Esse post estava planejado desde a criação do blog. Chegou o momento que muito adiei, mas que é inevitável. Hora de falar dos meus próximos projetos literários. Ou: vida pós-Areia. Como perceberam, há a tag “egocrap” ali para que o leitor identifique o tipo de post e evite.
Logo que publiquei o Areia nos dentes tentei pular para a escrita de um segundo romance, direto, sem escalas. Era uma história no espaço sideral e envolvia um casal de mulheres, o fim do mundo e guerras religiosas. Escrevi umas 20 páginas A4 da obra, que se chamaria O fim do mundo: um resumo. O que fiz com essas 20 páginas? Foram para o lixo, claro. Não só porque estavam medíocres, mas também porque o livro parecia Areia nos dentes 2. Foi nesse momento que ecoou a frase do Philip Glass, “mais importante que um artista encontrar a sua voz é ele perder a sua voz”, i.e., não se repetir ad infinitum, se recriar a cada obra.
Então fiquei uns vários meses sem escrever uma só linha, lendo muito e colhendo idéias. Comecei a escrever um segundo romance, que se passa nos dias de hoje, envolve relacionamentos fracassados, uma intelectual, um bebê morto, a cidade de São Paulo, e muita influência de Coetzee. Após 15 páginas, inscrevi o romance no Funarte (obviamente não ganharei) e batizei (porque fui pressionado a escolher um título para o concurso) o livro-a-ser-escrito de “As malditas perguntas”. Não é um bom título, eu sei.
O que aconteceu com esse romance? Desisti dele? Não, não, nada disso. Só não estou escrevendo ele agora. Por quê? Porque a leitura de três livros¹ me levou a querer escrever, sem parar, contos metaliterários. Escrevi eles por diversão, porque sentia vontade de brincar com isso, e tec-tec-tec, fui escrevendo (ainda estou com uns pela metade). Os contos ficaram bons, na minha opinião. Me considero melhor romancista do que contista, mas ali naquelas linhas tinham coisas bem legais. Em dúvida se publicava ou engavetava os contos, surgiu a Ieve, que procurava um tema para seu PGD (o trabalho de conclusão dos estudantes de design). Ao contrário de nós acadêmicos, a turma do design tem como trabalho final um trabalho de fato. O dela será, então, fazer uma edição luxuosa para meu livrinho de contos (uso o diminutivo porque é realmente pequeno o livro). Capa flexível, fotografias que ela vai tirar especialmente para cada conto, design primoroso, &c, &c.
Penso nesse livro como um EP. Assim como as bandas, nos dias de hoje, entre dois discos completos, com 12 músicas na média, lançam um disquinho curtinho com 4 faixas, entre dois romances, quero lançar esse livro de contos. Quem sabe como acontece com várias bandas, o livro não angaria uns fãs bizarros que vão jurar pelo resto da vida que aquele EP foi a melhor coisa já produzida? (risos) Além do mais, usei aqui o termo EP como metáfora porque EPs geralmente sinalizam a direção que a banda está tomando, conceitos que desenvolverá melhor no próximo LP. Acho que meu livro de contos será bem sintomático do rumo que seguirei no segundo romance.
O plano é que o livro de contos saia pela Não Editora na metade de 2010. O título? Assim que eu definir ele (estou entre 4 opções), comunico aqui.
Eu até gostaria que outra editora bancasse o livro de contos, porque pagar do meu próprio bolso para publicar é sempre arriscado, e nada indica que esse livrinho de contos venderá tão bem quanto meu Areia nos dentes². Mas dificilmente uma editora aceitaria um projeto gráfico de outrem já completo. Então nem vou tentar.
Já meu segundo romance, quando terminar de ser escrito, esse sim, tentarei publicar por outra. Sei que alguns vão me xingar de “vendido”, me acusarão de covarde, etc. E eles tem um mínimo de razão. O problema é que esse lance de “pagar para brincar” é complicado e pouco recompensador. Não dá para fazer isso a vida toda. Existe, claro, a enorme possibilidade de que nenhuma editora grande me publique. Daí talvez seja hora, então, de repensar umas coisas, de cogitar que eu talvez não tenha sido feito para essa tal de literatura. Não falo de deixar de escrever, isso para mim seria impossível, mas escrever para mim e só, talvez liberar os textos online, grátis. Parece um caminho, se tudo der errado. Mas pagar e sofrer para publicar não dá pra se fazer a vida toda. Existe também a possibilidade de que a Não cresça tanto que se torne uma grande editora. Quem apostaria que não?
¹ Os três livros são: Llamadas telefónicas, de Roberto Bolaño (embora eu pudesse mencionar um conto do Gaucho insufrible e outros do Putas asesinas), Exploradores del abismo, de Enrique Vila-Matas, e Sonho interrompido por guilhotina, de Joca Reiners Terron.
