Dilema criativo

É bastate comum em um livro de “short stories” (vulgo contos) norte-americano ter um ensaio no meio do livro [isso em coletâneas criadas a posteriori com textos do autor]¹. Muito menos comum é isso aparecer em um livro brasileiro. Muito raro, inclsuive, é um autor brasileiro se dedicar ao gênero ensaio. O ensaio, aqui no país, fica mais restrito ao ensaio acadêmico, cheio de notas de rodapé e citações a Deleuze. Nada mais distante do ensaio literário, especialmente aquele estilo que eu muito admiro cultivado pelo David Foster Wallace, pelo Coetzee, e pelo John Barth.

Tive uma idéia muito bacana para um ensaio sobre crise da representação e literatura da exaustão e queria colocar no próximo livro de contos. Para dar um ar mais descontraído, cogito fazer um ensaio ficcional a la Coetzee/Vila-Matas.

Muito tiro no pé? O livro não ficaria muito menos acessível para o público leitor se tivesse um ensaio no meio?

Ao mesmo tempo: é um projeto meu, que sairá pela minha editora, com o meu dinheiro (que não retornará tão facilmente depois desse ensaio no meio hehe). Nada mais justo que incluir o ensaio se ele ficar bom e combinar com a unidade do livro (combinará, sim).

Pode parecer um dilema superado, “foda-se o leitor”, dizem os escritores. Mas eu gosto do leitor, gosto de tratar ele bem. E ensaio no meio de livros de contos é um estranho no ninho na literatura brasileira. Talvez por isso seja tão importante colocar ele lá.

Até eu dormir vou ter mudado de idéia só mais 74 vezes.

¹ Thx, Mojids.

09/11/09 | Tags:


13 comentários em “Dilema criativo”


Pellizzari

09/11/09

“É bastate comum em um livro de “short stories” (vulgo contos) norte-americano ter um ensaio no meio do livro”.

Nunca vi isso. Sério.

Antônio Xerxenesky

09/11/09

Ops. Repensei aqui: costumam aparecer em coletâneas de “shorter fiction”. Mas são coletâneas organizadas a posteriori mesmo.

Antônio Xerxenesky

09/11/09

E o Oblivion do DFW não é assim?

Antônio Xerxenesky

09/11/09

Mais bizarro, talvez, seja o caso do “Diary of a bad year” do Coetzee. A parte “de cima” da página são ensaios, as duas partes “de baixo” da página são ficções.

De qualquer forma, parece que o gênero “ensaio” só é praticado na academia no Brasil. Mais raro ver um escritor nacional fazer isso do que um estrangeiro.
E há uma diferença enorme entre o ensaio acadêmico e o ensaio literário.

Antônio Xerxenesky

09/11/09

Outro exemplo, Mojids, “Wild ducks flying backwards”, do Tom Robbins. Mas é uma coletânea a posteriori.

“Selected Literary and Philosophical Writings” do Philip K Dick. Outra a posteriori.

Seria de se pesquisar, mas acho que há casos em Jonathan Swift e Mark Twain.

Pellizzari

09/11/09

Acho que esse teu insight da coletânea é o correto. Leio um número razoável de contistas americanos contemporâneos e, como falei ali em riba, nunca vi nada assim.

(Nem no Oblivion: não entendi essa. Que ensaio tem no Oblivion, seu fumeta? Hahaha)

Antônio Xerxenesky

09/11/09

Rá, consegui confundir o Oblivion com o ASTFINDA. De qualquer forma, acho que o ASTFINDA não tem ficção, tem?
DFW é caso raro. Parece separar muito bem a ficção (Oblivion, IJ, Brief interviews) do ensaio (ASTFINDA, Consider the lobster), mas ao mesmo tempo mescla muito ambos.

Tá, e sobre o tema central do post, ignorando correções à primeira frase?

Pellizzari

09/11/09

Isso, ASFTINDA e CTL contêm apenas não-ficção.

Quanto ao tema central: NÃO LI o resto do post. Fiquei muito transtornado com o início. Vou ler agora.

***

Li.

***

Não me parece uma boa idéia.

Mas eu estou nessa pilha STRAIGHT STORY, então sei lá. Em 2004 imagino que eu diria “VAI LÁ CHECHEVSQ ARREBENTA”.

Pellizzari

09/11/09

As coisas mais SOFISTICADAS que permito me nortearem literariamente no momento são HARUKI MURAKAMI, IRVINE WELSH e COEN BROS.

Chora aí.

hahahah

Pellizzari

09/11/09

(dedo negro com unha, ressaca sem fim. em mais de um sentido)

Samir

10/11/09

Ora, coloca. O pior que pode acontecer é o leitor achar chato e pular pro conto seguinte.

E considere a minha sugestão com Guillermo Arriaga.

Cassy Dias

13/11/09

Achei a idéia muito bacana. Gostei! Afinal de contas, qual a vantagem de se fazer literatura se não se pode fazer aquilo que bem entender? Se todos os escritores seguirem respeitando os mesmos moldes sempre a literatura vai acabar virando puro xerox. E isso é muito chato.

Concordo plenamente com a Cassy…
Agora, eu não consigo entender o que vocês falam, neste e em outros posts….. Ou eu sou muito burro ou vocês estão realmente falando grego…


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