Me sinto criminoso de usar 2666 outra vez como exemplo de algo, mas enquanto o livro não sair do meu sistema, parece que só consigo pensar a partir dele. Mas se serve de garantia, ele é só o ponto de partida do assunto, nada mais.

A quinta parte do 2666 é focada no autor recluso Benno Von Archimboldi. Benito escreve um romance na década de 40, leva a umas editoras e é recusado. Finalmente leva a um editor que acredita que o livro é genial. Aposta nele e o publica. As críticas que o livro recebe são mornas. O editor publica um segundo livro de Benno, as críticas são piores, as vendas fracas. O terceiro livro é um fracasso completo de vendas: só 96 exemplares vendidos. E, ainda assim, o editor continua acreditando que está diante de um grande autor alemão e continua publicando seus livros, até um livro que considerou péssimo. Pelo livro péssimo oferece um adiantamento menor, Benno reclama, e lá vai o editor e oferece mais que o valor padrão.

Sabemos, pela primeira parte do livro, que Benno Von Archimboldi, nos anos 2000 é considerado um gênio, candidato a ganhar o Nobel. Na quinta parte, descobrimos que ele nunca teria sido publicado se não fosse a coragem do tal editor.

Veja bem. Tal caso (sei que é ficção, mas) hoje em dia seria impossível. Tá certo que hoje em dia é muito fácil publicar, se levanta uma pedra em Porto Alegre e tem 127 contistas, há leis de incentivo, publicações virtuais, &c, &c. Mas: veja bem. As grandes editoras deixaram para as pequenas o ofício de caçar e descobrir o que há de melhor na nova ficção. OK, aceitamos. As pequenas editoras cumprem uma função de vitrine da nova literatura. Quem faz mais sucesso, com sorte salta para uma das grandes e passa a ganhar algum tostão pelo seu livro. Porém não é tão simples. Editoras pequenas não ganham lá muito dinheiro. Como apostar em um autor que, mesmo achando ótimo, não trará dinheiro de volta? Até mesmo quando o autor paga a edição. Eu me pergunto isso com muita frequência graças ao trabalho na Não. Tem muita gente que, se eu tivesse uma herança milionária, apostaria neles. Escritores sem dinheiro para bancar parte da própria publicação, sem família ou rede de amigos extensa o bastante para comprar o maldito livro (vale lembrar, os primeiros leitores sempre são familiares e amigos). É complicado. É um mercado lotado, uma editora não pode fazer milagres por um autor para conseguir destaque na mídia. E às vezes o destaque na mídia não é revertido em vendas. É muito complicado.

A figura do editor-herói está morta. Não quero soar marxista, mas todos sabem que o assassino é o mercado. Não são só as grandes editoras que se preocupam com vendas. As pequenas, que dependem de um capital mínimo para operar, dependem MUITO desse mínimo. Podemos ousar, mas sempre há limites. A Não Editora foi formada com a idéia utópica de apostar nas coisas mais diferenciadas, em publicar de poesia a contos de ficção-científica. Continuamos com esse projeto, continuamos apostando. Mas não é simples. Nunca é simples.

Cabe recordar as palavras do teórico argentino Daniel Link: “Se a literatura hoje parece ‘coisa do passado’, não é por sua incapacidade de dar conta do presente, mas por sua debilidade de enfrentar a lógica (reificante) do mercado que, por outro lado, é sua condição”.

E eu penso em Thomas Pynchon, minha ex-obsessão. O autor norte-americano, recluso, não dá sessões de autógrafo, não participa de leituras, não aparece na FLIP abraçado no Chico Buarque, não toma cafézinho com o Paul Auster. Hoje em dia Pynchon vende porque já é reconhecido pela crítica, já foi canonizado pelo Bloom, &c. Porém, é impossível o surgimento de um novo Pynchon. O novo escritor tem de ter um lado marketeiro dentro de si, tem que saber se vender. Imagine publicar um autor recluso hoje em dia, uma pequena editora. Vai fazer o release e pá, não tem sessão de autógrafo. Convidam ele para um evento em São Paulo, ele não vai, acha uma besteira esses eventos ególatras. Esse autor estará fadado ao esquecimento, ou, no máximo, será cultuado por uma minoria. O escritor hoje em dia precisa bancar a estrela para vender os livros. Tem que segurar melancia no pescoço (alguém pode argumentar que a reclusão é uma forma de melancia) para conseguir vendas, i.e., para conseguir leitores. Tem que ter blog, twitter, tem que parecer inteligente o tempo todo, para convencer alguém a ler o seu livro. Um dia se imaginou que a internet e a difusão de informação melhoraria isso, mas só agravou o problema. Escrever se torna apenas 50% da função, a outra metade é “parecer escritor”, “aparecer”. Eu não tenho nada contra um escritor que sabe se vender, pelo amor de Pynchon, eu tenho blog, twitter e aceito qualquer palestra que me chamam. Mas cansa, sabe? Cansa. Tem momentos em que se pensa, “eu poderia estar escrevendo”, mas lá está você, em algum sarau perdido na noite de Porto Alegre, lendo seu poema para uma platéia desinteressada.


Terminar a leitura de 2666 é mais ou menos¹ como chegar ao topo de uma montanha. O primeiro motivo, óbvio, é que escalar montanhas é algo trabalhoso que exige muita resistência, assim como ler um tijolão de 1120 páginas. O segundo e principal motivo é que só quando você lê a frase final do romance do Bolaño  é que você alcança o pico da montanha, i.e., que você tem a vista completa. É lá do alto que se enxerga toda a arquitetura complexa que serve de estrutura para o livro. É lá de cima que você diz, puxa, que bela vista, que bela montanha, que belo mundo ao redor. É lá que você pensa que valeu a pena todo segundo da escalada, até mesmo os que apresentavam obstáculos². É só lá do topo que você diz, puta que pariu, vai ser difícil esquecer essa vista.

¹ Como se imagina, eu nunca escalei nenhuma montanha na minha vida, exceto essas metafóricas.

² Se Bolaño tivesse ficado vivo por mais tempo, imagino que um ou outro trecho fosse melhor trabalhado. Nada que impeça a escalada ou arruine a vista, de qualquer forma.