Elizabeth Costello

elizabeth-costelloEstou terminando a leitura de Elizabeth Costello (2003), livro de ensaios disfarçado de romance do Coetzee, ou melhor, talvez, romance disfarçado de livro de ensaios. Parece indicar para onde o Coetzee seguiria em 2007, com o Diário de um ano ruim (que é admitidamente um livro de ensaios E um romance, separados por um corte de página), e parece sinalizar mais cousas ainda. Que coisas?

Bem, o que leva alguém a ler Elizabeth Costello? Os assuntos mais debatidos nos ensaios são: África, pós-colonialismo, o ensino de humanidades, vegetarianismo. Veja bem, até eu que sou um acadêmico desvairré não consigo muito me interessar por esses assuntos. A graça de Costello está, a princípio, não em ler uma boa história, mas no prazer de ler uma boa argumentação, um encadeamento de idéias. Sim, porque sinto que, em algum momento da carreira, Coetzee olhou para si mesmo e disse: “não sou um escritor de linguagem, nem mesmo um grande narrador, sou um sujeito de idéias”. E então passou a explorar com ainda mais voracidade (porque sempre esteve presente, mas não dessa forma) o gênero ensaístico, e a cultivar esse híbrido entre romance e ensaio.

A grande descoberta Coetzeeana (embora seja perigoso usar a palavra descoberta, visto que eu não li nem um milionésimo dos livros que existem) está em procurar possíveis respostas, reverberações aos seus pensamentos dentro da própria ficção. Nunca lemos um ensaio do Coetzee sem ver naquelas mesmas páginas alguém reagindo ao que Costello (a personagem-palestrante) afirma, algo só factível mesmo nessa mescla de ensaio e ficção.

E é nesse verbo, “afirmar”, que está também outra ruptura Coetzeeana. Coetzee é o escritor que não afirma. Quer dizer, através de sua personagem pode afirmar coisas, mas são idéias sempre discutidas. Coetzee é da geração que nasceu sabendo que não existem verdades únicas. Talvez por isso o símbolo de interrogação seja um dos mais presentes na sua prosa, até em livros como Juventude e Desonra. Um escritor em busca das perguntas certas. Eis um motivo para ler Coetzee.

03/01/10 | Tags: ,


2 comentários em “Elizabeth Costello”


Breno Kümmel

03/01/10

Li Desonra. Pirei. Depois, li Juventude. Pirei. Depois li Life and Times of Michael K, Dusklands, Waiting for the Barbarians, Slow Man, Boyhood e não encontrei nesses o que vi no Desonra e no Juventude. Não sei se também vejo o Coetzee como um escritor de ideias, mas acho que o autor tem acreditado nisso, já que vem investindo nessa mistura de ensaio com ficção…

Ah, e o melhor texto vegetarianista que já li sem dúvida foi “o abatedor” do Isaac Bashevis Singer.

Fraia

03/01/10

>Coetzee é o escritor que não afirma

Quando puder, leia o capítulo “Na mansão de La Mole”, do Mimesis, do Auerbach. Vai ver discutida ali uma possível origem desse “escritor que não afirma”.


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