Descobrir qual banda/livro/filme vai “ficar”, no sentido de “permanecer lembrado na história”, é um esporte popular. Mas – e às vezes eu acordo nessa espécie de pesadelo – e se nada ficasse? E se o culto fosse sempre do “novo” (que, nos últimos anos, tem significado a releitura de algo passado)?
Quando eu descobri o chamado “indie rock”, as principais bandas eram Sonic Youth, Yo La Tengo, Built to Spill, My Bloody Valentine, Trail of Dead, Sleater-Kinney, Mogwai, Belle & Sebastian e um par de outras. Eu sou um cara jovem, de 25 anos, porém conheço pessoas mais novas que eu. Proponho um experimento: mostre essas bandas (antigas? mas são do fim dos 90, início dos 00!) para os jovens. Primeiro que não vão gostar muito. Segundo que não considerarão “indie rock”, e com razão. O termo hoje é aplicado para bandas e estilos completamente diferentes, a ponto de ter perdido o sentido de ser, ter se tornado indefinível. “Indie rock” pode tanto significar roqueiros barulhentos de óculos wayfarer como um hippie tocando uma arpa de cabeça pra baixo. Mas no início (o verdadeiro início eu não peguei, claro, olhem a minha idade, eu sou um piá) não era tão assim, o termo parecia ter algum sentido, havia uma série de características formais identificáveis. Todas pareciam servir de possível trilha sonora para filmes do Hal Hartley. Hartley (rei) é um cineasta que, como essas bandas, foi esquecido, engolido pelo tempo, e, no entanto, abriu o caminho para o cinema independente. É difícil pensar em Kevin Smith existindo, não fosse o Hartley.
Esse não é um post de “ó, as coisas não deveriam ser assim, que raiva”, nem um post nostálgico (ok, um pouco nostálgico talvez seja – e quão ridículo é ser nostálgico aos 25? 25!!). É mais de alguém tentando entender como tudo isso foi esquecido. Quando eu vejo os novos adolescentes adorando Vampire Weekend, The XX e coisas que para meus ouvidos soam asquerosas, penso que toda essa leva também vai ser esquecida. Talvez essa seja a mudança (ontológica?) surgida a partir da geração X. A partir de certo ponto, “nada permanece”, nada se fixa no tempo. Yo La Tengo não permaneceu. Essas novas bandas sumirão. Só ficará sei lá, Radiohead, ou algo assim, que conseguiu transcender o nicho. E eu penso, em digressão, nos Beatles, em como os Beatles foram o mais próximo de uma unanimidade que o mundo da música encontrou, todo mundo gostava, se escuta até hoje, se reconhece o valor, e como isso é historicamente impossível de se repetir.




13 comentários em “Indievelhismo”
Ana Margarites
19/01/10haha, tu escreveu isso depois de ler o meu post de ontem?
De qualquer forma, tenho 28 (quase 29) e acho tri divertido o vampire weekend. Gosto de ouvir caminhando, e acho os clipes sempre bonitos e bem dirigidos.
Eu fico pensando nessas unanimidades tipo Beatles. Será que eram (são) tão unânimes assim? Devia ter um monte de gente nos anos 60 que não gostava deles. Só que eles não permaneceram!
Antônio Xerxenesky
19/01/10Oi, Margs! Não li teu post ainda, hahaha. Nada contra quem gosta de Vampire Weekend, e essa paranóia dos Beatles sempre me bate, mas os relatos dos meus pais sobre eles nas décadas de 60 e 70 meio que tiram minhas dúvidas.
Ana Margarites
19/01/10O meu post não é uma ode ao Vampire Weekend não; a banda é só parte de uma conclusão entusiasmada. Depois tu vê lá.