² Obrigado a todos que compraram, vocês me fizeram recuperar o investimento. Obrigado pela confiança, espero que o livro tenha dado algo em troca.




14 comentários em “Projetos para o futuro”
sarmatz
05/11/09O conto El Gaucho Insufrible é a melhor resposta/homenagem à Respiração Artificial. Que já era a melhor resposta/homenagem a El Sur.
[Já despachei a mercadoria. Aproveite.]
fran
05/11/09baita bricandeira séria tanto projeto! já te disse que invejo a leveza kantiana dos teus processos né? ahahahahah
Antônio Xerxenesky
05/11/09Oi, Sarmatz! Tem uma análise muito interessante desse conto no Bolaño Salvaje, bem nessa linha que tu propôs. Mas o conto que me inspirou está dentro da coletânea El Gaucho Insufrible, e o nome dele é El Viaje de Álvaro Rousselot.
Fran: “Leveza kantiana dos meus processos”? Opa, boiei! Hahahah.
Eduardo Furbino
05/11/09É uma citação que eu não gostaria de fazer: “Existe, claro, a enorme possibilidade de que nenhuma editora grande me publique. Daí talvez seja hora, então, de repensar umas coisas, de cogitar que eu talvez não tenha sido feito para essa tal de literatura”. Não gostaria de te citar dizendo isso, porque me lembra que eu mesmo me autocito quando falo algo assim.
É mal de quem escreve, pensar essas coisas. E é qualquer coisa entre receio e burrice, também. Mas não é o tipo de desistência que, acho, você precisaria optar por.
E foi bom saber do livro de contos.
Tibor Moricz
05/11/09“Existe, claro, a enorme possibilidade de que nenhuma editora grande me publique”
Nunca pensei assim. Continuo achando que é só uma questão de tempo. Pra mim e pra você. E pra muitos outros igualmente confiantes (e talentosos), também.
Adriana
05/11/09Ora, não se menospreze…vc tem talento, a questão é achar um editora pra publicá-lo, caso contrário, publique pela sua, e angarie fãs começando pelo blog…eu ,por exemplo, tenho vontade de comprar seu livro, se achar na feira do livro, compro.
Antônio Xerxenesky
05/11/09Gente, não é menosprezo, heheh. Já recebi convites das grandes para “mostrar o original” quando estiver pronto. Só preciso me esforçar muito, escrever algo Bom e torcer para que seja aprovado.
O que eu quis dizer é que existe chance, claro, de tudo dar errado. E que não dá para bancar a própria edição a vida toda, só isso. E se enfim, der errado, será momento para repensar.
De resto, Adriana, o meu livro se encontra na banca Palmarinca, Terceiro Mundo, Besouro Box e Livraria do Maneco lá na Feira.
Delfin
05/11/09A ideia do EP é legal. A gente fez isso na K para testar o potencial dos nossos novos autores na época (Estevão Azevedo, que concorreu agora ao Prêmio SP), Breno Kümmel (que você conhece) e André Setti (nossa primeira investida em poesia). Chamamos de Coleção Compacto, por causa dos discos de vinil pequenos que tinham a mesma função de um EP no Brasil. Só não saíram mais porque a K entrou em hibernação antes disso. O investimento é pouco e compensaria se autoeditar.
Eu particularmente ia achar muito legal se você fizesse pela Não. Tenho certeza que a editora melhoraria o conceito EP/Compacto.
Antônio Xerxenesky
05/11/09Oi Delfin! Conheço a Coleção Compacto sim… Aqui usei o termo “EP” só como metáfora mesmo, para dizer que entre duas narrativas longas vou publicar um livrinho curto de narrativas breves. Usei a metáfora também (embora não tenha desenvolvido no post) porque EPs costumam indicar a direção que uma banda está tomando e que desenvolverá no próximo LP. Acho que esse livro de contos funcionará assim também.
Hmm, acho que vou updatear o post com esse dado. hehe.
Laura Assis
05/11/09Sonho interrompido por guilhotina = livro recente que já é um clássico das metas (literatura/ficção/narrativa).
Fiquei curiosa com o que ia acontecer com o casal de mulheres em meio a conflitos religiosos no espaço sideral. Tinha zumbi? lol
Aguardando os contos então =)
Antônio Xerxenesky
05/11/09Laura: o conflito que eu imaginava para as lésbicas será trasnferido para esse meu romance. Só que agora vai ser um casal hetero, porque bem, não me arrisco a tentar escrever sobre as dinâmicas de um relacionamento homossexual entre mulheres, assunto do qual sei muito pouco, heheh.
Paula
06/11/09Antônio, faz uma eleição no site pro pessoal escolher entre os 4 títulos. =p
Espero ansiosamente o próximo livro. E sim: o Areia foi de grande valia.
Adriana
06/11/09Valeu as dicas. Vou procurá-lo.Depois que ler posto minhas percepções.
mari messias
07/11/09Bora repensar a auto-estima, Xerxes.