Rapidíssimas (II)

05/02/10 | Tags:

Estou no Uruguai com acesso limitado a Internet. Isso explica minha ausência por aqui.

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Acabei trazendo um monte de trabalho pra cá. Trouxe o notebook para fazer todos os freelances (de jornalísticos a editoriais; alguns secretos, outros reveláveis) nos quais me meti. Não posso reclamar, pela primeira vez na vida estou ganhando algum dinheiro mais substancial e consigo até vislumbrar no horizonte uma independência financeira. Claro, ainda falta muito, e ninguém pode garantir que as coisas continuarão tão bem assim. Mas me deixem sonhar.

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Além de estar lendo alguns originais que prometi há décadas para amigos e para a Não, li Corazón tan Blanco, do Javier Marías, que serve como uma espécie de prelúdio ao Seu rosto amanhã, por compartilhar personagens e temas. Não obstante, Corazón funciona perfeitamente como uma obra em si (foi pensada assim) e me parece o ponto de partida ideal para alguém que quer experimentar um só livro do Marías. De fato, com tantos críticos na orelha chamando o livro de obra-prima, até me sinto mais tranquilo de usar esse termo tão batido. Que livro! Marías é digressivo, inconclusivo. Usa uma mescla de ensaio e ficção, como boa parte da tradição hispano-hablante. Em muitos momentos me lembra um Lobo Antunes mais acessível, mais narrativo. Quando notei que faltavam só 50 páginas para terminar o Corazón me deu uma dor. Passei a ler mais lentamente cada página, na esperança de que o livro durasse mais. Mas acabou. Tem escritores desse tipo, criadores de uma prosa tão deliciosa e crocante que podem estar falando de qualquer assunto, ainda assim continuarão interessantes. Javier Marías escrevendo sobre a história das listas telefônicas seria interessante. Sem brincadeira. Então logo que terminei comprei mais dois livros do cara, até porque aqui um livro dele sai 19 reais. Que eu saiba o Corazón tem em português em edição pocket da Cia. Das Letras. Não ler me parece criminoso.

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Estou lendo agora também Salvatierra, romance recente do argentino Pedro Mairal. O estilo do Mairal me lembra muito o do Daniel Galera, o que não deixa de ser engraçado, pois tenho quase certeza que um não leu o outro e vice-versa. Mais comentários sobre o livro do Mairal quando eu terminar a leitura.

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Macedonio Fernández é um fantasma. Estou tentando comprar seu romance Museo de la novela de la eterna e não acho em lugar algum, nem sob encomenda. Socorro.

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Os dias estão nublados, o que favorece a leitura. Tem uma sacadinha agradável boa de sentar e escrever. No free shop comprei um punhado de cervejas maravilhosas que só experimentaria com preços reduzidos, como foi o caso. Destaco especialmente a Fuller’s Discovery, uma blonde riquíssima de sabores. Leve, refrescante e ao mesmo tempo intrigante. Como uma música pop bem grudenta e ainda assim criativa e original.

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Cuidem-se.



Eu e a Mariana (ref. minha namorada) acabamos de zerar o Machinarium, primeiro longo adventure dos criadores do Samorost, e pensei que valia a pena gastar umas palavrinhas para falar do gênero adventure. Sei que 85% dos meus leitores visitam o blog por causa do blá blá blá literário, 10% pela música-cinema-e-cerveja, mas gosto de pensar que existe 5% de interessados em videogames. Esse é para os 5%, então. (ops, esqueci de incluir na matemática aqueles que entram só para falar mal, desculpa aí gurizada).

Pois, os adventures. Quando ganhei meu primeiro computador, lá por 1991, um 386 DX40 com 4 MB de RAM, ele vinha só com UM JOGO. O mouse não era um periférico muito popular na época, e só fui ter o sistema Windows alguns anos depois. Esse jogo se chamava Maniac Mansion, e tinha como protagonista uns jovens que entravam numa mansão amalucada governada por cientistas malucos e tentáculos gigantes. Eu tinha sete anos na época. Sete.

