Somos todos órfãos de Paulo Scott. Se você morasse em Porto Alegre por meados dos anos 2000 e estivesse de alguma forma ligado à cena literária, você conheceria Paulo Scott. Você poderia gostar dos livros de Scott, dos poemas, dos romances, ou não, você poderia detestar o que ele escreve, detestar até mesmo a figura do Scott, não interessa. Você participaria dos eventos dele. Por quê? Porque Scott era a figura agregadora da cidade. Ele reunia todos os escritores e críticos e leitores, ele dava chance aos novatos e os colocava ao lado dos veteranos. Não era uma questão apenas de “agregar”, mas também de “agitar”. Sempre tinha um projeto novo com um cartaz amalucado para se colar nas ruas da Cidade Baixa. Em 2008, Scott se mudou para o Rio de Janeiro e levou com ele 70% da vida cultural-literária da cidade.
Por que estou falando disso? Bem, porque acho que alguns projetos estão surgindo para suprir nossa orfandade, como o Festipoa e o… Campeonato Gaúcho de Literatura.
Admito, a primeira vez que me falaram do Gauchão, fiz cara feia. Eu disse que não ia dar certo, que em Porto Alegre todo mundo se conhece, que não é como a Copa de Literatura. Me explicaram, então, que cada juiz teria que marcar quais livros se sentia impedido a julgar, seja por amizade ou antipatia natural. Fiquei um pouco mais tranquilo, mas ainda assim nada empolgado. Qual era a necessidade daquilo? Já tinha a Copa que abrangia isso. Daí falaram que ia ser de contos, já que esse é o maior foco de produção gaúcha. Ainda não fiquei animado. Falaram que o Carlos André (que também escreveu sobre o evento) e o Weller iam ajudar a organizar o troço. Ainda não me empolguei. Aceitei ser juiz de um jogo, de qualquer forma.
Foi quando recebi a lista dos participantes para marcar os “impedimentos”. Vinte e sete livros. Eu não tinha nem sequer ouvido falar de uns dez ou mais. Decidi googlear alguns títulos. Livros que nunca receberam uma resenha em um blog. Livros que nunca foram comentados nem no orkut.
Todo mundo sabe, tão bem quanto eu, que um livro não lido é um livro morto. E eu pensei: com o Gauchão, cada livro vai receber pelo menos duas resenhas. O resultado é sempre subjetivo, mas esses livros finalmente serão lidos por alguém que não é familiar ou amigo, serão discutidos duas vezes, por duas pessoas com pontos de vistas diferentes. Isso movimenta toda uma massa de escritores. Isso movimenta toda uma massa de leitores.
Daí eu comecei a achar a idéia legal.




2 comentários em “Gauchão de literatura”
Simone
13/06/10Agora o Scott está fazendo isso no Rio. Morram de inveja.
Tenho ido a todos os De Modo Geral.
Reginaldo Pujol Filho
29/06/10Grande, Tony.
Que bom que tu começou a gostar da ideia do Gauchão – e dá pra ver isso pelas tuas manifestações no site. Eu tenho a mesma opinião que tu, que é um troço quase fundamental ter iniciativas como essa pela oportunidade que dá a livros de serem, no mínimo, conhecidos pelo público e, se bobear, lidos e discutidos. Isso é fundamental em dias de tanta publicação e tão pouca reflexão. Agora a missão é fazer circular a história do Gauchão, gerar leitores pro site, pra gerar leitores pro livro.