Quem me conhece há algum tempo, conheceu minha fase odeio-esssa-cidade-preciso-sair-daqui. Sempre tive uma relação tumultuosa com Porto Alegre. Me incomoda o bairrismo desmedido, a “valorização de tudo que é nosso”, e o delírio esquizofrênico de achar que somos o povo mais culto e mais engajado. Quanto mais cidades eu conhecia, Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, maior ficou meu desejo de fugir daqui, deixar a tal da província para trás.

O fato é que não tenho intenções de sair daqui tão cedo. Marcelo Noah uma vez me disse que há algo de covarde em abandonar Porto Alegre para ir ao eixo SP-RJ:  se desiste de tentar melhorar a cidade. Não sei se concordo com ele. Mas permaneço aqui.

Então, nos últimos anos, tentei inventar maneiras de gostar de Porto Alegre. Se no campo cultural só me frustrava com os eventos, descobri um caminho através da comilança. Em São Paulo, se entra em qualquer padaria e se come o melhor croissant do universo. Comer bem é fácil lá, se o lugar é ruim, fecha. Mas, ao mesmo tempo, também é muito mais caro. Aqui está um pequeno segredo de Porto Alegre: conhecendo os lugares certos, comer muito bem pode ser caro, mas o caro nosso é um preço médio lá. Seguem, então, algumas dicas gastronômicas da cidade.

Primeiro, um prelúdio. Uma coisa que muito me irritava em POA é que o “achar que é melhor porque é daqui” levava a uma valorização da cerveja Polar, um verdadeiro lixo, cujo campanha de marketing justamente era “é melhor porque é daqui”. Bom, pelo gosto que não ia ser a melhor. Porém, POA tem mudado radicalmente sua cara cervejística. Agora em qualquer supermercado se encontra uma vasta variedade de cervejas importadas e artesanais por preços módicos (se comparado com o resto do país), e, o melhor, tem público para elas. Vejo casais “normais” discutindo se levam uma Pale Ale da Eisenbahn ou uma Schmitt. Sem contar o número de nanocervejarias gaúchas que tem surgido. O que nos leva ao nosso primeiro lugar:

Biermarkt - na Castro Alves com a Miguel Tostes. Recém abriu o lugar. Tem aparência de pub normal. A primeira vez que ouvi falar foi pelo Diego Grando, mas demorei para conferir. A última vez que fui estava lotado, e dizem, agora anda SEMPRE lotado. Como seria diferente? Oito torneiras de chopp artesanal, muitos feitos aqui no Rio Grande do Sul por preços cômicos! Um copo de chopp artesanal por R$4,90, uma mega-caneca de 1 litro por R$13,00! Tenho muito medo que o sucesso leve eles a aumentar o preço em dois toques. Se continuar assim, todo o público do Shamrock e do Mulligan, outras casas especializadas em cerveja de qualidade, migrará para lá…  Nossa, eu nem deveria estar divulgando o bar aqui, deveria guardar como um segredo.

Carina Barlett (Vasco da Gama), Barbarella (Dinarte Ribeiro) e Mercopan: finalmente Porto Alegre tem padarias boas! O preço, infelizmente, é muito mais alto do que comprar pão no supermercado, mas as três são escolhas perfeitas se você quiser dar uma melhorada no lanche sem graça. A Barbarella ainda tem doces fenomenais, como o Danish Pastry, um rocambole com chocolates e canela que só provando. A Mercopan tem todas as manhas das padarias uruguayas, para aqueles que sentem saudades dos dias que passaram lá.

Café Bonobo (Felipe Camarão com Castro Alves): café dos amigos Marcelo e Val, é um lugar 100% vegano. Alguém pode se fresquear e dizer: “ah, mas nada vai ter gosto, então”. Sugiro que quem disse isso experimente o brownie com sorvete de banana com amendoim. Ou o burguer de lentilha com curry e guacamole. Bons preços, ambiente mais do que agradável, e cerveja Anner. Sem mais.

Wok (Plínio Brasil Milano): 90% das pessoas com grana de POA dizem que o melhor restaurante da cidade é o tailandês Koh Pee Pee (que gosto muito, mas o preço me afugenta). Me pergunto quantos desses foram no Wok, um restaurante bem menor, mais aconchegante, de preços mais acessíveis (ainda é caro, mas não é o preço de um Koh Pee Pee) e também especializado em comidas do sudeste asiático. Nunca esquecerei o prato da camarão que comi lá. É praticamente uma experiência artística.

Pueblo (Av. Ijuí): há dois “famosos” restaurantes mexicanos em POA, esse e o Tehama. Novamente opto por esse, de preços mais simpáticos. O destaque é a Fajita, onde colocam uma chapa com diversos tipos de carne e você pode montar sua tortilla. Dá para duas pessoas serem muito faceiras.

Damask (R. Sofia Veloso): o melhor faláfel da cidade. Se não me engano, os donos, um casal, é formado por um palestino e uma israelense. Que mistura, não? A graça do Damask está em não ser tanto um “restaurante árabe”, mas sim um bar com comida árabe. É um ótimo lugar para ir mais tarde da noite. Na falta de cervejas artesanais, tem a uruguaia Patrícia. E narguilé. E uma dica bizonha: o café expresso deles é com cardamomo, mmm.

Fornellone (Av. Nova York): encerro a lista com essa pizzaria não muito conhecida do público, mas que não faz feio perto das chiques Bazkaria e Sálvia. Sabores muito diversos de pizza, com destaque para a árabe e para a de cogumelos (se não me engano, vem com shitake)