Um sonho

27/12/09 | Tags:

Sonhei ontem como fazia tempo não sonhava, uns quatro sonhos muito vívidos e detalhados que, quando acordei, disse pra mim: bah, preciso contar pra alguém. Sim, sonhos nunca tem graça quando relatados, mas um sobreviveu e eu ainda não consegui entender nada dele (a leitura de dois livrinhos, um do Freud e outro do Jung, me deixaram meio transtornado querendo interpretar todos sonhos), e, sei lá por qual motivo, conto ele aqui. Eu tava numa premiére (?) do filme novo do John Cusack quando encontrei o escritor sul-africano J.M. Coetzee (o filme do Cusack seria adaptação de Coetzee?). Fiquei conversando com o tio KUTZI e todas as coisas que eu queria perguntar para ele se referiam a meu livro favorito dele, cujo nome eu não conseguia lembrar. Listei todos os livros dele, todos, Michael K, Juventude, todos, mas não lembrava do meu favorito (Diary of a Bad Year). Quando vi eu estava na casa dele, uma agradável e modesta casa que também funcionava como padaria. Continuei conversando com o J.M., falamos sobre A vida dos animais (ele só comia nozes enquanto eu mandava brasa num espetinho de carne), mas meu inglês falhava em certas horas e eu acabava falando coisas em espanhol no meio. “Sueño? What is sueño?”, me perguntou uma hora o Coetzee. A filha dele, uma mulata, falava português. No meu espanto acabei dizendo algo em português, e ela comentou, então, “Tu também é de Porto Alegre, notei pelo teu BRRR”. E eu tentei falar com ela, juro que tentei, mas eu só sabia aquele inglês reparado pelo espanhol, e nenhuma palavra em português me vinha em mente, como se minha língua fosse qualquer outra menos aquela.


Estou vivo

02/12/09 | Tags:

Apenas postando muito pouco no blog. Nunca estive tão ocupado na vida, e isso não é hipérbole. Dia 16 entro em férias e, tirando dois freelances que fiquei de fazer, meu único compromisso será o de fincar minha cadeira de praia na microscópica sacada do apartamento, abrir uma long neck de Eisenbahn Kölsch e ler umas seis horas por dia. Acho que isso vai render bastante material para o blog. Um abraço a todos e perdoem a ausência.


Sintomático

20/10/09 | Tags:

O fato de que estou com azia¹ há três dias me fez matutar algumas coisas. Algumas coisas bastante banais, mas não é só de literatura que se vive um blog.

Enfim: aquele velho lugar-comum de “o corpo reclama”. Excesso de café, excesso de hambúrguer, excesso de alfajor, excesso de cerveja. Resultado: azia monstro, e tentativas de atenuar os efeitos dela comendo só coisinhas neutras, cortando o café, a cerveja, a fritura. Além de tomar remédios, é claro. A queimação que eu sinto é resultado de uma dieta pouco balanceada.

Mas o que eu fiquei pensando é sobre música.

Eu sou um adicto a estatísticas. Não consigo ver um gráfico sem salivar de desejo para analisá-lo. O gráfico de acessos ao blog, por exemplo, fico tentando ligar todos os fatores externos que poderiam levar alguém a acessar: “é sábado”, “alguém twittou sobre isso”. Não tem nenhum motivo especial, não é como se eu fosse dono de uma empresa que quer aumentar seu lucro. É só porque não resisto a gráficos e estatísticas. Na época que eu era estudante de Física era pior ainda, saía calculando a derivada de tudo.

Música. Tem o last.fm, certo? Eu tenho meu perfil lá desde outubro de 2005. O last.fm, mais que uma rádio, é um criador de estatísticas. Ele registra todos meus hábitos de audição há 4 anos e planifica eles em tabelas. Além disso, há programinhas desenvolvidos para malucos como eu, como o LastGraph, que, o título já diz, monta gráficos da audição. Sim, ele compõe gráficos de quais foram os meses que eu mais escutei cada banda. Ele faz um pôster em PDF com minhas audições preferidas desde 2005. Ele mostra quanto de música (genericamente) eu escutei em cada semana.