Marcos Vinícius
19/01/10E aí Xerxenesky,
Tão jovens e tão cheios de nostalgia…
Bom. A peneira do tempo é estranha demais. Acho impossível prever em última estância o que fica e o que passa. Não é só questão da expressão musical captar um certo momento e paradoxalmente transcender esse momento. Há o fator mercado, mídia, mito. Os Beatles ficaram mais pela quantidade de produção que pela qualidade. Sem falar que há um culto meio ancestral a essa banda, passando de geração à geração, tipo time de futebol, religião… Uma coisa meio esquisita… Não consigo entender muito bem isso.
até.
Lídia Barbieri
20/01/10Eu conheço algumas pessoas que só curtem os últimos discos dos Beatles. Dessas bandas que tu citaste. eu só conheço Yo la Tengo e o Sonic Youth
Leitor do Blog
21/01/10Se bem entendi, você disse que o que era indie nos anos 90 hoje não seria, e o que hoje é indie é uma soma de coisas tão diferentes que não só negam o indie 90 mas se negam também. Bom, vale lembrar que aquilo que começou com um cara só (Pitágoras) hoje é uma confusão generalizada onde ninguém é de ninguém e não só não fazem o que Pitágoras fazia como ainda não reconheceriam Pitágoras hoje como sendo o mesmo que eles são. Falo da Filosofia.
* * *
“soam asquerosas”
Por que elas soam asquerosas? Porque fazem melodias simples sobre 3 acordes para que as pessoas se divirtam, imagino. O som deles não é asqueroso, e você sabe disso. Você só não gosta é de quem ouve essas bandas. Não quer ser confundido com os fãs. Não quer ser confundido com “esses adolescentes aí que estão na modinha…” Pois não existe nada mais adolescente que correr da modinha feito o diabo da cruz.
As pessoas reconhecem o valor dos Beatles? Quem? Eles faziam melodias simples sobre 3 acordes para que as pessoas se divertissem. Mas você não se importa em ser confundido com os fãs dos Beatles. Ser fã dos Beatles não lhe dá a mesma sensação de modinha adolescente que gostar das outras bandas lhe dá. Mas nos 60 era diferente. Lembra do filme Febre de Juventude, que passou 200 vezes na Sessão da Tarde? Era sobre uns garotos fanáticos pelos Beatles que invadiam o hotel da banda. No início há um cara que fala mal dos Beatles…ah, é uma bandinha que copia o som dos roqueiros americanos. Você é aquele cara. Você não gostaria de ser confundido com isto:
http://www.youtube.com/watch?v=3GEAqWhgtpk
Abraço.
Antônio Xerxenesky
21/01/10Olá, leitor. Não vejo motivo para anonimidade, esse tipo de coisa pode dizer na minha cara mesmo. Supondo que eu te conheço, não deixaria de falar contigo só porque tu me acha um babaca. Se eu fizesse isso, perderia 90% dos amigos.
Não acho que sou o tipo que foge das modinhas, porque acompanho muito e gosto de bastante coisa. Sou um leitor de Pitchfork, um cara que escuta Fleet Foxes e The Knife e Owen Pallett. O ataque pessoal meio que perde o sentido considerando isso.
O que eu estava questionando não era isso. Mas vamos com calma.
a) Beatles não entrou na história pelos 3 acordes divertidos, mas sim pelos discos “cabeça”, Revolver &c.
b) Tem razão: não gosto de quem ouve as novas bandas no sentido de “não gosto da cultura hipster”. Acho que é o esvaziamento da contra-cultura, como já disse alhures.
c) Gostei da metáfora inicial sobre Pitágoras e a filosofia, e ela meio que desarmou meu argumento. Meu argumento (do segundo parágrafo do post) era: “abandonem de vez o termo indie rock”. Se não abandonamos o termo “filosofia”, essa verdadeira bagunça… GOOD POINT.
– CONTINUO NO PRÓXIMO COMENTÁRIO.
