Expectativa é a maior merda. O cinema de ficção-científica dessa década não foi muito forte, isso é bastante consenso, até mesmo em número de filmes. A década de 00 não teve nenhum Alien, nenhum Blade Runner, nenhum Star Wars, nenhum 2001: uma odisséia no espaço, nenhum Matrix. Por isso, logo que surgiu Distrito 9, os críticos se apressaram a apontar ali a “salvação da ficção-científica”, o melhor filme do gênero a sair nos últimos anos. Eu, que sou entusiasta de vários sci-fi da década, como Serenity (faroeste + espaçonaves!), Cloverfield, Sunshine e Filhos da esperança, fiquei bastante animado com Distrito 9. “Poxa, deve ser melhor que todos esses”. Produzido pelo Peter “Fome animal” Jackson, deve estar em boas mãos o filme. Expectativa é a maior merda, eu já disse.
O mundo deve estar exausto de tantos blockbusters estúpidos, deve ter chegado no limite de idiotice após Transformers 2. É a única explicação para um filme com bastante conteúdo ser visto como revolucionário. É isso que Distrito 9 tem, uma boa história, uma boa alegoria, sem cair para excessos multiculturalistas, sem mensagens de tolerância forçadas, nem nada. É uma boa alegoria, bem contada. Lembra Inimigo meu, da década de 80. Apartheid versão alienígena, alienígenas como metáfora para cultura que não compreendemos e automaticamente julgamos inferior, que buscamos maneiras de subjugar e explorar, quando no fim temos muito o que aprender com ela. Se pensarmos em escala maior da ficção-científica, pensar o gênero também em termos de literatura, se observa que o tema não é tão raridade assim, não para quem já leu muito Ray Bradbury.
Mas o problema não está aí. O problema está que Neill Blomkamp, diretor de Distrito 9, não tem olho. Seu filme é esteticamente nulo, seus planos não comunicam nada. Suas imagens não tem nenhuma marca autoral: há várias tomadas que poderiam muito bem ser confundidas com uma do Michael Bay (que, por sinal, tem uma assinatura autoral bastante forte). O uso de câmeras de segurança às vezes beira o aleatório, o cineasta não conta a história através das imagens.
O recurso do mockumentary é um fracasso porque não é levado às últimas consequências (como Cloverfield, radical ao extremo na pós-mudernage ao se apresentar como fita encontrada na filmadora, com todas as partes pré-gravadas ressurgindo em momentos chaves). Blomkamp alterna o formato documentário-falso (com direito a câmeras de segurança) com o “narrador onisciente” que é a câmera-padrão Blomkamp. Em Cloverfield tudo era uma questão de o que mostrar, o que enquadrar, “como enquadrar o horror”, “como filmar um monstro transparente” (alegoria bastante óbvia do terrorismo, também), e o mais importante nunca era mostrado, a câmera era abandonada no chão, só se podia imaginar o que acontecia. Blomkamp, por outro lado, esquece de vez em quando que está fazendo cinema em Distrito 9, e que cinema é imagem.
O que não quer dizer que Distrito 9 seja ruim. É um sci-fi divertidíssimo, com uma mensagem bonitinha, um enredo bacana, um ator muito engraçado e carismático. O problema é a merda da expectativa. Cadê a revolução que me prometeram? Só ética, sem estética, não há revolução possível.




7 comentários em “Distrito 9 (District 9, 2009)”
James Grebmops
19/10/09Gostei da crítica. O cinema está sempre beirando a salvação, e toda semana chega um pra salvar qualquer gênero que seja. Mas talvez o caminho não seja querer salvar nada e nem mesmo pensar em gêneros. Muito menos com filmes-panfleto ou filmes-ideia sem a especificidade estética do meio. Entre filmes clipe, filmes blog, filmes TV doc/mockumentary, prefiro o filme-filme.
Antônio Xerxenesky
19/10/09Grebmops! Preciso confessar que fiquei muito alegre que tu gostou da crítica. Por quê? Oras, porque tu sempre foi o mais crítico com minhas críticas. Talvez nessa eu tenha finalmente acertado o tom.
Quanto ao resto do comentário, sou bem aberto com gente que tenta fugir do filme-filme, mas a chance de dar errado é maior. Filme-clipe é quase sempre um desastre, nada pior que um cineasta videoclipeiro, como o McG.
Davi OP
20/10/09Estou adiando minha visita ao “Distrito 9″. Assistindo isso, esta semana: http://www.cineesquemanovo.org/versao2009/programacao.php?mostra=MZL
Breno Kümmel
20/10/09Achei Filhos da Esperança sensacional. E Sunshine vale pelos minutos finais.
Tibor Moricz
20/10/09Pretendia assistir hoje, já que baixei versão pirata no torrent. Mas acho que vou protelar e assistir Harry Potter, esse, sim, diversão garantida…:)
Fernando
23/10/09Acho que só o fato de fazer os aliens visitando um gueto da África e não uma “Los Angeles” ou “Nova York” já chama atenção.
Ainda não assisti a esse filme… confesso que estou tentando não se empolgar com essa tal expectativa.
Tom
26/10/09Ficção tem que fazer você acreditar que aquilo que estou vendo po ser real um dia. D-9 beirou o ridículo. Não vá com expectativas. O diretor tinha uma boa e história e a transformou numa bela palhaçada.