Entortando os gêneros

Atenção 5% de leitores interessados, segue OUTRO post sobre videogames (desculpem, estou de férias).

Um amigo meu dia desses refletiu sobre como a palavra indie estava denegrida. Se alguém falava em indie rock, a primeira imagem que vinha em mente era de algo como The Killers ou outra banda com The ____. Se falava em cinema indie, se pensava em filmes melosos com o Michael Cera. Se falava em HQs indies, se pensava em dramas cômicos com sujeitos desajustados e problemas familiares. Era questão de tempo até indie se tornar tipo emo, uma designação pejorativa, sempre. Eis então que eu retruquei: ei, mas e o indie gaming?

Sim, os jogos independentes. Pouca grana, muita criatividade. Equipes pequenas, gráficos mais simples.

O recente boom da indústria videogamística levou ao desenvolvimento de toda uma “blockbusterização” dos jogos. Cada vez mais próximos de Hollywood, o que importa são as explosões realísticas, o sujeito matando alienígenas das maneiras mais cinematográficas (o adjetivo não poderia funcionar melhor). É a lógica dos Call of Duty, do Uncharted 2. Tem muita coisa boa aí, claro. Call of Duty 4 rende cenas de beleza estarrecedora (testemunhar a explosão de uma bomba atômica em um flashback em primeira pessoa). Mas. Mas.

Começa a se espalhar, mais do que nunca, a cultura do indie gaming. Enquanto as grande softhouses buscam maneiras de deixar a representação do movimento da água do rio mais perfeita, gente como o Jonathan Blow desenvolve uma pérola como Braid. Já falei de Braid aqui? Acho que não. Mas falo dele no meu artigo sobre videogames na Vida Simples 91 que sai em março (onde tento convencer o leitor que videogames são culturalmente interessantes). Voltando ao Braid. Pegam uma estrutura clássica de plataforma, sugada de Super Mario Bros., e experimentam com ela. E se mais importante que “pular em cima dos monstros” fosse o controle do tempo? Poder brincar com o tempo como se fosse um looping do Sonic. E se os gráficos, na ausência de grana e equipe para criar um 3d perfeito, buscassem uma estética das pinturas impressionistas de Renoir? E se a premissa não fosse salvar a princesa, mas sim recuperar memórias perdidas? E se o final apoteótico fosse possível só na linguagem dos videogames (impossível na literatura, no cinema, na HQ…)? Esses são os segredos de Braid, um dos melhores jogos que já joguei.

Braid parece ser uma daquelas obras que pega um gênero e… entorta o coitado. Como o indie rock, quando funciona, também parece pegar estruturas padrões e reposicioná-los em uma lente esquisita (alô, Wolf Parade). O melhor, porém, é que Braid não é exceção. Há Machinarium (ver 2 posts atrás), há World of Goo (arte) e há os jogos de Terry Cavanagh.

Terry Cavanagh. Um sujeito que retornou aos pixels do 8-bits para mostrar que eles não estavam esgotados. Recentemente ele lançou um jogo pago, mas o resto está todo disponível gratuitamente aqui. Hoje fiz meu irmão Pedro (designer de joguinhos) jogar na íntegra o Don’t Look Back, experimento em plataforma do Cavanagh. “Genial” foi o comentário dele, após a segunda reviravolta metafísica que encerra o jogo/a narrativa. Algo tão simples como um homenzinho pixelado matando cobras e aranhas (referência mais do que direta ao Pitfall do Atari) pode ser aberto para um universo de significados. É por jogos como esse que quando opino que “jogos são culturamente relevantes” não me refiro apenas à cultura de massa, adaptações de Tomb Raider ao cinema e etcs.

É isso que me incomoda no jornalismo dos grandes jornais de games. São matérias direcionadas para o público infanto-juvenil e geralmente estão na seção de informática do jornal. Meu sonho é que um dia os videogames ocupem uma seção nos cadernos de cultura dos jornais. Ainda falta crítica séria no Brasil dedicada aos games.

[UPDATE] Só para constar, nos E.U.A. já tem gente que detesta o indie gaming, dizendo que são jogos preguiçosos posando de artê. Talvez comece a rolar isso, eu que dei sorte nas minhas escolhas do que jogar até agora.

18/02/10 | Tags:


7 comentários em “Entortando os gêneros”


paveck

19/02/10

Mas é difícil fazer essa transição. Acho complicado agora ter imersão em um jogo com gráficos simples, depois que se passa dias jogando Fallout3. To sentido isso jogando mother 3 só agora, tomara que melhore. Mas acho que Braid supera isso, vamos ver.

