O bairrismo gaúcho não cansa de me surpreender como fábrica de bizarrices. Ou melhor: a surpresa é a mesma. O diferente é que dois blogs compilam tudo agora.

Há, em primeiro lugar, o fator “mídia enfocando apenas no território gaúcho”, como foi o caso recente do Apagão. Enquanto 15 milhões de brasileiros em sete estados ficaram sem luz, na capa da Zero Hora tinha uma matéria sobre os 70 mil gaúchos de duas cidades pequenas que sofreram com o apagão. Absurdos desse tipo estão devidamente registrados no site Rio Grande Melhor em Tudo (o título é uma óbvia ironia)¹. O bisonho está no fato de que, embora o movimento separatista tenha fracassado, ele foi bem sucedido simbolicamente. Há uma sensação de que estamos, de fato, separados do resto do país, e que nossas notícias devem refletir apenas o que ocorre no nosso quintal.

Há, em segundo lugar, a valorização do “gaúcho” que “se dá bem lá fora”. Orgulho de mãe assim, “meu filho é um hit em Las Vegas como travesti de luxo”. Esse orgulho leva a uma outra bizonhice, que são as reportagens como: “Gaúcho no Big Bang”, porque um dos milhares de trabalhadores do acelerador de partículas LHC, por coincidência (ou acidente), nasceu em território gaúcho. Tais esquisitices são registradas nesse blog, com montagens cômicas. O assustador é que clicando no título de cada post, o leitor é redirecionado para uma matéria que de fato existe.

Parece existir, mais do que nunca, ainda bem, um movimento contra esse bairrismo. Pelo menos é o que eu observo no twitter e em outros meios, como revistas discutindo isso (a Norte dedicou a capa de uma edição ao tema). A julgar por esses blogs, muita gente já não cai mais no conto² do bairrismo.

No entanto, a cerveja Polar continua sendo vendida com base no marketing “É melhor porque é daqui” (sim, pelo sabor que não seria). E continuamos produzindo as estrelas da província, gente que só é lida/escutada/respeitada aqui no RS e que ninguém mais, fora das fronteiras conhece.

Eu tento não ser tão radical contra o bairrismo gaúcho, mas não consigo encontrar um só fator que possa redimi-lo. O que pode trazer de bom essa valorização do próprio? Toda supervalorização do próprio não é, em algum nível, uma rejeição ao outro, ao alheio?

¹ O site não registra só esse tipo de coisa: também mostra notícias absurdas que contrariam a máxima popular de que o estado é melhor em tudo.

² Conto é a palavra certa: o passado do estado é uma construção ficcional sustentada por uma série de interesses nada isentos. Ver Stuart Hall, “A identidade cultural na pós-modernidade” ou ainda o conceito de “comunidades imaginadas” de Benedict Anderson.