Rapidíssimas (IV)

25/07/10 | Tags:

Sumi, é, sumi. Estou devendo três textos para o mestrado, um artigo para um jornal, um conto para uma coletânea, um conto para meu livro de contos (que eu achava que estava mais ou menos pronto, mas que não pára de crescer), e daí não sobra nenhuma idéia para o blog. Estar com Mass Effect 2 instalado também não ajuda.

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Um pouco de egopress (cf. Miguel L’aube): na revista Norte, distribuída de graça em pontos culturais de POA, Curitiba, São Paulo e alguns outros lugares, tem um conto inédito meu. Saiu uma entrevista minha no Artilharia Cultural.

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Dois hits de entrada ao meu blog foram com o search “crepúsculo não forma leitores”. Alguém querendo ver sua tese confirmada. Juremir M. da S. uma vez disse que “Harry Potter só forma futuros leitores de Paulo Coelho”. Eu não sou tão radical. Tenho consciência, claro, de que toda essa massa de leitores de fantasia não necessariamente procurará uma literatura mais “exigente” no futuro. Por outro lado, sei que ler não é só interpretar, mas também o trabalho de isolar-se da televisão, da internet, do celular, sentar a bunda numa cadeira e ler. Aprender a ler não passa apenas por “entender e interpretar”. É um exercício “manual”, eu diria, se usasse mãos. Tem uma parcela de exercício: uma palavra depois da outra, uma linha depois da outra. Quanto mais se lê, mais se lê. Sem distrações. Há algo de aprendizagem da solidão. Você precisa ficar sozinho com o livro para então descobrir que acompanhado de um livro você nunca está sozinho.



1) Joca Terron, nos 7 anos da morte de Bolaño, traduziu o “Dicionário Bolaño” aqui, que é uma das melhores coisas que já li sobre o chileno. Confie em mim, eu já li muitas coisas sobre ele. É particularmente interessante porque esse dicionário acaba de vez com aquela visão que alguns tem do Bôla de típico latino esquerdista que só escreve sobre ditadura, visão geralmente causada pela leitura exclusiva de Amuleto e Detetives Selvagens.

2) Joca Terron lançou meu livro favorito até agora do projeto “Amores Expressos”. Seu “Agito no Egito”, agora conhecido como “Do fundo do poço se vê a lua”, me conquistou pelo narrador(a), pela prosa convincente deste. É raro unir lirismo e verossimilhança. Wilson/Cleópatra fez isso. Mas o que mais me agradou mesmo foi o primeiro capítulo, negócio de mestre. Lança trinta mil informações, todas incompletas. Ou seja: instiga o leitor ao limite. O leitor precisa saber mais, um pouco mais, de tudo, de todos os aspectos e fios que se abriram no início. O romance perde um pouco de fôlego no meio, mas a conclusão satisfatória nos faz esquecer disso (e também de alguns “fins de capítulo” meio bregas).

Alan Pauls disse, recentemente, que “o fim do romance” se tornou um gênero do romance. Terron, de certa forma, faz um livro sobre como não é possível falar mais nada de novo sobre o tema do duplo. Ao terminar a leitura do romance, porém, o leitor sai com a certeza de que “Do fundo do poço se vê a lua” encontrou algo novo, nem que seja um discurso sobre o “fim do duplo”. É um livro que merece uma releitura, uma análise minuciosa, e é por isso que eu o saúdo com tanta empolgação.



Simbiose

06/07/10 | Tags:

a) Quero falar da HQ “Cachalote”, de D. Galera e R. Coutinho. Não brincarei de resenha porque sempre surge um mala gritando “amiguinho mimimi”, mesmo quando eu tenho um longo histórico de dizer, sem receios, que não gostei quando, de fato, não gostei.

b) É interessante ver como o estilo do Galera é observável não apenas no texto, mas nos desenhos. Uma breve cena numa agência publicitária (ou seria uma produtora de cinema? – agora bateu a dúvida) podemos ver as descrições Galereanas na imagem, não só no texto.

c) Seria muito idiota, porém, pensar que DG escreveu o roteiro, com diálogos e descrições, e que Coutinho simplesmente “adaptou” o texto.