Antônio Xerxenesky

19/02/10

Engraçado, paveck. Minha experiência é bem diferente. Embora eu nunca tenha “me perdido em um universo” tanto quanto jogando ES4: Oblivion, a experiência de imersão em jogos como o pixelado “Don’t Look Back” para mim são quase totais. Talvez porque joguei muito games 8-bits no passado, e aqueles pixels eram realistas para mim quando criança, sei lá.

paveck

19/02/10

As minhas lembranças dos jogos de 8/16 bits são fantásticas, eu me emocionava muito jogando. Don’t look back tem isso, mas é raro econtrar jogos assim, eu acho.

carol bensimon

19/02/10

Tô meio que acompanhando tu e outros com essa necessidade de “legitimar” a prática de jogar video-game, colocando isso como uma atividade “superior”, as narrativas são isso, as narrativas são aquilo, trazem o sentido da vida, estão no mesmo nível da literatura, do cinema etc.
A pergunta é: isso PRECISA ser feito? Não dá pra simplesmente jogar video-game e pronto?
Tá, sei que muitos vão me odiar pelo comentário, mas, enfim, às vezes essas coisas me soam muito NA DEFENSIVA.

Antônio Xerxenesky

19/02/10

Ué, Carol, dá para só jogar videogame e ponto. É o que a grande maoiria dos gamers fazem.

Eu luto pela legimitização dele como forma narrativa, artística, cultural, seja lá. Acho que tem muito preconceito contra os videogames e gostaria de mudar isso. É na defensiva? Talvez, sei lá.

Na literatura tem centenas de grupos que lutam para “mudar o cânone”, que excluiu dezenas de autores por x, y e z motivos. São esforços de legitimização. Eu gostaria que os videogames recebessem um melhor tratamento dos veículos culturais e acredito nisso e divulgarei e discutirei isso.

Não sei o que tem de errado.

Fabio

19/02/10

Eu acho que a legitimação é interessante sim. Estou particularmente interessado em ver essa matéria. Além de escritor, sou professor no curso de Jogos Digitais da PUC-SP e dou aulas de oficina literária aos alunos. Não tento legitimar nada dentro da sala de aula, mas apresento textos literários aos alunos para que eles aprendam a escrever tanto contos quanto roteiros, a fim de escrever games – que é o objetivo deles, afinal. Mas não vejo, da parte dos alunos, nenhum problema com isso – a maioria deles, inclusive, gosta de ler e gosta de descobrir autores (para eles) novos.

Agora, claro, para quem é só de jogar, jogar – é para isso que o jogo serve, afinal. O que não nos deve impedir de buscar padrões mais altos da chamada “indústria cultural”. Já estou cansado de ver sempre os mesmos temas sendo discutidos em progamas de TV, coisas do tipo “Os videogames não são só coisa de criança”. Ora, que clichê filhadaputa, não? Eles não são “só coisa de criança” há uns 20 anos pelo menos – mas vá dizer isso, por exemplo, aos pais dos alunos que se matriculam nesse curso de Jogos Digitais, pessoas que de vez em quando vâo assistir aos nossos eventos e para as quais fazemos questão de mostrar que game é qualidade técnica E literária, E artística, E cinemática. Porque é. Atualmente isso nada tem de errado nem de exagerado.

Breno Kümmel

19/02/10

Financeiramente, claro que não é necessário legitimar nada. Mesmo porque pornografia está longe de ser algo tido como culturalmente rico e dá mais dinheiro do que cinema.

No entanto, a interatividade dos videogames de fato permite a criação de narrativas únicas, e é besteira ignorar esse potencial. Fiquei muito feliz com o desenvolvimento dessa cultura indie dos videogames, pois já pelo meio do ciclo de vida do PS2 eu imaginava que os videogames iam ficar cada vez mais blockbuster, cada vez mais barulhentos e vazios.

Acho que é só uma questão de tempo até o videogame ser considerado com mais “seriedade” de forma mais generalizada. Compare o início dos anos 90 com hoje… Tem gente que nunca vai mudar de ideia, mas essas coisas sempre foram assim.

Não me preocupo muito com a forma como a maioria das pessoas enxerga os videogames. Só precisa de uma porção que acredite nessa capacidade: uns para fazer os jogos, outros para jogar.

(esse “don’t look back” é sensacional, valeu pelo link)


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