“Tudo que eu sei sobre autoficção é que o termo foi cunhado de 1977 por Serge Doubrovsky e que eu supostamente escrevo auto-ficção”¹ disse uma vez Vila-Matas. Sobre a segunda parte da sua afirmação, é bastante unânimo entre a crítica² que (desde um certo conto no Suicídios Exemplares) o escritor tem enveredado pelo caminho do gênero, trabalhado com o que ele mesmo chamada de “recuerdos inventados” (mais ou menos: “lembranças inventadas”) transformando-se em protagonista de suas histórias e ficcionalizando sua vida.

Até aí tudo bem.

Adelante. Já vi, por exemplo, “O filho eterno” do Tezza, ser chamado de autoficção. A história, autobiográfica até a raiz dos cabelos, mas narrada em terceira pessoa, é, de fato, uma ficcionalização de uma autobiografia. Mas não seria toda autobiografia também ficcional? Até as mais fiéis aos supostos “fatos”, ao apresentar um recorte, não se tornariam ficção? Ou melhor, ao apresentar um ponto de vista do “fato” (que, por si só não existe – porém aí a discussão fica por demais abstrata e filosófica) o estatuto de “verdade” já não estaria comprometido? Bem. Então se toda autobiografia é ficção, não seriam todas autoficção? Não para a crítica. Você não espera encontrar Bill Clinton ao lado de Vila-Matas ou Paul Auster ou J.M. Coetzee em uma lista do tipo. O que separaria a autobiografia do gênero autoficcional? Seria a – pasme – intenção? A crítica não tinha assassinado o autor e enterrado a noção de “intenção” há muito tempo atrás? “My Life” do Bill Clinton se pretende verdade, se vende dessa forma. Já Vila-Matas, por outro lado, se vende como um grande enganador, um contrabandista de identidade falsas³. Estaria a intenção vivíssima na hora de definir o que é ou não autoficção?

A cousa se complica mais quando pegamos a crítica menos acadêmica, mais jornalística. Veja bem: eu demorei anos e mais anos para romper meu preconceito contra John Fante e ler seu “Pergunte ao Pó”. Aquele livro é um exemplo clássico de autoficção, tanto como, sei lá, “Juventude” do Coetzee. Mas Fante e todos seus influenciados são chamados de umbiguistas. Você já viu uma pessoa chamar o Coetzee de umbiguista? Ou o Bolaño? No pior dos casos são colocados em oposição aos “escritores de mundo” (gente preocupada em contar histórias de Outros4) o aos “escritores de imaginação” (eufemismo usado por pessoas que tem preconceito contra gêneros como a ficção-científica e a fantasia).

Bem. Eu não sei o que pensar de tudo isso. Seria “autoficção” apenas um termo besta inventado por um francês empolado5 e pervertido pela crítica para dar sinal de status a um o outro escritor? Ou ele (o termo) tem uma definição muito precisa que me escapa? Eu realmente não sei.

NOTAS:

¹ A frase é mais ou menos essa. Citações de cabeça, nunca dão certo.

2 Ver Vila-Matas Portatil: el escritor ante la crítica.

3 Vila-Matas chega um nível de absurdo de auto-consciência no seu último livro, Dietario Volube, um diário com toques ficcionais. O escritor catalão, que escolhe suas próprias capas, colocou uma foto sua na capa, de costas, e, na orelha, de óculos escuros. A foto de divulgação da época é ele, de óculos escuros, abrindo um sobretudo cheio de fotos diferentes dele. Daí que tirei a expressão “contrabandista de identidades falsas”.

4 “Mas o eu não é um outro?” é a pergunta que salta da leitura Doctor Pasavento. Algo me diz que Lacan já refletiu sobre isso, só que na boa, quem consegue ler Lacan?

5 O termo, pelo jeito, é extremamente pop na frança. O artigo na Wikipédia francesa é três vezes maior que na norte-americana, e usa como exemplo geralmente aqueles escritores franceses que ficam falando quase apenas de sua intensa vida sexual.