A história do capítulo perdido

Um dos segredos mais bem guardados da Não Editora será enfim revelado.TCHÃRÃÃ. Cof, cof, voz de narrador de trailer.

Era abril de 2008, correria para publicar o terceiro livro que saía, o meu Areia nos dentes. Rosp na quinta revisão… enviamos tudo para o Samir, ele nos repassa a parte interna do livro já diagramada, tudo lindão, mandamos logo para a gráfica para dar tempo de divulgar direito…

As caixas de livros são entregues na minha casa. Abro meu livro, acaricio ele, cheiro, abraço o coitado… folheio uma página, outra, olho a mudança de partes… e descubro que está faltando um capítulo.

Não preciso dizer que meu coração saltou pra fora, né? Conferi que não estava louco, fui correndo até o computador reler o capítulo. Olhei as caixas, aquele montão de caixas, 800 exemplares do livro, todos sem o último capítulo da Parte 1. Merda, eu pensei. Li o capítulo anterior ao desaparecido. Li o posterior. Li, no computador, o sumido.

Ufa. Não era imprescindível. Era um micro-capítulo de um só parágrafo. Dava para entender o livro ainda, sem ele. Três horas depois, consegui parar de tremer. Ficava repetindo: só um parágrafo, dá pra entender, ficou até melhor assim…

O segredo do capítulo sumido foi mantido a dezoito chaves porque tínhamos medo que pensariam coisas erradas da editora. “Bando de amadores!”, “Não quero publicar com vocês, vocês perdem capítulos!”, &c e tal. Mas, agora, estamos tão mais confiantes no nosso trabalho, tão certos de que não engoliremos mais capítulos, que o segredo pode finalmente ser revelado.

Na verdade, o desejo de revelar veio de uma entrevista amalucada que eu e o Samir demos hoje na Rádio da UFRGS, onde falamos de tudo, bem desvairados. Samir mencionou o capítulo obliterado e eu prometi para os ouvintes da rádio (haha) que postaria o tal micro-capítulo sumido hoje no blog.

Não deixa de ser interessante: adiciona uma nova camada de metalinguagem. Veja bem, se o narrador-personagem do Areia nos dentes não é confiável, erra, se perde, seu computador é invadido por um vírus e um capítulo é perdido, acaba sendo extremamente irônico que a vida real tenha feito uma dessas, que a Editora também se revelou não-confiável, e que a narrativa foi alterada por causa disso. Interessante, no mínimo. Alô, teóricos da literatura?

Vamos ao capítulo. Antes, contextualização. O capítulo entraria no final da parte 1, como encerramento, seria a página 84 do livro. É um capítulo curtíssimo que EXPLICA o capítulo anterior, que termina com equívocos de digitação (”índhio”, “flehcas”). Tem gente que leu o livro e pensou que eram falhas na revisão, porque o capítulo que explicava aqueles erros é esse, o desaparecido. O capítulo (que é curtíssimo, por sinal, o menor do livro disparado) também voltava a narrativa ao tempo presente no D.F. mexicano e preparava o leitor para a segunda parte, com a chegada do filho do narrador.

Sem mais, segue abaixo o capítulo desaparecido:

“DEUS DO CÉU.  Esse último copo de tequila me devastou. Acordo desmaiado sobre a máquina de escrever. Puxo o papel. Tudo escrito errado, que vergonha. Letras duplicadas. “Índhio”. Não, bebida e literatura não combinam tão bem assim. No banheiro, me ajoelho no chão para vomitar um pouco, aliviar o estômago que está em rebuliço. Ao puxar a descarga, quase perco de escutar a campainha soando. Lembro então que aguardava a chegada do meu filho.”

15/10/09 | Tags: ,


15 comentários em “A história do capítulo perdido”


Samir

15/10/09

Eu até hoje não sei como esse capítulo desapareceu da diagramação. Pelo menos não foi nada que justificasse um recall.

Mas olha, podia ser pior. Teve Grande Editora que publicou livro best-seller com trechos de outro livro nada a ver no meio.

Tibor Moricz

15/10/09

Considerei os erros em ”índhio” e “flehcas” propositais na narrativa. Não acreditei que pudessem sair incólumes na publicação…rs

Pellizzari

15/10/09

Muitas vezes o acaso é o maior editor. Outra prova.

Eduardo Nunes

15/10/09

Como um dos entrevistadores do tal programa de rádio, dou testemunho de que o relato é real e não uma jogada de marketing do Xerxes pra bombar as vendas de futura “segunda edição revista” de Areia nos Dentes.

Ou será que era uma jogada de marketing o tempo inteiro e esse patife nos enrolou?

Well, adorei a entrevista, em todo caso.

Pedro Fraga

15/10/09

Achei que ficou melhor sem ele, mesmo.

firpo

16/10/09

Ah, agora entendi o livro. : )

Breno Kümmel

16/10/09

Na segunda edição do “Essa maldita farinha” do Rubens Figueiredo (da record, com capa preta, daquela “coleção negra”) teve uma página que saiu em branco. O texto continuava certinho na seguinte, nada foi comido. Simplesmente pularam uma página. O texto anterior parava numa descoberta de uma folha em branco. Hah.

Laura Assis

16/10/09

“o relato é real e não uma jogada de marketing do Xerxes pra bombar as vendas de futura “segunda edição revista” de Areia nos Dentes.”

DUVIDO lol

No mais, esse pseudo-capítulo, tendo existido ou não, não fez falta. Quem não entendeu o “índhio” e “flehcas” não entendeu o lance maior do livro, que é o questionamento da própria narrativa. =)

anamargarites

20/10/09

também prefiro sem o microcapítulo desaparecido :)

Träsel

21/10/09

Foi o melhor que poderia ter te acontecido. Capítulo totalmente desnecessário para a compreensão do livro.

Delfin

22/10/09

Antonio, explicar demais às vezes é demais. Concordo com o Mojo 100%.

Eric

24/10/09

Na segunda edição você pode falar: incluindo capítulo inédito… =p Abs!

Antônio Xerxenesky

24/10/09

Eric: se algum dia tiver uma segunda edição (não duvido, não falta muuuito para esgotar) com certeza farei uma segunda versão levemente expandida, mas esse capítulo inédito eu aprendi com os comentários, não coloco de jeito nenhum! Abração.

Adriana

25/10/09

Fiquei louca para ler teu livro a partir da crítica da copa de literatura. Pelo micro capítulo q li aqui, gostei.

[...] na comprensão da trama e prova que Xerxenesky é tão confiável quanto Juan, como ele mesmo conta neste post do seu blogue). “Não tem como ser ruim” Areia nos Dentes traz muitos dos deliciosos clichês que [...]


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