C64_Maniac_MansionVeja bem, o jogo envolve resolver uma série de “quebra-cabeças” (embora seja incorreto chamar eles assim) como descobrir que a chave está debaixo do tapete, e para isso precisa “mover” o tapete. Tudo em inglês, claro. Vocês sabem como é saudável para uma criança ter acesso a um jogo desses? OK, alguém vai dizer que saudável é o piá ir pra rua jogar futebol e viver a vida. Mas ignorando isso, pensando que ele se renderá a um entretenimento de massa. Aos sete anos de idade, aprendi todos os verbos em inglês que estão na imagem. Quando clicava no objeto (usando o cursor do teclado como mouse) ainda aparecia o nome. E ainda existiam os adventures de texto, como Police Quest, que tudo era digitado pelo usuário (”open door”). Não só aprendi acidentalmente inglês (e foi realmente jogando videogame que sei o inglês que sei hoje) como (acredito) desenvolvi o raciocínio lógico. São os adventures que me dão esperança numa função “pedagógica” do videogame. Quando os pais se apavoram “ohh, deveria eu deixar meus filhos jogar?”, tenho vontade de mostrar para eles jogos assim. Claro que não vejo nada de errado em jogar games de tiro e corrida quando criança, mas os adventures, ah, os adventures.

Só que eles saíram de moda. Por um longo período, pós-época de ouro da LucasArts (Sam’n'Max! Monkey Island!), pós-Myst, pós-Phantasmagoria (tentativa de usar filmagens live action para captar a atenção), ninguém deu bola para os adventures. Pararam de ser fabricados pelas grandes empresas, que preferiram investir em no máximo RPGs de ação. Acho que o principal culpado da queda dos adventures foi o desenvolvimento gráfico. O realismo nos gráficos causou uma euforia que fez o público esquecer o simples prazer de ficar coçando a cabeça tentando descobrir o que tem que fazer.

O tempo passa, gamers envelhecem, e muita gente voltou a se perguntar o que  tinha acontecido com os adventures. E então, o que aconteceu? Pois, as grandes empresas continuam ignorando o gênero. Porém, com o boom da internet e a facilitação do game design, muitas pequenas empresas como a TellTale Games e a Amanita Design voltaram a produzir adventures, agora dividindo em jogos menores (os tais episódios) e cobrando preços mais acessíveis (no máximo dos máximos 19 dólares para um game mais longo). E, livres de ter que agradar um grande público, passaram a experimentar.

machinarium_03_fullMachinarium, que mencionei na primeira linha, é prova disso. O jogo, criado por um pessoal da República Tcheca, traz gráficos desenhados a mão, robôs tragicômicos, referências a Atari, trilha sonora digna de um disco ambient que a Pitchfork elogiaria. O jogo não utiliza diálogos (uma criança não aprenderia inglês, portanto), mas exercita o raciocínio nos mais diversos fronts de batalha: do puzzle mais hardcore ao uso do ouvido musical. O encanto permanece o mesmo que na época que eu jogava o primeiro Sam’n'Max.

O adventure vive.

[UPDATE] Após conversa na caixa de comentários, pensei uma cousinha. Sim, são puzzles mesmo que os adventures oferecem, mas a graça dos adventures é que eles disfarçam os quebra-cabeças. Ou seja, obrigam o gamer a pensar fingindo que estão apenas contando uma história interativa.



a-fraction-of-the-wholeTerminei semana passada o tijolão A fraction of the whole, do Steve Toltz, e não consigo entender direito porque não gostei do livro.

1. O livro foi “descoberto” pela Bensimon em Paris. Steve Toltz é um autor australiano que ainda não estourou muito por esses lados aqui. Daniel “Mojids” Felizzardi amou o livro e defendeu o romance como eu só tinha visto ele fazer com The last samurai da Helen DeWitt. Tiago “Ductilissimo” A., fez defesa similar. Então eu tive que conferir, não?

2.1 A primeira coisa que me incomodou no livro, é que nas 520 páginas dele não param de acontecer coisas. Sério, parece romance picaresco. A cada página um episódio diferente. A cada 50, uma reviravolta. Uma morte a cada 100.

2.2 Mas dá para reclamar de uma coisa dessas? Essa minha incomodação é válida? Será que eu gosto é de livro parado, livro chato, livro não-narrativo? Que espécie de argumento é esse?

3.1 Outra coisa que me incomodou é o humor, o livro é constantemente “engraçadinho”/”espertinho”. Na verdade as palavras mais adequadas para definir A fraction of the whole seriam “witty” e “clever”, e acredite, são palavras sem equivalente no português. A cada parágrafo tem uma observação espertinha acerca da vida, o universo e tudo mais.