Antônio Xerxenesky
21/01/10A razão de ser do meu post (e é uma pena que tenha sido eclipsada pela minha crítica ao Vampire Weekend e afins) é o “nada permanece”. O last.fm meio que está aí para provar isso. Yo La Tengo foi esquecido de vez. E a minha teoria é que as novas modinhas também serão esquecidas. E que um fenômeno da proporção dos Beatles é impossível de se repetir. Você, leitor anônimo do blog, concorda ou discorda disso?
Simplicidade (“os 3 acordes”) existia também no “antigo” indie rock em bandas como o Supergrass, e eu achava uma merda. Vampire Weekend, por sinal, me soa como a atualização do Supergrass. Igualmente ruim (para os meus ouvidos). Gosto é que nem cu, cada um tem o seu (blá blá blá).
POR FIM
ACHO QUE NÃO FICOU CLARO, mas a razão de ser do post não é dizer que o “indie dos anos 90–05″ era melhor que o dos “anos >05″ (até porque não concordo necessariamente com isso). Era dizer que nenhum deles vai ficar, que tenho esse medo, que isso me soa assustador.
fran
21/01/10eu acho que o yo la tengo permanece pros que “pegaram” o verdadeiro espírito da coisa, assim como violent femmes sempre vai ficar pros que “pegaram” o espírito da coisa, assim como o arab strap, assim como várias bandas do post-rock ficarão pros verdadeiros apreciadores e etcéteras;
o que acontece é q acessamos e produzimos e compartilhamos e nos interessamos (claro, aquele público de sempre com acesso e meios e interesse de ir além do “disempre”) tão infinitamente mais do que era possível que os meios de disseminação de arte mais amplos (e seus gêneros mutantes) não conseguem ter tempo de CATIVAR cega e dopaminamente os experimentadores.
sei lá
pra mim até damon and naomi ainda faz sentido…
tu sabe que post-rock rocl por exemplo – gênero no qual sou uma novata deslumbradinha daquelas que acha liiiiindo-olho-brilhando tudo o que escuta – eu só comecei a ouvir por que a lastfm foi jogando algumas dessas bandas enquanto eu ouvia uns indies “antigos”…
o que eu acho mesmo mto besta é que pra vencer sempre a corrida do “eu ouvi primeiro” o pessoal não se permite esperar o momento certo pra escutar e aproveitar um disco. mto menos o tempo de degustação necessário. por isso fica tudo tão passageiro. no fim, é o tesão na música tb e vai acabar dominando todas as artes.
até que das cinzas do desespero e do vazio…tvz quem sabe….
Fer
21/01/10É? Sei lá. Eu me classificaria nessa tua categoria de jovem que regulamentarmente (ãi palavra horrorosa) não conheceria o Mogwaii ou o Yo La Tengo, por exemplo. E não é assim de se exagerar, né? Conhece quem quer, quem procura. Além disso, tudo perdura, mesmo que a gente ache que não. Tá tudo aí pra pegar. Tanto que tu achaste o indie rock no fim dos 90 e eu o achei nos noughties e mais um tanto de gente vai o continuar achando. Não te entregues ao pessimismo! Hihi
Breno Kümmel
22/01/10O engraçado de gostar de jazz é estar totalmente, totalmente fora dessa discussão e desse assunto. Tirando Radiohead e Beatles, não conheço nenhum desses nomes.
E quanto a unanimidade dos beatles, tem uma frase do Miles Davis que ele diz algo do tipo “esses moleques deviam aprender a tocar”, mas fiz um search no google e nao achei.
Monique
22/01/10Yo La Tengo? Isso é de comer??
Fabio Fernandes
23/01/10Sensacional esse post, Antônio. Tem tudo a ver com um texto que estou escrevendo agora – para um cara da geração X como eu (entrando agora nos 44) é refrescante ler o ponto de vista de um escritor da tua geração.
Abraços de um cara que amava não os Beatles e os Rolling Stones (ainda que os curta pra caralho), mas The Cure e The Smiths (perdoai este velho que tinha a tua idade nos anos 80!