d) A impressão que passa é que o trabalho a quatro mãos foi de profunda simbiose. Rola uma “iluminação recíproca das artes”. O traço de Coutinho, o preto sobrecarregado em certas partes, como se deixassem cair um frasco de nanquim numa parte do quadro, diz muito sobre o texto do Galera. Mais do que “combinar com ele”, revela cantos obscuros.

e) Da mesma forma, é fácil ver como Coutinho, que também segue seu estilo, parece ganhar com a interação. Falei mais do “lado” do Galera porque entendo mais da questão textual do que da questão gráfica, mas reforço: é recíproco.

f) Terminando “Cachalote”, se sai com a sensação de que aquilo foi um esforço colaborativo que deu muito certo. Olhando a foto dos dois no jornal, quase pensamos que Galera e Coutinho são gêmeos ou döppelgangers, William e Wilson. Um desenhista diferente poderia ter cagado tudo e vice-versa. Ainda bem para nós, leitores, que os sósias se encontraram.



a) A reclamação mais comum entre escritores é, sem dúvida, a falta de um público leitor. No entanto, estatísticas (sempre elas) mostram que nunca se leu tanto no país, no mundo. A pergunta que fica: mas o que exatamente estão lendo? E os autores complementam: literatura brasileira contemporânea que não.

b) Porém, quando pessoas comentam que “ninguém lê nesse país”, não se referem à “nova literatura brasileira”, mas à literatura de modo geral, creio, e é esse o foco do meu post (esqueçam autores brasileiros).

c) Um dos argumentos usados é que “no Brasil, o preço do livro é muito caro”. Vou me deter um pouco mais nesse ponto. Primeiro: quem disse que as pessoas não tem dinheiro para comprar livro? Olhem ao redor: chevettes tunados com rodas cromadas, Nikes espalhafatosos, celulares com trinta mil funções. Não é apenas a classe média que está comprando esses produtos. Nananinanão. A classe média-baixa e até a classe baixa tem sido vorazes consumidores de supérfluos da linha tecnológica (e estética). Sabem quanto custa para rebaixar um carro? O suficiente para comprar váários livros. Claro, surge o inteligente contra-argumento de que “de qualquer forma, 50 reais por um livro ainda parece um roubo” e também que “na Europa e nos EUA sai muito menos”. Em primeiro lugar, o custo de produção de um livro é menor para eles: papel sai mais barato, é impresso lá longe, explorando mão-de-obra barata, e, no caso dos EUA em si, só 1% dos livros publicados são traduções, ou seja, não há gasto com tradutor (que é das coisas que mais encarecem o livro). Isso porém, é só blábláblá perto do centro da questão: os livros saem mais baratos lá porque tem público leitor. As tiragens são muito maiores que as brasileiras. Tendo leitores (vulgo: mercado) de sobra, é fácil baixar o preço do livro.

d) Tratando das políticas de incentivo à leitura, acho que tem muitos equívocos na área. Em primeiro lugar, a idéia de que todo mundo deveria ler livros, uma idéia estapafúrdia. Quem não lê livros talvez seja muito mais feliz do que quem lê. Ler livros não traz nenhuma vantagem material ou simbólica, não iludam os não-leitores.

e) Por outro lado, o incentivo à leitura é importante para descobrir leitores em potencial, que não teriam acesso ao livro se não fosse por esse incentivo. Ler não é algo natural, exceto se os pais estão sempre lendo e a criança se habitua desde cedo com isso. Uma raridade no contexto atual, acredito. Pessoas com “vocação de leitor” (existe isso, em algum nível, creio, nem que seja no “prazer de ficar sozinho” e “tendência a introspecção”) podem se descobrir leitoras através de programas de incentivo.

f) “Ler livros não traz nenhuma vantagem material ou simbólica, não iludam os não-leitores”, eu disse no ponto d). Se tem algo que me irrita nessa história de leitores/não-leitores/o escambau, é que muita gente lê para “extrair algo do livro”. Não só auto-ajuda e “A arte da guerra para executivos”. Estou falando de fenômenos como a explosão de livros que se passam no oriente médio, que daí a pessoa lê para “ficar informada”, “compreender melhor a situação política”, e outros zzz. Esse leitor utilitarista (utilitarismo é a palavra-chave) nunca será um leitor de ficção fora dos bestsellers. Nunca.

