Fenômeno estranho. Quando alguém me pergunta o que estou estudando na faculdade, qual o tema do meu trabalho final, e respondo Bolaño, tenho recebido cara feia. O motivo?¹ Bolaño virou moda mais do que nunca (embora só vá realmente explodir quando a obra-prima dele, 2666, for traduzida no Brasil. Comentei sobre 2666 aqui), e tudo que vira moda sai de moda. Não, não é bem isso. Eu vou tentar explicar, mas a verdade é que não tenho certeza sobre nada do que direi aqui.
Nos meios musicais alternativos, quando uma banda se populariza, começa a tocar na rádio, sei lá, tem gente que chia. “Ah, quando eu ouvia a banda, só meia dúzia conhecia, agora eles fazem show no Pepsi On Stage.” Síndrome de indie é o nome disso.
Com literatura é um pouco diferente. Pouco, mas não muito. A birra com Bolaño não é porque está sendo banalizado. Até porque banalizar é algo bizarro em termos literários (quantos leitores de literatura contemporânea existem?). É porque o hype gera desconfiança. Tudo que é alardeado como “WOW isso aqui é Grande” ganha 300 pontos de desconfiança instantâneos. Será que a literatura está tão prostituída por panelinhas e mídia que tudo que o jornalismo cultural enche a bola o leitor já fica com o pé atrás?
A Bensimon, que começou publicando pela minha editora, agora está estourando na mídia. Onde eu olho, tem uma resenha do Sinuca. Estou feliz, muito feliz por ela, a garota merece. Mas já estou vendo a reação de leitores – a desconfiança que surge com toda a força. “Se estão falando dela, ih, tem algo errado aí”.
De fato, existem e existiram escritores que foram só moda e desapareceram. Eu gostaria de saber, porém, de onde vem tanta desconfiança, o que foi que gerou isso.
O título do post – salvando Bolaño – é irônico, óbvio. Ele não precisa ser salvo e todos sabem que eu não teria poder para isso. O título me lembrou, só, que daqui a pouco quem vai estar odiando o Bôla vai ser eu. Depois de ter lido quase a obra completa (falta um ou outro livrinho menor) e sei lá, metade da fortuna crítica para o trabalho final da faculdade, estou chegando num ponto de exaustão que quando li uma linha do Tanizaki ontem me senti renovado. Ufa, uma linha escrita por uma pessoa que não é o Bolaño ou sobre ele.
Eis então algo reeeeealmente perigoso: um autor ser tão estudado, tão analisado, tão retalhado, tão mutilado que pouco sobra do autor sem o filtro da crítica. Talvez por isso seja bom ler Bolaño agora, ler logo, antes que a crítica mastigue todo ele.
¹ Claro, não estou dizendo que todos que não gostam de Bolaño é por esse motivo. O Mojo, por exemplo, não gosta porque ele está sofrendo alucinações por falta de glúten.




1 comentário em “Salvando Bolaño”
Breno Kümmel
03/10/09Confesso que tenho um preconceito meio parecido: toda hora que vejo alguém elogiar Machado de Assis, acho parecido com alguém falando mal do Bush… meio sem graça.
Ah, li Detetives Selvagens e achei apenas bonzinho (uns trechos muito bons, mas muitos que não me chamaram muita atenção), e realmente vejo que o cara está na moda, mas pra mim não chegou ao ponto de desqualificar quem gosta dele como “Seguidor de modas”.