinguístico (começa com a peça-dentro-do-filme, fingindo já ter começado o filme em si) até o final violentíssimo, O pássaro sangrento se destaca pelo incrível jogo de cores, luzes e sombra, pelos plano-seqüências inesperados. Que filme empolgante, que filme bonito.
Pelo amor e pela morte (Dellamorte, Dellamore/Cemetery Man, 1994). Eis que chegamos ao grande, grande filme de Soavi, talvez meu filme preferido da década de 90 (se eu fingir que não existe Fome animal nem De olhos bem fechados nem Anjos caídos do Wong Kar-Wai). Esta pequena barra de ouro do cinema italiano é um filme de zumbis com grandes tintas metafísicas. Estrelado pelo Rupert Everett e o resto do elenco de outros países (todos dublados, como sempre), é engraçadíssimo, graças às tiradas irônicas do narrador. Além da costumeira direção fabulosa do Soavi, o filme vem amparado por um dos melhores roteiros do cinema de gênero, adaptação de um romance do Tiziano Sclavi abudante em humor negro. A trama gira em torno do fascínio do protagonista, um coveiro cujo emprego envolve matar os Retornados (que voltam do túmulo), que se apaixona por uma mulher misteriosa que vive retornando enquanto viva das mais diferentes formas. A grande sacada de Pelo amor e pela morte está no final, com uma reviravolta repleta de questionamentos existenciais. Até hoje não tenho certeza se entendi o filme, cada vez que assisto ele crio uma nova interpretação. Não preciso nem repetir o clichê que é aí que está a riqueza, não?
Expectativa é a maior merda. O cinema de ficção-científica dessa década não foi muito forte, isso é bastante consenso, até mesmo em número de filmes. A década de 00 não teve nenhum Alien, nenhum Blade Runner, nenhum Star Wars, nenhum 2001: uma odisséia no espaço, nenhum Matrix. Por isso, logo que surgiu Distrito 9, os críticos se apressaram a apontar ali a “salvação da ficção-científica”, o melhor filme do gênero a sair nos últimos anos. Eu, que sou entusiasta de vários sci-fi da década, como Serenity (faroeste + espaçonaves!), Cloverfield, Sunshine e Filhos da esperança, fiquei bastante animado com Distrito 9. “Poxa, deve ser melhor que todos esses”. Produzido pelo Peter “Fome animal” Jackson, deve estar em boas mãos o filme. Expectativa é a maior merda, eu já disse.
Alerta: contém spoilers.
O filme sueco Deixa ela entrar¹ (2008) implora tanto por uma leitura psicanalítica que isso quase reduz sua possibilidade de múltiplas leituras. O que seria uma pena, claro, pois é raro ver um filme nos cinemas que enfoca justamente o tema mais “na moda” da filosofia contemporânea, que é a questão do limiar, da fronteira enquanto território de passagem. Não li o livro no qual o filme se baseia, mas o diretor de Deixe ela entrar obsessivamente registra janelas e portas. O prédio é visto enquanto duas janelas não comunicantes; os quartos são filmados com a distância do marco da porta, através da porta; os personagens, para chegar até onde está alguém, sempre batem na porta e pedem passagem. Até, claro, o momento ápice onde a personagem-chave, a menina vampiro Eli, explica o folclore vampírico do “deixar entrar” ao tímido garotinho que só apanha dos colegas. É necessário “deixar entrar” o desejo de morte, aceitar o lado ruim de si (“eu sou como você”, diz ela, e então rouba a sua voz e repete o desejo de vingança dele, ‘grite feito um porco’”). O ônus da entrada sem aceitação prévia é o sofrimento interno do recalque: o sentimento de raiva em ebulição, caso rejeitado, se transforma na frustração crescente que explode em choro de sangue. É isso que acontece se você não me deixar entrar – estamos falando afinal, de um garoto de 12 anos. Eros e Tânatos, sempre Eros e Tânatos. O desejo sexual surge concomitante com o desejo de morte. Síntese máxima, talvez: o vislumbre do órgão sexual da menina-vampira com marca de violência, a sugestão de castração. Estamos diante de um filme com três colheradinhas de Buñuel, sete doses de Bergman e algumas tantas de coragem. De resto, a estratégia do filme é uma pela qual nutro carinho, a reinvenção da lenda, no caso, a do vampiro. Reinvenção esta que não se dá da maneira banal de que todo filme de vampiros reinventa suas regras – em X filme crucifixos são inúteis, em Y a luz do dia não os barra – mas sim através da ambiguidade. Enquanto filmes de vampiros costumam afirmar categoricamente “ser vampiro é isso”, Deixe ela entrar mantém “O que é ser vampiro?” sem nunca responder a questão. O vampiro, ali, é uma figura do “outro” cuja entrada mediamos, e que nunca conheceremos por completo.