3.2 De novo: dá para reclamar de uma coisa dessas? Não dá! Por que me irritou? Não sei! Me irritou como me irritou acontecer coisas demais! Será que isso quer dizer que gosto de um livro chato, sem humor?

4.1 e .2 O livro é todo bem construidinho: bons personagens, boas descrições. Parece resultado nota A de um curso de creative writing. Segue bem a tradição anglófona de literatura. Está, na minha opinião, bem na linha de autores norte-americanos como Safran Foer & cia. E isso também me incomodou! Deus do céu, estou chato.

5.1 Por fim, é um livro que não constrói algo no final. É composto de pequenas frações do todo, mas no final da leitura, senti ter saído dela incólume.

5.2 Mas não seria esse o propósito do livro? Olha o título, “uma fração do todo!”, o livro não pretende construir um grande significado final. E existe algo mais ridículo no século XXI do que esperar um todo? Não deveria ficar feliz com os fragmentos, com a impossibilidade do todo? Sim, eu deveria, todo meu conhecimento me orienta para isso. E, no entanto, não fiquei feliz.

Um resumo: Eu não gostei do livro, embora não tenha conseguido largar ele. Pior, não consegui encontrar um só argumento válido para explicar porque eu não gostei do livro. Se eu fosse pago para resenhar a obra, provavelmente faria uma resenha positiva, pois não dá para eu me render a um impressionismo tão obscuro, dá? Não, não dá. E ainda assim, não consigo ficar em paz.

Um resumo sobre o resumo: O que eu quis dizer com esse post? Acho saudável explicitar, já que muita gente me entende errado nessas bandas. ORAS, SIMPLES, só que eu não entendo meus procedimentos de leitura, ou então que meu processo de fruição é diferente dos meus procedimentos críticos, frios. E que conclusão podemos tirar disso? Não sei! Isso não é desesperador?



Pois.

Estou lendo o volume de contos Amizade, do André Sant’Anna (escrevi sobre O Paraíso é bem bacana aqui), livro repleto de narradores em primeira pessoa, todos vociferando com suas vozes preconceituosas, todos arruinando seu próprio discurso por causa (através?) da linguagem. Narradores que se sabotam (se desvelam?) pela linguagem. (estou com dificuldades em descrever com precisão).

Eis que lembro que em 2006 (parece ontem, mas na verdade faz muito tempo), no auge dos meus 21 anos, ainda brincando de contista experimental, escrevi algo muito na linha dos contos do Amizade, mas sem um quinto do talento do André Sant’Anna, é claro. O conto nunca chegou ao papel, assim como uns outros 20 que tenho guardados na pasta “recusados e esquecidos”, nem nunca chegará, porém talvez valha o espaço internético (mais barato que o papel, né não?) por motivos de curiosidade. Sem mais, um continho do meu passado.

Um caso verdadeiramente trágico

Antônio Xerxenesky – maio de 2006

Leitores de jornais hoje em dia são como urubus, sempre atrás dos últimos cadáveres. Culpa da mídia, a casa dos verdadeiros demônios… Eles viciaram os leitores em violência. Ah, como me irritei com a imprensa aquele dia, quando a premiada equipe de jornalistas relatou o caso da criancinha de dez anos encontrada esquartejada. Todos os detalhes gráficos estavam lá, mas sobre a criança nada falaram, no máximo uma citação do pai dizendo “ele era um menino tão bonzinho”.  Por que não investigaram a vida dele? A infância é um período tão incrível! Não consigo chegar a uma conclusão sobre porque preferiram mencionar que a criança foi pega repentinamente na rua e botada dentro de um carro cheio de estranhos com olhos que indicavam más intenções. São obcecados pela morte, não pela vida. Em vez de falar sobre os sonhos dela, o que queria ser quando crescer, algo nessa linha, optaram por recriar um passo a passo do crime, uma simulação de como se sucedeu todo o caso grotesco e hediondo. Uma entrevista com seus amiguinhos de escola, isso seria tão frutífero! Um relato detalhado de sua personalidade, seus brinquedos favoritos, garanto que isso seria muito útil para o povo. Mas não, esses safados dos jornais escolheram dizer que os bandidos (espero que morram!) brincavam de arrancar os dedos do pé do guri das formas mais diversas. É, é verdade, usaram de martelos a alicates. Mas quem quer saber disso? Só pervertidos, imorais! Seres humanos de verdade se interessariam bem mais em escutar sobre como é ser criança hoje em dia, uma boa dose de saudosismo, é isso que a gente precisa ouvir. Não precisamos escutar como a vida dessa pobre criança foi interrompida a machadadas e golpes de faca, nada sobre como há suspeitas até de abuso sexual dela. Eu, nos meus sessenta e cinco anos de idade aprendi a respeitar a vida, é isso que falta aos jovens de hoje em dia, um pouquinho de respeito. Mas preferem ficar vendo esses filmes de terror onde todo mundo morre, mas ninguém vive. A história dessa criança que teve que comer (sim, literalmente mastigar e engolir!) os dedos que lhe foram arrancados é o reflexo disso. Não entendo essa curiosidade toda sobre a morte. Não entendo. (…)