g) Alguém criticou o acompanhamento que a Cia das Letras fez da HQ “Cachalote” no seu blog, dizendo que era um tratamento de Revista Caras. Rapaz, quem fez a crítica deve ser uma pessoa que reclama que não existem leitores. Que bom que estão fotografando os autores e mostrando sucesso.  Aproxima a literatura do mundo, coloca lançamento de livros como algo massa de se ir, espetaculariza um pouco o ofício.  Não há nada de errado nisso (desde que escritores não se deixem levar pelo ego e etc. e blábláblá). Lembro de comentário de Ítalo Ogliari para platéia de alunos do EJA: “as pessoas deveriam falar de livros da mesma maneira como recomendam um filme para uma pessoa: tu precisa ler isso aqui, é do caralho!”. Acho que atitudes como essa da Cia. meio que funcionam nessa linha. Gente se divertindo num lançamento. Fim. (o blog da Cia ainda tem outros mil acertos, especialmente ao dar voz aos editores e mostrá-los como pessoas de carne e osso – mas isso é assunto para outro post).

h) Voltando ao tópico de incentivo a leitura: nada mata mais leitores em potencial do que o ensino de literatura no colégio. Nada. Crianças obrigadas a ler Camões na 8ª série: não vai dar certo, nunca. Raríssimos professores de extremo talento conseguiriam levar isso adiante, fazer do currículo de clássicos brasileiros algo proveitoso. A grande maioria é incapaz. Tem que se mudar todo o ensino de literatura ou apenas jogá-lo pela janela.

i) Voltando ao d), a idéia de que todo mundo deveria ler livros. Puah. As pessoas não precisam de literatura para sobreviver. Talvez elas precisem de narrativas, e essas elas podem conseguir no cinema, no gibi, na televisão, no videogame. A literatura é apenas uma forma de narrar, uma dentre muitas possíveis, e ela não tem um lugarzinho sagrado e privilegiado na hierarquia.

j) Acho que é mais ou menos isso. Posso – devo – estar errado em muitos desses pontos, e sei que os (meus) leitores logo apontarão muitos desses erros.



Narrativas de testemunho

23/06/10 | Tags:

Minha colega de mestrado, Vivian Nickel, trabalha com “estudos de trauma” e “narrativas de testemunho”. Hoje, ela apresentou parte da pesquisa dela e mostrou um site da Yale que compila vídeos de alguns testemunhos. Essa linha estuda narrativas (literárias ou não) onde o próprio narrar é usado para tentar superar (ou melhor: conviver com) um trauma (geralmente associado a guerras, violência etc.). Ela exibiu os três minutos finais (de 10:00 em diante) do vídeo linkado mais abaixo para a turma. Nossa. Terrivelmente impressionante.

O holocausto já foi tão trabalhado e retrabalhado e abusado pela ficção e pelo cinema, que a primeira coisa a se pensar é que não há nada mais a se dizer sobre o tema. A narrativa do sobrevivente abaixo é concluída com uma reflexão sobre a linguagem (trecho que ela nos mostrou), que basicamente diz que todas representações sempre fracassarão, que é impossível narrar. A nossa linguagem simplesmente não dá conta da experiência.

http://www.youtube.com/watch?v=SFr7GiWtk5k (é o link – preferi não anexar uma janelinha ao blog para não deixar a página pesada)

A minha pergunta para ela foi: seria possível trabalhar com Matadouro 5, do Kurt Vonnegut?



O crítico americano James Wood me parece, pelas 150 primeiras páginas do How fiction works, um grande apaixonado pelo narrador em terceira pessoa. Wood argumenta até mesmo que o narrador em terceira pessoa é menos “confiável” que o em primeira, posição que a princípio soa absurda, mas que bem argumentada soa, hum, interessante. Nesse amor todo pela terceira pessoa, Wood estende sua paixão – lógico – ao narrador flaubertiano. “Tudo começa e tudo termina com Flaubert”, escreve.

