Microrresenhismo impressionista salvaje

Sempre li muito a nova produção brasileira contemporânea, mas desde que sou considerado um escritor tenho lido mais por um simples motivo: Muitos novos autores me abordam e me enviam uma cópia de seu livro de estreia (que eu geralmente retribuo enviando uma cópia do meu). Eternamente grato a eles, eu fico. Um livro que não é lido é um livro morto, e um que não é discutido é um morto-vivo, e me incomoda que tenha tanta gente lançando e tão pouca gente discutindo. A “falta de massa crítica” que o Barbão apontou. Então decidi a partir de agora aproveitar o espaço do blog e comentar algumas dessas leituras que tenho feito. São comentários sinceros e impressionistas: nada de trabalho crítico para a faculdade ou resenha séria para o jornal. Talvez eu sofra um pouco, sim, daquilo que chamei de condescendência nacional.

capamenino 1) O menino da rosa – Tony Monti (Hedra, 2007)

Esse livro aqui chegou acompanhado de outro, eXato acidente, que ainda não li. Escolhi, dentre os dois, ler O menino da rosa por uma questão de frescura: me desagradou a diagramação do eXato acidente, achei cansativo de ler.

Não sabia o que esperar do livro, não conhecia o trabalho do Tony nem tinha escutado comentários. O menino da rosa é um livro agradável, muito agradável, o que é bom e ruim ao mesmo tempo. Retrato de uma infância inventada (adoro), o livro está algum lugar entre o livro de contos e a novela, e esbanja melancolia infanto-juvenil. Tem seus momentos bonitos, e a leitura é fluída. Porém, falta empolgação, falta TRANSTORNO, para o meu gosto. Não era a proposta do Monti, acredito, e na sua proposta ele sai muito bem: reminiscências ficcionais triste-alegres.

9788560160259 2) Mais ao sul – Paloma Vidal (Língua Geral, 2008)

Aqui o caso foi diferente: eu abordei a autora. Gostei da participação dela na revista online Cuadernos Cecilia, e o meu amigo Rodrigo Maceira, cujo gosto literário é bem parecido com o meu, recomendou muito o trabalho da Paloma. A edição da Língua Geral é muito bonita e funde o caráter artesanal das pequenas editoras com um ar de profissionalismo das grandes. A autora, tecnicamente argentina (embora moradora de São Paulo e escrevinhadora em português), vem paraninfada por graúdos: Noll, Ruffato e a Beatriz Resende. As expectativas, portanto, eram altas.

É um livro irregular (como quase todo livro de contos?), porém quando acerta, acerta. Desde que li o livro (faz mais de mês), vez ou outra, caminhando na rua, me lembro de alguma cena dos contos. O talento da Vidal é muito de atmosfera. Meu conto favorito do livro, Jesus de El Paso, lembrou os contos do Bolaño no Putas Asesinas. Gosto do uso criativo que ela faz da língua espanhola dentro do português, ainda mais porque essa dupla identidade – entre a argentina e a brasileira – é o tema chave do livro. A obra de Vidal abre com um conto mais longo que os outros, de 40 páginas (alguém pode chamar isso de novela), e, na minha opinião, a autora trabalha melhor com uma narrativa mais longa. Acho que ela se daria melhor em um romance do que em um livro de contos. Seja como for, Mais ao sul é uma estréia bem interessante.

capaacaricia3) Acaricia meu sonho – Marcelo Barbão (Amauta Editorial, 2007)

Barbão conheci da mesma forma como conheço muita gente: com ele me corrigindo no twitter porque eu disse algo incorreto. Barbão trabalhou na Amauta Editorial, responsável por traduzir algumas das melhores cabeças latinas para o português.

O livro me desagradou no início, por uma série de frases desajeitadas nos primeiros capítulos. Peguei vício de editor, de querer sublinhas e apontar essas coisinhas. Acho que com um trabalho de editoração mais pesado o livro teria um início muito melhor. Também me incomodou um sentimentalismo exagerado, embora tenha relação com a proposta (o título do livro, assim como os títulos dos capítulos, todos, fazem referência a clássicos do tango). O livro, porém, não é o início: a prosa vai progressivamente envolvendo o leitor, até seu desfecho quase metafísico que obriga repensar tudo que foi lido anteriormente. É essa sacada o maior triunfo do livro, a chave de leitura que altera tudo. Sem ela, seria um livro agradável, com ela, se torna um livro bem interessante. Tenho curiosidade para ver o futuro do Barbão como escritor. O da Paloma Vidal também, e o do Tony Monti também. São, afinal de contas, iniciantes.



3 comentários em “Microrresenhismo impressionista salvaje”


Tibor Moricz

18/11/09

E o Fome?

Antônio Xerxenesky

18/11/09

É o próximo na pilha de leituras, Tibor. ;)

[...] pouco mais de tempo via e-mail, gtalk e twitter) escreveu uma mini-resenha sobre o Acaricia em seu blog. É a famosa “massa crítica” sendo criada aos poucos; já que jornais e revistas não [...]


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