Indievelhismo

19/01/10 | Tags:

Descobrir qual banda/livro/filme vai “ficar”, no sentido de “permanecer lembrado na história”, é um esporte popular. Mas – e às vezes eu acordo nessa espécie de pesadelo – e se nada ficasse? E se o culto fosse sempre do “novo” (que, nos últimos anos, tem significado a releitura de algo passado)?

Quando eu descobri o chamado “indie rock”, as principais bandas eram Sonic Youth, Yo La Tengo, Built to Spill, My Bloody Valentine, Trail of Dead, Sleater-Kinney, Mogwai, Belle & Sebastian e um par de outras. Eu sou um cara jovem, de 25 anos, porém conheço pessoas mais novas que eu. Proponho um experimento: mostre essas bandas (antigas? mas são do fim dos 90, início dos 00!) para os jovens. Primeiro que não vão gostar muito. Segundo que não considerarão “indie rock”, e com razão. O termo hoje é aplicado para bandas e estilos completamente diferentes, a ponto de ter perdido o sentido de ser, ter se tornado indefinível. “Indie rock” pode tanto significar roqueiros barulhentos de óculos wayfarer como um hippie tocando uma arpa de cabeça pra baixo. Mas no início (o verdadeiro início eu não peguei, claro, olhem a minha idade, eu sou um piá) não era tão assim, o termo parecia ter algum sentido, havia uma série de características formais identificáveis. Todas pareciam servir de possível trilha sonora para filmes do Hal Hartley. Hartley (rei) é um cineasta que, como essas bandas, foi esquecido, engolido pelo tempo, e, no entanto, abriu o caminho para o cinema independente. É difícil pensar em Kevin Smith existindo, não fosse o Hartley.

Esse não é um post de “ó, as coisas não deveriam ser assim, que raiva”, nem um post nostálgico (ok, um pouco nostálgico talvez seja – e quão ridículo é ser nostálgico aos 25? 25!!). É mais de alguém tentando entender como tudo isso foi esquecido. Quando eu vejo os novos adolescentes adorando Vampire Weekend, The XX e coisas que para meus ouvidos soam asquerosas, penso que toda essa leva também vai ser esquecida. Talvez essa seja a mudança (ontológica?) surgida a partir da geração X. A partir de certo ponto, “nada permanece”, nada se fixa no tempo. Yo La Tengo não permaneceu. Essas novas bandas sumirão. Só ficará sei lá, Radiohead, ou algo assim, que conseguiu transcender o nicho. E eu penso, em digressão, nos Beatles, em como os Beatles foram o mais próximo de uma unanimidade que o mundo da música encontrou, todo mundo gostava, se escuta até hoje, se reconhece o valor, e como isso é historicamente impossível de se repetir.



Traduzi, com autorização do autor, o conto “O hipnotizador pessoal”, do argentino Pedro Mairal. Coloquei notas acerca da tradução na caixa de comentários.