Ao falar do flâneur, o caminhante pela rua que observa o mundo, Wood não pega o exemplo mais clássico do universo (Baudelaire), e sim o velho Flôba. Diz Wood que o narrador de Flaubert passeia pela rua como uma câmera, nos fazendo prestar atenção em detalhes e que nos faz até esquecer que, ao enfocar uma coisa, ele está escondendo outras. Atenção ao detalhe: a vida é cheia de detalhes, é tão sobrecarregada deles, que não conseguimos notá-los, não conseguimos dar atenção individualmente a cada coisa, diz o crítico. A literatura, ele prossegue, nos ensina a “perceber” melhor as coisas, “teaches us to notice”.

Talvez porque tenha começado a ler How fiction works no mesmo dia que chegou meu Red Dead Redemption, não sei, talvez por isso, me pus a refletir sobre o gênero sandbox no videogame e a relação com tudo isso que disse acima.

Sandbox (como qualquer pessoa que continuou lendo o post mesmo sabendo que era sobre videogame provavelmente sabe) é como chamam a estrutura “mundo aberto” de jogos, não-linear, onde o protagonista pode passear por um longo mundo, encontrar missões e coisas para fazer, pessoas para conversar, cenários para admirar etc. Assim como na literatura, jogos narrativos costumam ser contados ou em primeira pessoa (modelo Doom) ou em terceira pessoa (modelo Metal Gear Solid).

O problema da primeira pessoa não é de confiabilidade, mas sim que é impossível bancar o flâneur em um game sandbox limitado a essa perspectiva. Exemplo disso é o Elder Scrolls: Oblivion, jogaço que faz da atividade de passear por aí algo muito divertido. Não obstante, a limitação só se nota quando posto em comparação com um sandbox em terceira pessoa, como é esse belo Red dead redemption, da Rockstar Games. Situado no Velho Oeste, o protagonista de Red dead caminha ou cavalga pelo sul dos Estados Unidos e pelo México, conhece vilarejos e cidadezinhas, adentra cânions etc. etc. Trata-se de um Velho Oeste nada morto, porém. Sempre estão acontecendo coisas, milhares de coisas. Uma mulher é sequestrada, um sujeito rouba no pôquer, um cavalo é roubado, um banco assaltado, uma freira atravessa o trilho de trem, um cavalo solto caminha pelo campo. O jogo é repleto de detalhes, e o fato de que a câmera, e não apenas o protagonista, pode ser controlada, isso pode ser usado para criar uma sensação flâneurística. Usando o right stick, o jogador pode caminhar enquanto “enquadra” o mundo pelo ângulo que lhe parecer esteticamente mais aprazível. O jogador, além de ser ativo para o desenrolar dos eventos e ações, participa da criação visual do jogo e da percepção de detalhes ao controlar a câmera. Ele define qual detalhe é importante e qual não é. Ele divide, de maneiras que ainda necessitam ser mais analisadas, o papel de narrador com os autores do jogo.

E o que isso tudo quer dizer? Sei lá, mas eu achei massa.



Sem regras

09/06/10 | Tags: ,

Geralmente as leituras que impactam um leitor são aquelas “diferentes de tudo já visto antes”. Esquisito, então, eu ficar tão impactado com Naquele dia, o último romance do mestre do policial contemporâneo Dennis Lehane (de Sobre meninos e lobos). Por que ele me impressionou tanto? Porque é um livro excelente e porque ele é completamente ordinário. Sim, Naquele dia é narrado em terceira pessoa onisciente. Não há uma diferença muito marcante entre o narrador de Lehane e aquele realista do século XIX, exceto talvez que os Flauberts da vida são mais apaixonados por detalhes e frases elaboradas. Tá, OK, há gazilhões de diferenças. Não é isso que quero dizer. Quero dizer que, em momento algum, a problemática de “como contar uma história” vem à tona em Naquele dia. Não. Nenhum sofrimento quanto a isso, com “o que é literatura” ou “como se pode falar qualquer coisa” ou “quem conta essa história?”. Como um best-seller, só que bom (antes que me acusem de preconceito, que conste que tentei ler o Yalom e o D Brown). Naquele dia é aquilo que eu, enquanto autor, nunca conseguiria fazer, e que muitos autores da minha geração aqui do Brasil também não: uma história bem contada, sem mais. Bons personagens, muitos acontecimentos. Fim. E pensar que eu já disse que escrever ficção em terceira pessoa onisciente nos dias de hoje era impossível, parecia impostura.

