Enviei hoje para a Rocco, minha nova casa, o .doc finalizado da segunda edição do Areia. Teve gente que perguntou “se eu ia mudar algo”. Ora bolas, eu não consigo reler nada sem querer mudar loucamente. Escrever é sempre fracassar, portanto reler anos depois, com muito mais leituras nas costas, é analisar clinicamente o fracasso. Como não dá só para chafurdar no passado (ficar mexendo no texto para sempre), se altera umas coisas, se apara umas pontas e se segue adiante, rumo ao próximo projeto, ao próximo fracasso. (Try again. Fail again. Fail better.)

Então aqui vai uma lista semi-precisa (alguns dados são exatos, outros são aproximações) do que mudou no Areia 2.0

a) Quatro erros de digitação corrigidos.

b) Três vírgulas corrigidas.

c) Um erro grave de concordância por mudar uma palavra e não notar que alterava a frase seguinte corrigido.

d) Vinte e sete frases desajeitadas melhoradas.

e) Nove pontos substituídos por vírgulas.

f) Uma referência gratuita (namedropping) removida. Não tolero referências gratuitas.

g) Aproximadamente QUATRO páginas (A4) a mais de texto inédito (dentro de capítulos já estabelecidos) com as mais diversas funções, de prolongar um suspense a esclarecer uns pontos.

Preciso falar ainda de como as críticas feitas ao Areia foram fundamentais para a) minha mudança de visão sobre meu próprio texto e b) as tais quatro páginas a mais.

Lembro que houve três críticas que disseram que o Areia era um livro legal porque era divertido, mas meio que só isso. Lembro também que a primeira vez que vi isso fiquei brabinho. Como eu consigo ser ingênuo, por deus. O Areia é divertido e não há nada de errado nisso. Ele não é, nem nunca será, um novo Ulisses. A parte principal do texto é o pastiche, não a metalinguagem. E essa é minha mudança de visão sobre o texto.

A crítica nas críticas de que o livro tinha “muitas idéias boas que não recebiam o devido desenvolvimento” foi o que me levou a mudar/adicionar mais coisas. Nessas quatro páginas a mais, desenvolvi muito melhor algumas coisas que eram lançadas no ar e depois esquecidas. Prova de que a crítica literária pode ter uma função de diálogo com o autor.

Sei que quem leu a primeira edição nunca lerá a segunda. De qualquer forma, fico feliz que o novo público que atingirei receberá um livro mais sólido. E fico feliz que nesses dois anos que se passaram desde a primeira publicação, o autor ficou bem menos ingênuo sobre o próprio livro.


Um dos segredos mais bem guardados da Não Editora será enfim revelado.TCHÃRÃÃ. Cof, cof, voz de narrador de trailer.

Era abril de 2008, correria para publicar o terceiro livro que saía, o meu Areia nos dentes. Rosp na quinta revisão… enviamos tudo para o Samir, ele nos repassa a parte interna do livro já diagramada, tudo lindão, mandamos logo para a gráfica para dar tempo de divulgar direito…

As caixas de livros são entregues na minha casa. Abro meu livro, acaricio ele, cheiro, abraço o coitado… folheio uma página, outra, olho a mudança de partes… e descubro que está faltando um capítulo.

Não preciso dizer que meu coração saltou pra fora, né? Conferi que não estava louco, fui correndo até o computador reler o capítulo. Olhei as caixas, aquele montão de caixas, 800 exemplares do livro, todos sem o último capítulo da Parte 1. Merda, eu pensei. Li o capítulo anterior ao desaparecido. Li o posterior. Li, no computador, o sumido.

Ufa. Não era imprescindível. Era um micro-capítulo de um só parágrafo. Dava para entender o livro ainda, sem ele. Três horas depois, consegui parar de tremer. Ficava repetindo: só um parágrafo, dá pra entender, ficou até melhor assim…

O segredo do capítulo sumido foi mantido a dezoito chaves porque tínhamos medo que pensariam coisas erradas da editora. “Bando de amadores!”, “Não quero publicar com vocês, vocês perdem capítulos!”, &c e tal. Mas, agora, estamos tão mais confiantes no nosso trabalho, tão certos de que não engoliremos mais capítulos, que o segredo pode finalmente ser revelado.

Na verdade, o desejo de revelar veio de uma entrevista amalucada que eu e o Samir demos hoje na Rádio da UFRGS, onde falamos de tudo, bem desvairados. Samir mencionou o capítulo obliterado e eu prometi para os ouvintes da rádio (haha) que postaria o tal micro-capítulo sumido hoje no blog.

Não deixa de ser interessante: adiciona uma nova camada de metalinguagem. Veja bem, se o narrador-personagem do Areia nos dentes não é confiável, erra, se perde, seu computador é invadido por um vírus e um capítulo é perdido, acaba sendo extremamente irônico que a vida real tenha feito uma dessas, que a Editora também se revelou não-confiável, e que a narrativa foi alterada por causa disso. Interessante, no mínimo. Alô, teóricos da literatura?

Vamos ao capítulo. Antes, contextualização. O capítulo entraria no final da parte 1, como encerramento, seria a página 84 do livro. É um capítulo curtíssimo que EXPLICA o capítulo anterior, que termina com equívocos de digitação (“índhio”, “flehcas”). Tem gente que leu o livro e pensou que eram falhas na revisão, porque o capítulo que explicava aqueles erros é esse, o desaparecido. O capítulo (que é curtíssimo, por sinal, o menor do livro disparado) também voltava a narrativa ao tempo presente no D.F. mexicano e preparava o leitor para a segunda parte, com a chegada do filho do narrador.

Sem mais, segue abaixo o capítulo desaparecido:

“DEUS DO CÉU.  Esse último copo de tequila me devastou. Acordo desmaiado sobre a máquina de escrever. Puxo o papel. Tudo escrito errado, que vergonha. Letras duplicadas. “Índhio”. Não, bebida e literatura não combinam tão bem assim. No banheiro, me ajoelho no chão para vomitar um pouco, aliviar o estômago que está em rebuliço. Ao puxar a descarga, quase perco de escutar a campainha soando. Lembro então que aguardava a chegada do meu filho.”