O hipnotizador pessoal

Pedro Mairal

Há dez anos, em uma oficina literária, conheci uma garota que tinha muita grana. Melhor dizendo, seus pais tinham muita grana. Não se chamava Verônica, mas vou chamá-la de Verônica por discrição, embora ela não more mais na Argentina. Verônica escrevia contos que se passavam em Paris, em Nova York, em Amsterdã, com personagens que eram sempre convidados a grandes festas. A oficina ficava na rua Callao com a Córdoba, e na saída eu a levava na minha bicicleta até Las Heras. Não nos dávamos conta de como era perigoso, ou talvez sim, e isso nos divertia. Uma vez, um ônibus 60 quase nos esmagou; foi por pouco. Eu freava apertando o pé contra a roda. Às vezes nos metíamos em livrarias e ela comprava um livro, mas depois, quando eu perguntava se ela tinha gostado do livro, me respondia que não tinha lido. Não gostava muito de ler. Encontrava-se o tempo todo com ex-colegas do colégio e depois me falava mal delas. Vivem numa bolha, me dizia, estão sempre falando de ir esquiar ou de Punta del Este, não se dão conta de que as coisas vão um pouco mais além. Como costuma acontecer, Verônica desprezava as pessoas que eram parecidas com ela. Lembro de que ela tinha cabelo liso, principalmente disso. Era mais lisa do que linda. E me lembro de seu cheiro de shampoo, quando ia sentada no quadro da bicicleta. Sem que eu sequer a tenha beijado, ela me incitava e me desprezava, ia alternando entre essas duas atitudes com sutileza, me mantendo afastado, mas, ao mesmo tempo, ao alcance da mão. Se ela tivesse me pedido, eu a teria levado pedalando até o Brasil.

Em uma dessas voltas, me convidou para ir a casa dela na rua Galileo, porque iam seus amigos do cinema (estudava cinema em um instituto no centro). Anda, venha, não me presto a esperar sozinha, me disse. Chegamos e nos abriu a porta da rua um guarda de segurança, de uniforme cinza. Era um dos poucos edifícios em Buenos Aires que, nessa época, já tinha segurança privada 24 horas. Subimos. O apartamento era enorme, decorado com poltronas brancas e tapetes. Ela vivia sozinha porque seus pais sempre estavam em lugares exóticos do mundo. Tinha uma empregada velha dando voltas pela cozinha, com a qual tinha discussões ferozes que a envergonhavam. Em meia hora, me mostrou sua câmera nova, me mostrou fotos de uma viagem a Índia, me mostrou algo no computador que eu não entendi até anos depois, quando se popularizou a Internet, pôs um CD em um equipamento super Hi-Fi, deu voltas pelo apartamento, me mostrou a arma do pai, comemos sorvete, e aos poucos foram chegando os amigos.

Eram mais ou menos da nossa idade. Tinha uma das garotas que se chamava Fabiana e um cara de cabelo comprido que se chamava Pablo, que eu pensei que eram namorados, porque se massageavam no sofá. Todos pareciam estar muito habituados ao lugar, se jogavam no living sem problema, abriam a geladeira e pediam sucos para a empregada. Observei-os várias vezes e fui mimetizando essa atitude de confiança.

Ali faziam a sua base e depois se mandavam para outras festas, em outras casas. Eu fui só uma vez a uma dessas festas, onde fizeram o mesmo, apenas com outras pessoas e com outra marca de cerveja: sentaram e falaram da festa que iriam depois. O melhor, a festa ideal, sempre estava em outro lugar.

Em alguma dessas conversas de sofá, saiu a típica pergunta: se você pudesse ter qualquer coisa no mundo, o que gostaria de ter? A maioria queria ter outro corpo, ou muito dinheiro. A resposta de Verônica me chamou a atenção. Eu quero ter um hipnotizador pessoal, disse, um “hipno”, existem, juro que existem. Um cara que me hipnotize nas horas monótonas, que me acorde só para os momentos de ação, que me anule o tempo morto. Isso é o que queria Verônica, alguém que lhe editasse a vida. Perguntaram para ela como seria, e ela explicava que o hipnotizador teria que fazê-la dormir, por exemplo, antes de sair de viagem a Paris. Ele a subiria adormecida no carro, a levava até o aeroporto, faria os trâmites, a colocava no avião e a acordava um tempo durante o vôo para comer; depois a adormecia de novo e a despertava no táxi, nas ruas de Paris, rumo ao hotel. Tinha que ser um sujeito forte para poder carregá-la nos braços.

