Condescendência nacional

Escreve Michel Laub nesse post aqui (embora eu sugira também a leitura desse aqui):

“Ao contrário do que diz o senso comum, tudo o que o escritor quer é gostar dos livros dos seus colegas. Esse é um dos motivos por que sua leitura nunca terá a mesma isenção da que faz o crítico descompromissado ou o público: frase a frase, parágrafo a parágrafo ele torce para que o texto lhe diga alguma coisa, para que ele não precise experimentar a sensação auto-corrosiva de vergonha ao elogiar o autor seu amigo no bar.”

É um post que eu já tinha lido faz tempo, mas que veio a se somar com algumas coisas que eu vinha pensando, graças a uma discussão em uma comunidade de orkut e a um livro que li recentemente de um escritor graúdo aqui do país.

Laub acertou em cheio (na verdade acertou em todas as suas outras “verdades”). Escritores estrangeiros eu sempre começo lendo com ceticismo, sou particularmente cruel com suas falhas, espero que eles me conquistem. Agora um livro de um brasileiro já começo querendo gostar, até porque o mundo das letras brasileiras é tão pequeno que as chances de um dia eu me encontrar em um bar com o autor em questão é bem grande. E, de fato, perdoamos muito mais os erros em um autor brasileiro. Não apenas nós, escritores, os críticos também. Já vi os principais críticos do país passando a mão na cabeça de livros péssimos que todos, inclusive os escritores, assim que tinham a chance, detonavam.

Lembro que em uma entrevista o Bernardo Carvalho¹ disse que, na época que escrevia resenhas, só escrevia sobre os livros que gostava. Dos que não gostava era melhor ficar quieto, atacar ia dar muita dor de cabeça. O problema é que os escritores novos ficavam buzinando na orelha do B.C., “pô, por que tu não escreveu nada sobre meu livro no jornal?”.

A política do Bernardo é a mesma que a minha, com a diferença que minhas opiniões não saem no jornal, no máximo em uma mesa de café ou, agora, nesse blog. Se eu gosto vou elogiar sim, sem dúvida. O que é bom deve ser compartilhado. O problema é que se algo desagradou, ih, melhor cuidar as palavras. Quando é amigo até vai: lembro que não gostei de um punhado de coisas no Cordilheira e troquei alguns e-mails quilométricos com o Galera discutindo ponto-a-ponto. Agora quando você não tem a menor relação, publicar algo negativo é o maior tiro no pé que pode existir. Para quem é escritor, você está fechando uma dúzia de portas com isso. Para quem é crítico profissional, está perdendo a chance de ganhar dinheiro com mais críticas (as portas se fecham também). O único realmente livre é o leitor. Mas no Brasil quem mais lê literatura contemporânea brasileira ou é escritor ou é crítico (pelo menos no RS), então não temos quase leitores livres.

Esse passar a mão na cabeça pode ser agradável quando você é o objeto do afago (e eu confirmo: é muito agradável sim), mas vendo a cena de fora é de se lamentar que o Brasil não tenha, como o mundo hispano-hablante uma “massa crítica”. Foi sobre isso que conversei, a última vez que estive em Buenos Aires, com o escritor e tradutor Barbão². Um livro publicado aqui é recebido muito diferentemente do que lá. Lançando na Argentina é certo que seu livro será discutido, analisado, que terá defensores e detratores, enfim: “massa crítica”, como ele disse. Lá um suplemento literário é vendido nas bancas aos sábados e esgota em poucas horas. Tem que correr para comprar.

Conversando com a Carol sobre isso (não sobre isso “isso”, sobre o tema geral desse post) por gTalk, ela apresentou um argumento interessante: lemos os autores estrangeiros com dureza porque os que chegaram até nós já possuíam algum nível de reconhecimento (senão nem teriam chegado até nós), por isso somos mais críticos com eles. Os brasileiros, por outro lado, chegam virgens até nós. Ninguém sabe ainda quem presta ou não, quem vai ficar ou quem vai sumir. Verdade, Carol, verdade.

Então, o que fazemos de tudo isso? Eu não faço idéia.

¹ Como sempre estou parafraseando sem consultar a fonte. Minha única base é a minha memória, e ela não é lá muito confiável.

² Barbão fundou a Editora Amauta quando morava aqui, que publicava gente do mundo hispano-hablante no Brasil. Acho que ele sabe do que fala, portanto.



5 comentários em “Condescendência nacional”


andreis

13/10/09

eu nem acho que nossa ficção seja tão ruim, pesando as coisas. a nossa crítica que é uma palhaçada, torna td mais difícil.

Carmencita

13/10/09

A vantagem dos livros brasileiros é que os erros de português são totalmente autênticos. Erros brasileiros da gema. Encontro algum e logo jogo o livro num canto. Ou no lixo.

Laub é um nome espaçoso. Significa fronde em alemão. Aliás, em alemão, por exemplo, raramente se encontram erros nos livros beletrísticos. Se os encontrar, são meramente de impressão ou digitação. Talvez não haja tanto coisa interessante para ler, dependendo do ponto de vista, mas quase não há erros nos códigos padrões universalmente aceitos da escrita.

E por falar em livros, eu nunca li nem ouvi nada de você a respeito do que eu escrevo, do que eu publico.

Antônio Xerxenesky

13/10/09

Eu não li uma linha do que tu escreveu, Carmencita. E nunca me importo com erros de português porque cometo um a cada 10 linhas. Sempre que envolve publicação no papel um revisor é contratado e tudo se resolve.

Tibor Moricz

13/10/09

Está autorizado a desancar publicamente o Fome, se achar que deve. Não vou querer tratamento diferente para mim, do que dou aos outros.

Carmencita

13/10/09

Se não leu, foi porque não quis.

Às vezes, mesmo havendo revisor, não há revisão no verdadeiro sentido da palavra, da frase em si.


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