O livro Bartleby & Companhia (Anagrama, 2001; CosacNaify, 2005), do catalão Enrique Vila-Matas, monta um verdadeiro compêndio dos “escritores do Não”, gente que, por um motivo ou outro, deixou de escrever. Misturando pessoas de verdade com gente de mentirinha, livros que existiram com outros que não, e histórias/argumentos/especulações que só são possíveis através de um narrador de um livro de ficção, Vila-Matas cataloga os motivos que levam alguém a deixar de escrever.
Como já faz uns três anos que li o livro, não lembro muito bem qual escritor vira um “escritor do Não” por qual motivo. Mas o motivo que mais me chocou foram aqueles que abandonaram a literatura porque nunca se recuperaram após a escritura de uma obra-prima.
Por quê? Bem, porque eu sempre penso nisso no mundo da música. Os exemplos abundam: desde o surto que o Brian Wilson teve nas sessões de gravação do Smile original, pós-Pet Sounds. Como ele ia compor algo que superasse o Pet Sounds? A pressão levou ao piripaque. E eis Brian Wilson gigante de gordo, trancado no seu quarto, se alimentando de milk shakes. Fast-forward para 1991, e temos nosso Brian Wilson moderno. Kevin Shields, líder do My Bloody Valentine, maior exponte do shoegaze (vulgo, ruído alto e alegre-tristonho produzido por gente tímida), após lançar o disco que foi considerado instaneamente um clássico, Loveless, pirou na batatinha, acabou a banda, virou recluso, como Brian Wilson se trancou no quarto, engordou e… bem, começou a criar chinchillas. Muitas chinchillas.
Nada é tão simples assim. “Obra-primas”, eu digo, mas pra quem? Para a crítica? O Bruno Galera sempre preferiu o Isn’t anything ao Loveless. Para muita gente, o Pet sounds está longe de ser o melhor disco dos Beach Boys. Mas, para mim, são todas obras que representam uma grande mudança no paradigma anterior da banda. São discos que se destacam, que são diferentes, e todos tem uma violência estética de intensidade desmedida.
Eu poderia prosseguir com exemplos, poderia falar do fim do Sleater-Kinney após o disco que desconstrói e reconstrói todo o rock clássico, o ruidoso ao extremo The woods. A desculpa que a banda deu foi que uma das garotas saiu da banda para cuidar do filho. Eu, na minha paranóia de rastreador de Bartlebys, desconfio. Isso sem mencionar o Jeff Mangum, do Neutral Milk Hotel.
Quais são as razões? Pressão por parte da crítica? Pressão que eles mesmo se impõem? Será que nunca mais conseguiriam produzir outra obra naquela altura e pareça melhor desaparecer do que continuar produzindo mediocridade? Lembro de Dario Argento e outros artistas que não souberam envelhecer. Será isso? Ou será a violência estética? Penso em Raduan Nassar, o bartleby brasileiro que não consta na enciclopédia do Vila-Matas. Deve acontecer algo com a pessoa após uma experiência tão desgastante. Algo. Mas o quê?




4 comentários em “Os bartlebys da perfeição”
Antônio Xerxenesky
03/11/09Seria o plural de Bartleby “Bartlebies”? Ou não? É um nome próprio, sugado do Melville, não um substantivo comum. Hmm.
(usando os comentários como nota de rodapé)
Marina Melz
03/11/09Continuar gênio é bem mais difícil que se tornar um. Seja lá por qual motivo for – pressão, aumento da expectativa, bons parâmetros.
Gabriel Pardal
05/11/09Quando fizeram a clássica pergunta para os Mamonas Assassinas, se o segundo disco superaria o primeiro, Dinho, sempre sagaz respondeu que o primeiro na verdade era o segundo, e que o segundo seria o primeiro. Infelizmente morreram. Tese não comprovada. Mas ainda assim, uma boa respota.
mari messias
07/11/09bah, cobicei profundamente ler
sounds very nice bagaray