Me surpreendeu a expressão “tempo morto”. Escutei ela falar aos seus amigos cineastas, mas eu não entendia tudo o que ela queria dizer. E me fez lembrar uns vizinhos numa barraca na praia de Pinamar: dois casais que jogavam bridge depois do meio-dia, jogavam por horas na sombra, até que um dos homens olhava o relógio e dizia: “Ui, já são seis horas. Matamos a tarde!”. Batia palmas ruidosas e esfregava as mãos porque a tarde tinha morrido; eles a tinham matado.

A idéia de Verônica também era matar o tempo, matar o tempo morto. Ela tinha intolerância ao tempo real. Não suportava o tempo que mediava os momentos supostamente relevantes da sua vida. Não suportava o tempo morto frente ao semáforo ou em salas de espera ou na fila. Os momentos em que não acontece nada.

Quando chegou minha vez de dizer o que eu queria, pensei que queria ter a Verônica, mas não disse isso. Não me lembro com o quê consegui me safar. Também não sei se foi nessa mesma noite que consegui beijá-la. Lembro que caminhamos pela Galileo até nos sentarmos na escadaria da Plaza Mitre e, como eu tinha tomado muita cerveja, me animei. Mas era difícil. Me escapava. Como se não estivesse ali. Vivia defasada do presente, um pouco acelerada rumo ao futuro, sempre pensando em algo de bom que aconteceria depois, me falando disso, de uma festa, de um filme essa noite, algo que iam filmar, uma roupa que os pais trariam de Nova York, sempre nesse declive de ansiedade, caindo para adiante.

Eu ia com freqüência na casa dela. Às vezes estavam Pablo e Fabiana vendo filmes. Um sábado de noite, convidei Verônica para ir a San Telmo beber algo, mas me disse que estava cansada. Pouco depois apareceram Pablo, Fabiana e uns amigos de Porto Rico que queriam sair para dançar salsa. Trouxeram rum La Negrita e misturaram com Coca-Cola. Eu via que Verônica se preparava para sair, muito divertida, e eu me botei a tomar rum. Um copo depois do outro. Ela queria que eu fosse com eles, mas eu, doente de literatura, preferia a tristeza do perdedor. Acabei tocando a campainha às quatro da manhã, totalmente bêbado, dizendo que eu queria ser seu hipnotizador pessoal. E ela nem estava lá. O guarda do térreo, que já me conhecia, me chamou um táxi e me mandou para casa.

Eu escrevia coisas para Verônica. Poesia. Uma vez fomos ao cinema de madrugada, depois beber algo, depois caminhamos e, em um quiosque, comprei o diário La prensa recém saído para mostrar que, no suplemento cultural, tinham publicado um poema meu dedicado a ela. Não me sobrava mais nenhum ás na manga e eu ainda não tinha conseguido passar dos primeiros beijos. Eu disse que gostava dela e ela me disse que eu era “um cara muito intenso”. Desde então, esse adjetivo – aplicado a qualquer coisa – me dá um pouco de vergonha.

Uma tarde subi pedalando a ladeira da Galileo. O guarda do edifício me disse: Que tá fazendo, Pedrinho? A Verônica não tá… Cara, o outro sujeito, o de cabelo comprido… Quem, o Pablo?, eu disse. Sim, te ganhou essa. Fica aqui pra dormir e tudo mais. Outro dia eu tirei as caras com a Verônica, viu só, perguntei, “com qual você fica, com o de cabelo comprido ou com o Pedrinho?”, e ela me respondeu, “com o de cabelo comprido”.

Me despedi dele com um sorriso bastante digno, considerando que acabavam de partir meu coração. O guarda tinha me dito a verdade, assim, dura e direta. Eu o odiei, mas hoje acho que me fez um favor, porque, do contrário, eu teria continuado dando voltas e ficado cada vez mais envolvido.

Voltei caminhando ao lado da bicicleta, sem montar. Tinha vontade de ir arrancando minha roupa e me jogar pelado no meio da rua. No sei se foi exatamente esse dia, mas a bicicleta foi parar no depósito. Não voltei mais a essa oficina literária, nem voltei a ver Verônica. Soube, por um amigo de um amigo, que se casou e vive nos Estados Unidos.

