Quem me conhece (ao vivo) sabe que eu adoro, de quando em quando, entrar em diatribes contra diversas coisas que considero abomináveis: turismo, faculdade, bairrismo, festas públicas, revistas machistas supostamente direcionadas ao público feminino (…). A lista é infinita. Um amigo propôs que eu, já que sou tão ranzinza, aproveitasse o blog para resmungar e assim incomodar mais pessoas. Como concordei com ele que incomodar geral é uma atividade salutar, aqui estou inaugurando o Coisas Abomináveis.

Começarei então pelo turismo, já que vi um tweet do Leandro Oliveira comentando o “crime ambiental” que é o turista.

Não sei se posso adicionar muito à discussão quando um mestre como o David Foster Wallace já escreveu sobre o assunto (e você pode conferir o excerto lido e “ilustrado” neste educativo vídeo de três minutinhos aqui). Para os preguiçosos, aceitem essa frase-resumo: “As a tourist, you become economically significant but existentially loathsome, an insect on a dead thing”. O ensaio do DFW é 300x melhor do que qualquer coisa que eu possa vir a falar sobre o tema, mas vou dar meus dois centavos de todo modo. Afinal de contas, eu continuo escrevendo romances mesmo sabendo que Javier Marías existe nesse mundo e respira o mesmo ar que eu.

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Uma das melhores coisas de Porto Alegre é que ninguém se interessa por ela. Claro, seria economicamente produtivo se estrangeiros visitassem a nossa cidade e etc., mas quando viajo, digamos, a Buenos Aires, e vejo turistas japoneses posando com falsas dançarinas de tango para foto, sinto orgulho de morar num lugar tão desinteressante.

Quem já pisou no Caminito de Buenos Aires, sabe que é automaticamente detectado como turista e perseguido por clones do Maradona e falsos Carlos Gardéis. Todos oferecem (quase te forçam) para sair numa foto contigo em troca de uns 10 pesos argentinos. O Caminito é supostamente um lugar intessante: ali nasceu o tango, dizem as placas. Ali, nas ruas coloridas que podem ser vistas entre o amontoado de brasileiros, nórdicos e orientais.

Há algo de enganoso no turismo. Ele parece inocente e saudável, como se a mera presença de um estrangeiro no lugar geraria um intercâmbio cultural. Quem já viajou como um turista de massa sabe que não há nada mais distante da realidade. O turista não quer se abrir para uma outra cultura, ele quer fechar-se na sua e observar o outro através da lente do exotismo. A outra realidade não é nunca apreendida, é catalogada. Por isso a máquina fotográfica se apresenta como a maior arma do turista. Através dela, ele prova aos amigos, no retorno ao país de origem, que de fato esteve lá. O turista poderia muito bem comprar um cartão postal do Cristo Redentor, mas ele prefere tirar a sua, amadora, do mesmo ângulo, pelo diferencial de “eu cliquei esta, logo eu estive lá”. Sem contar o outro tipo de fotografia tão asquerosa quanto a “paisagem solitária”: a “eu na frente do _____”, na qual o turista pede para um transeunte que bata uma foto de si frente a igrejas, locais históricos, &c &c &c.

Posso ter 90 anos, dificilmente esquecerei uma cena que vi, quando brasileiros invadiram o restaurante da Casa Pueblo bebendo cerveja 600ml do bico e pedindo para alguém lá do alto fotografarem eles lá em baixo, no restaurante. Já que estavam no restaurante, gritaram em português para um garçom que trouxessem umas batatas fritas (que não eram servidas no lugar), mas rapidinho, pois tinham que voltar para o cruzeiro. Enquanto isso, interrogavam outro garçom sobre a história do lugar (um ateliê de pintura). Chocados que o sujeito não falava português, tentaram construir eles mesmos algum sentido sobre o que era a tal da Casa Pueblo com base na explicação que ouviram em espanhol. “Uma fortaleza construída por um SHEIK”, concluiu uma mulher. Esses sheiks uruguaios me matam. Claro, o equívoco da mulher foi logo atenuado pelo comentário seguinte, da outra mulher: “Já vi muita história, já passeei por toda Europa, não aguento mais lugares históricos”. Problema resolvido: parem de viajar e se afoguem em si mesmos.

Não me entendam errado: eu adoro conhecer outros lugares, e adoro quando conheço, digamos, um japonês que veio passar alguns meses aqui. Quando viajo, evito ao máximo o comportamento turístico. Caminho pelas ruas do lugar como se morasse lá, tento fazer as coisas que os habitantes de lá fazem, tento falar a língua que eles falam. Lembro quando li, uma década atrás, o Ernesto Sábato propondo esse método como a única maneira de se conhecer um lugar. Não serei tão radical quanto ele a ponto de dizer que é o “único”. Direi que é o “único que conheço”.