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Não há uma hierarquia entre livros narrados de x maneira ou y, entre livros que questionam o seu próprio objeto e os que não, livros que se vendem como “alta literatura” e livros despretensiosos. Essa é uma lição, talvez.

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Como é comum ouvir da boca de alguém: “a literatura deveria …”. Deveria o quê? Retratar o mundo como ele é? Dar voz aos que não tem? Questionar seus limites? Repensar sua função? Contar uma história, sem mais nem menos?

Todos tem uma teoria. Eu tenho a minha, e é a seguinte: o escritor escreve do jeito que ele sabe escrever sobre os assuntos que ele sabe. Ele não escreve “o livro que quer ler”, porque geralmente gosta de coisas muito diversas. As chamadas “influências” nem sempre se mostram vivas no livro.

Eu sei escrever daquele jeito, do jeito que eu forjei. Mescla de bagagem de leituras, preferências estéticas, experiência de vida e outras coisas que entram na equação e que nunca saberemos ao certo quais são. Meu escritor brasileiro favorito, o André Sant’Anna, escreve de uma maneira que não tem nada a ver com a minha. São maneiras de narrar totalmente válidas, a minha e a dele.

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No último post defendi o experimentalíssimo David Markson, que construiu sua literatura sobre questionamentos do que é um romance, e aqui defendo o oposto dele, o Dennis Lehane, que só contou histórias. Quem está certo? Vale lembrar a frase de Pynchon, num de seus raros comentários públicos, quando apresentou seu livro Against the Day: “Let the reader decide, let the reader beware. Good luck.” Que o leitor decida.

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É uma questão de mercado. Não “mercado” no sentido “força opressora invisível”, não. No sentido de que cada autor forma seu público leitor, cava seu nicho. Se você é um leitor que detesta autores que só criam ficção ao redor da própria vida, você evitará até a morte J.M. Coetzee. Se você detesta livros que só falam de outros livros, não lerá Enrique Vila-Matas. Se você detesta livros policiais, não lerá Raymond Chandler. Se você detesta literatura cheia de subjetivismo, fugirá de Lispector. Eu fujo.

O leitor que decide. A literatura não deveria ser de X ou Y ou maneira. “Os livros não devem falar de si mesmos!”, eu escuto sempre. Puah. O leitor que decida. Cada um lê o que quer. Ninguém te obriga a nada. E o meme da internet tem cada vez mais razão: “Hater’s gonna hate”. Quem odeia X, continuará assim. Evite. Nem chegue perto, economize os trocos.

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Dizer que a literatura não tem fôrma de bolo é um lugar comum monstruoso. Se não fosse verdade, cansaria repetir. Sendo tão verdadeiro, cabe falar disso mais uma vez sempre que nos deparamos com um livro que nos lembra disso. O meu foi Naquele dia. Agora vou ficar mais uns cinco anos sem dizer que “escrever literatura em terceira pessoa onisciente nos dias de hoje é impossível”. Sim, o post foi, de certa forma, um gigantesco mea culpa. A gente diz cada bobagem nessa vida. Se serve de defesa, que conste que o Sebald já disse algo similar.

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Não tem regras, o leitor que decida. Hater’s gonna hate, lover’s gonna love. Boa tarde.



Ó não! Como é ruim, através do twitter, o grande obituário digital, ficar sabendo da morte de algum escritor massa como é o David Markson. Para quem não conhece, Markson é autor do experimentalíssimo “Wittgenstein’s mistress”, que o Foster Wallace considera o ponto alto da ficção experimental norte-americana. Esse romance, o único que li do cara, é narrado por uma mulher no mesmo “formato” que o Tractatus Logico-philosophicus do Wittgenstein e, assim como a obra-base, faz do seu texto uma grande meditação sobre a relação entre linguagem e mundo.