Um par de anos atrás, eu escrevi um conto curto tendo ela como personagem. Tenho que corrigi-lo. O narrador era o hipnotizador, o encarregado da feitiçaria quando ela se entediava. Ele ia contando o que tinha feito essa tarde. A história se passava no México porque parecia que ficava melhor. E ele falava da “menina”. “Às duas, a menina me pediu que eu a adormecesse e a levasse a uma festa em Cuernavaca”. Então, eu contava como a fazia adormecer na cadeira, a punha no carro e sentava frente ao volante para dirigir lentamente. Ela, adormecida no banco de trás, ele fumando, com a janela aberta. Descrevia a viagem e como, pelo caminho, era possível enxergar uma tempestade de verão que se aproximava, e depois chovia e caía granizo. Era narrado no presente, vivendo o tempo morto que ela não queria viver. Então chegavam de noite a Cuernavaca e, umas quadras antes, o hipnotizador acordava “a menina”. Contava que tinha chovido granizo e ela ficava braba porque ele não a tinha acordado para ver isso; teria gostado de ver granizo. A menina o repreendia muito e saía do carro rumo à festa, batendo a porta. Ele estava apaixonado por ela.



Mudanças

08/01/10 | Tags:

Me identifiquei com isso que o escritor norte-americano John Wray disse sobre seu terceiro romance (”que pode ser descrito em duas frases”) ser tão diferente do segundo (”que precisaria umas 40 para ser descrito”) e do primeiro. Diz Wray:

“Quando ficou claro para mim que eu terminaria o meu primeiro romance, eu já pensava que queria que o meu segundo fosse completamente diferente do primeiro. E então eu quis que meu terceiro romance fosse o mais diferente possível do segundo. Principalmete porque – não por causa de ambição – eu não gosto da idéia de um escritor sempre escrever o mesmo romance. Existem autores que eu amo e que sempre escrevem o mesmo romance, como Ernest Hemingway ou Cormac McCarthy. Quer dizer, eles podem não pensar assim, Hemingway pode dizer: do que diabos você está falando? Mas de um ponto de vista estético, ele estava escrevendo o mesmo livro de novo e de novo. Me enlouqueceria. Seria como um obsessivo no hospício costurando sempre a mesma meia.”

Traduzido daqui.



…supondo que, por algum motivo, tem interesse no que eu escrevo. De resto, esse post poderia muito bem se chamar “Formspring him”.

P: É um livro de contos ou um romance?

R: De contos.

P: Por que voltar aos contos?

R: Porque passei a revalorizar o gênero após leituras de Bolaño, Vila-Matas, Barth, Paley e outros. E também porque, por mais que eu esteja trabalhando em um romance, tive um surto de escrita de contos. Não conseguia parar de escrever. E qual a graça de ter uma editora independente se eu não posso publicar livrinhos como esse?

P: Editora independente. Então você não vai tentar publicar por uma maior?

R: Não esse livrinho, até porque sei que editoras grandes nunca se interessam por contos. Meu próximo romance é outra história, esse eu tentarei. Claro, há chances de eu nunca passar para uma grande e continuar tendo que bancar meus próprios livros. O que me levaria a desistir da brincadeira cedo ou tarde (de publicar, já que parar de escrever é meio impossível para mim).

P: Por que você se refere a ele como “livrinho”?

R: Por causa do tamanho. Será um livro pequeno. Terá uns 7, 8 contos. Claro, serão contos gorduchos, contos como antigamente, extensão Poe, não minicontos, apesar de alguns mais breves.

P: E tem unidade temática?

R: Não acredito em livro de contos sem isso. Só tem contos metaliterários nele, ou seja, uso a própria literatura para falar de literatura. O que é diferente de metaficção. Longa história. Em resumo: os contos giram em torno de leitores, escritores, editores. Essas coisas. Mas são divertidos, creio. Nada de academicismo e “livro para críticos”.

P: E quais as referências principais?

R: Os seguintes livros de contos metaliterários: Llamadas telefónicas, do Bolaño (primeira parte), Exploradores del abismo, do Vila-Matas, e Sonho interrompido por guilhotina, do Joca Reiners Terron. Todos tem mais ou menos a mesma unidade temática que busquei.

P: Quem será responsável pelo visual do livro?

R: O que mais me levou a querer publicar é essa parceria com a fotógrafa Ieve Holthausen, que vai produzir especialmente para o livro várias fotografias. Ela que fez a capa do Pó de parede e as imagens internas.