O turismo arruína qualquer lugar. Turistas são pragas incomparáveis. Conviver com eles significa se confrontar, o tempo todo, com o pior da humanidade, isto é, com o ápice do individualismo. Os filósofos dos dias de hoje podem falar o quanto quiserem sobre a importância da alteridade, nada mudará. Viaja-se para comer no McDonald’s do shopping, que será exatamente igual. Viaja-se para catalogar o outro como exótico e separado. Não há alteridade possível no turismo, pelo menos não nessa espécie nociva de turismo propagada pelos cadernos de viagem e pelo senso comum.


Tô lendo A peste do Camus (sim, atrasado, eu sei) com alguma indiferença e desânimo. Gosto do Estrangeiro e do Mito de Sísifo, mas esse está se arrastando. Deve ser porque é uma leitura obrigatória, e tudo que é obrigatório fica pior.

De qualquer forma, uma parte me fez gargalhar loucamente. Um dos personagens secundários chamado Grand (não consigo não pronunciar GRRRRRRRRRRRRAND com um sotaque francês afetado) tem o hábito de se retirar cedo para, todas as noites, trabalhar febrilmente no seu livro. Sim, Grand (GRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRAND) quer ser escritor. Enquanto a cidade agoniza com mortos e mais mortos por causa da tal peste, ele conversa, transtornado, sobre a busca pela palavra perfeita, la mot juste. Seu desespero é tão grande que sofre até para escolher uma conjunção. Demonstra-se obcecado por construir início que faria um editor tirar o chapéu.

Lá pela página 100 o protagonista Rieux visita a residência de Grand. Vê um monte de papéis emendados, uma letra microscópica. E então lê a primeira frase do livro, a arquitetada para tirar o fôlego de qualquer editor. A frase é: “Numa bela manhã do mês de maio, uma elegante amazona percorria, numa soberba égua alazã, as aléias floridas do Bois de Boulogne.”

Não sei quanto a vocês, mas essa tem que ser uma das frases mais engraçadas que eu já li em toda minha vida. Na verdade foi difícil digitar esse post sem me dobrar de rir a cada minuto.


Três casos verídicos envolvendo desconhecidos na fila de banco ou ao meu lado no ônibus.

1.

(eu estava lendo Flores do mal, do Baudelaire)

“Que livro é esse que tu tá lendo? Flores do Mal? É espírita?”

“Não, não, é um livro de… ã… poesia.”

“Ah, pensei que fosse como aquele Violetas na janela, aquele é meu livro favorito.”

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2.

(eu estava lendo o Genji Monogatari, da Murasaki Shikibu)

“O que tu tá lendo?”

“Ã… bem… é um romance japonês.”

“Romance? Eu adoro histórias de amor. Tu já leu Danielle Steel?”

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3.

(não lembro que livro eu lia)

“Oi, o que tu tá lendo?”

(pensando em alguma palavra que não fosse ‘romance’)

“Ah, um livro de ficção.”

“Pff, detesto esses livros com nave espacial e ET.”

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Sempre que escuto alguém cantar as glórias da importância do papel do escritor, como se o escritor fosse mais importante que o engenheiro ou o cientista, me pergunto se essas pessoas andam de ônibus ou vão ao banco.


Enquanto não me pilho a escrever a parte 2 do post sobre música e metal, um brevíssimo interlúdio literário. Saquem essa citação recolhida do livro a quatro mãos do Roberto Bolaño com A.G. Porta.

“Hubo una época, pobre de mí, en que creí que la literatura arrastraría gente, como el rock, y que los jóvenes que entonces empezábamos a publicar en revistas marginales o a dar recitales donde sólo acudían nuestros amigos tendríamos un status similar a los rockeros… Es bastante tonto…”
Consejos de un discípulo de Morrison a un fanático de Joyce

Em primeiro lugar, o trecho é engraçado porque resume um dos temas mais recorrentes da obra do Bolaño, i.e., o fracasso do “sonho da poesia marginal”, fim das ilusões juvenis, blá blá blá, além da paranóia padrão de todos os escritores que o público leitor está morrendo, blá blá blá. Em segundo lugar, o trecho é engraçado porque se tu for analisar a cena literária brasileira, tem muito escritor que se comporta como estrela de rock. Sem um quinto do público, mas ainda assim.

Mas eu tinha prometido ficar um tempo sem falar de literatura. Até.