Quem sabe com a morte do autor ele não ganha alguma fama e é traduzido para o português? Nah, isso é sonhar alto demais.

Triste, mas verdade: precisamos reconhecer que certos livros só interessam a uma fração muito ínfima de leitores e que esses livros não tem seu lugar nem no mercado “de nicho” previsto por teorias da cauda longa e otimistas em geral.



Gauchão de literatura

05/06/10 | Tags:

Somos todos órfãos de Paulo Scott. Se você morasse em Porto Alegre por meados dos anos 2000 e estivesse de alguma forma ligado à cena literária, você conheceria Paulo Scott. Você poderia gostar dos livros de Scott, dos poemas, dos romances, ou não, você poderia detestar o que ele escreve, detestar até mesmo a figura do Scott, não interessa. Você participaria dos eventos dele. Por quê? Porque Scott era a figura agregadora da cidade. Ele reunia todos os escritores e críticos e leitores, ele dava chance aos novatos e os colocava ao lado dos veteranos. Não era uma questão apenas de “agregar”, mas também de “agitar”. Sempre tinha um projeto novo com um cartaz amalucado para se colar nas ruas da Cidade Baixa. Em 2008, Scott se mudou para o Rio de Janeiro e levou com ele 70% da vida cultural-literária da cidade.

Por que estou falando disso? Bem, porque acho que alguns projetos estão surgindo para suprir nossa orfandade, como o Festipoa e o… Campeonato Gaúcho de Literatura.

Admito, a primeira vez que me falaram do Gauchão, fiz cara feia. Eu disse que não ia dar certo, que em Porto Alegre todo mundo se conhece, que não é como a Copa de Literatura. Me explicaram, então, que cada juiz teria que marcar quais livros se sentia impedido a julgar, seja por amizade ou antipatia natural. Fiquei um pouco mais tranquilo, mas ainda assim nada empolgado. Qual era a necessidade daquilo? Já tinha a Copa que abrangia isso. Daí falaram que ia ser de contos, já que esse é o maior foco de produção gaúcha. Ainda não fiquei animado. Falaram que o Carlos André (que também escreveu sobre o evento) e o Weller iam ajudar a organizar o troço. Ainda não me empolguei. Aceitei ser juiz de um jogo, de qualquer forma.

Foi quando recebi a lista dos participantes para marcar os “impedimentos”. Vinte e sete livros. Eu não tinha nem sequer ouvido falar de uns dez ou mais. Decidi googlear alguns títulos. Livros que nunca receberam uma resenha em um blog. Livros que nunca foram comentados nem no orkut.

Todo mundo sabe, tão bem quanto eu, que um livro não lido é um livro morto. E eu pensei: com o Gauchão, cada livro vai receber pelo menos duas resenhas. O resultado é sempre subjetivo, mas esses livros finalmente serão lidos por alguém que não é familiar ou amigo, serão discutidos duas vezes, por duas pessoas com pontos de vistas diferentes. Isso movimenta toda uma massa de escritores. Isso movimenta toda uma massa de leitores.

Daí eu comecei a achar a idéia legal.



Equívocos

04/06/10 | Tags:

a) Falar de “novos escritores” como se fossem um bando homogêneo, como se o babaca adulador do “não li teu livro, mas leia o meu e adore” e a menina esforçada e dedicada fossem o mesmo tipo de pessoa.

b) Falar de “novos escritores” como se eu fosse isento, como se eu não fosse um, como se meu livro não fosse apenas outro na pilha. Pior: passando a impressão de que já sou estabelecido (pfff).

c) Falar mal da cena literária sem levar em conta que sempre foi, em essência, assim, desde Verlaine ou Poe, ou até mesmo antes. Mudou o volume do barulho e o meio.

d) E esse é o principal equívoco: perder tempo falando disso. Perder tempo tentando generalizar, tentando encontrar uma fórmula, uma explicação, uma crítica. Perder tempo se importando com cenas, com bobagens, com gente chata. Parei, e obrigado pelos alertas e conversas por e-mail.

Esse post não terá comentários abertos porque a discussão já deu o que tinha que dar. Estou disponível por e-mail, qualquer coisa.

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