P: E aquele ensaio sobre o qual você falou aqui. Vai entrar no livro?

R: As primeiras reações ao ensaio foram: “muito chato” e “insuportável”. Não, não vai entrar. Meu plano é liberar ele em PDF mais além, para quem quiser. Acho uma boa companhia para os contos, ainda mais que menciona personagens ficcionais dos contos do livro.

P: Pode falar um pouco de algumas histórias do livro?

R: Duas garotas procuram um original perdido do Borges. Detetive literário busca descobrir onde se esconde Thomas Pynchon, baseado na suposição de que ele foi substituído por um fã. Um conto autoficcional sobre videogames e literatura. Estudante de jornalismo pensa em inúmeras possibilidades de encontro com escritor que admira. Cervantes é sacaneado por cientificistas e seu Quixote é reescrito. Paraplégico narra surgimento e fim de uma nova cena literária. E mais dois contos que ainda não decidi se entram.

P: Se eu detesto esses livrinhos umbiguistas que só ficam falando de literatura… eu deveria ler?

R: Não. E também não entendo o que você está fazendo nesse blog, já que vivo falando de Coetzee, Vila-Matas e companhia, gente que faz exatamente isso.

P: Ele já tem título?

R: Ele tem vários títulos, só não consigo me decidir qual. Um dos descartados foi: “A página assombrada por fantasmas”. Outro descartado foi: “Viagens ao redor da página”.

P: Quando sai?

R: Quero ter a versão final do livro, revisada, até fim de março. O plano é que saia, portanto, lá por julho de 2010.



elizabeth-costelloEstou terminando a leitura de Elizabeth Costello (2003), livro de ensaios disfarçado de romance do Coetzee, ou melhor, talvez, romance disfarçado de livro de ensaios. Parece indicar para onde o Coetzee seguiria em 2007, com o Diário de um ano ruim (que é admitidamente um livro de ensaios E um romance, separados por um corte de página), e parece sinalizar mais cousas ainda. Que coisas?

Bem, o que leva alguém a ler Elizabeth Costello? Os assuntos mais debatidos nos ensaios são: África, pós-colonialismo, o ensino de humanidades, vegetarianismo. Veja bem, até eu que sou um acadêmico desvairré não consigo muito me interessar por esses assuntos. A graça de Costello está, a princípio, não em ler uma boa história, mas no prazer de ler uma boa argumentação, um encadeamento de idéias. Sim, porque sinto que, em algum momento da carreira, Coetzee olhou para si mesmo e disse: “não sou um escritor de linguagem, nem mesmo um grande narrador, sou um sujeito de idéias”. E então passou a explorar com ainda mais voracidade (porque sempre esteve presente, mas não dessa forma) o gênero ensaístico, e a cultivar esse híbrido entre romance e ensaio.

A grande descoberta Coetzeeana (embora seja perigoso usar a palavra descoberta, visto que eu não li nem um milionésimo dos livros que existem) está em procurar possíveis respostas, reverberações aos seus pensamentos dentro da própria ficção. Nunca lemos um ensaio do Coetzee sem ver naquelas mesmas páginas alguém reagindo ao que Costello (a personagem-palestrante) afirma, algo só factível mesmo nessa mescla de ensaio e ficção.

E é nesse verbo, “afirmar”, que está também outra ruptura Coetzeeana. Coetzee é o escritor que não afirma. Quer dizer, através de sua personagem pode afirmar coisas, mas são idéias sempre discutidas. Coetzee é da geração que nasceu sabendo que não existem verdades únicas. Talvez por isso o símbolo de interrogação seja um dos mais presentes na sua prosa, até em livros como Juventude e Desonra. Um escritor em busca das perguntas certas. Eis um motivo para ler Coetzee.



Ano vindouro

31/12/09 | Tags:

Ian McEwan vai lançar livro novo em 2010.
Serão publicadas no Brasil as traduções de “Against the Day”, do Pynchon, e “2666″, do Bolaño.
Sai o jogo Mass Effect 2 já em janeiro, e em fevereiro tem disco novo do Silver Mount Zion.
A Não Editora vai lançar muitos bons livros no ano.
Takashi Miike vai fazer uns 3 filmes, provavelmente, só para manter a média.

Acho que isso quer dizer feliz ano novo.