Música e sintoma. E aqui está a SACADA do negócio. Os gráficos do last.fm funcionam mais como diários para mim do que, bem, se eu tivesse um diário. Dá para eu saber em que mês eu terminei um relacionamento, em que mês eu comecei um, em que mês eu estava muito estressado com a faculdade, em que mês eu estava lendo muito, em que dias eu viajei, em que dias eu fui para a praia, em que dias eu passei muito calor. Eu não estou brincando. A música é sintomática. Uma semana ouvindo no máximo dez músicas diz que eu estava ocupado demais na época. Escutar Philip Glass  em junho diz coisas sobre mim da mesma forma como ter azia diz coisas sobre minha alimentação na época.

E, sei lá o motivo, eu decidi compartilhar isso no blog.

¹ Engraçado que, para pesquisar sobre a minha azia, decidi procurar nos periódicos em inglês, e descobri que “azia” em inglês é “heartburn”. Parece dor de cotovelo. Ou uma dor muito mais poética do que “queimação saindo da garganta”.


A minha geração vive um momento complicado. Os amigos se dividem entre aqueles que tentam concurso público, viram burocratas de trabalho com horário fixo, e aqueles que fogem do país, arriscam as chances em outro lugar do mundo. E, claro, aqueles como eu, os perdidos.

Theodor Adorno (de novo ele, sim), no Minima Moralia, escrito pela década de 40, falava de uma separação entre os intelectuais e os burgueses pelo fato de que os primeiros não viam uma linha separando “tempo de trabalho” do “tempo de diversão”, enquanto os burgueses trabalhavam seus horários fixos, das 9h às 17h, e depois, ao voltar para casa, tinham umas horinhas para realizar um que outro hobby, como ler (a cultura se torna lazer, e apenas isso). “Atomização” parece ser uma palavra-chave. Adorno, apocalíptico como sempre, previu que a situação ia piorar, claro: os intelectuais dependeriam cada vez mais do mercado (editar livros, p. ex., dependeria dos livros enquanto produtos de consumo vendáveis), &c.

Existe gente que não nasceu para o trabalho burocrático e regrado. Classe média mal acostumada, quiçá. Mas existe. Hoje em dia parece criminoso querer trabalhar com algo que se gosta. Trabalho é trabalho, prazer é prazer. A atomização do Adorno. É isso que é tornar-se adulto, no fim das contas. Aceitar que tem que trabalhar, e que nenhum prazer surgirá daí. Aceitar que cultura é uma atividade para as horas de lazer. Perdidos são aqueles que não conseguem aceitar isso, são os que não cresceram nem vão conseguir crescer.

Tem uns poucos que conseguem “chegar lá” ou “romper a lógica”. Não falo de coisas como “viver da escrita” (quem seria ingênuo hoje em dia para acreditar nisso?), mas gente que sobrevive de trabalhar com projetos legais, de traduzir, de escrever críticas e artigos aqui e acolá, uma palestra ali, outra lá. Ou, mesmo com horário fixo, de trabalhar em algo que dê prazer, como fazendo leituras críticas de originais (meus exemplos sempre são da área das letras porque é dessa e apenas dessa que sei algo) ou obtendo um posto de professor em uma universidade (porque dar aula no colégio é para heróis, não para humanos, e, ao mesmo tempo, entrar em uma universidade como professor é algo raro – para cada vaga há nove pós-doutores).

E tem eu, é claro. Porém não gosto de falar de mim no blog. Só sei que algum dia preciso descobrir uma maneira de ganhar dinheiro. As bolsas da faculdade não duram para sempre. Um dia a pessoa tem que deixar de ser estudante. Até hoje, no mundo das literatura e da cultura, quando não faço coisas de graça, só descobri maneiras de perder dinheiro ou de ganhar o suficiente para comprar uns livros que me permitem continuar arquitetando novas maneiras de perder mais dinheiro.