OK. Vamos fazer o seguinte, vamos fazer de conta que não sabemos nada sobre o tribunal ao qual Gustave Flaubert foi submetido. Vamos apagar tudo que acidentalmente ficamos sabendo sobre aquele processo. Vamos apenas nos lembrar da frase famosa “Emma Bovary c’est moi”. Considere isso um exercício. Exercícios são coisas que as mentes ociosas acabam fazendo, sem muita razão ou propósito, mas que soam um tantinho mais produtivos do que virar uma noite tentando bater recordes de time trial no VVVVVV.

Emma Bovary c’est moi, sou eu. Modos de entender isso fora do contexto. Primeira possibilidade: eu simpatizo com a luta de Emma. Eu também detesto a mediocridade provinciana, eu também detesto os modos da sociedade, eu também sou contra esse casamento-prisão. O romancista toma a luta (ideológica? política?) da protagonista para si. O romance a princípio disfarça: narrador em terceira pessoa, atitudes de menina mimada ocasionais por parte da Emmita. No tribunal, porém, o romancista escancara, sou eu, eu carrego essa bandeira contra a hipocrisia dos bons costumes.

Segunda possibilidade: eu sou Emma, ela é baseada na minha experiência pessoal. Bem, senhor Flôba, você é adúltero? Vou contar para sua esposa. Você acaba de confessar no tribunal que trai sua mulher e se deixa levar pelos amantes, e que depois é capaz dos atos mais extremos de mãozinha no joelho para conseguir dinheiro em um momento de desespero. Você está disposto a admitir isso, senhor Flaubert? Está?

Porra, Flaubert. Você tem coragem.

O pós-modernismo dê-lhe que dê-lhe brincando de nos confundir. A literatura enquanto jogo. Vila-Matas, o contrabandista de identidades construindo passados falsos para si em cada um dos seus livros. Borges mesclando fato e ficção sem distinção. A foto do Bernardo Carvalho (verdadeira? falsa?) quando criança ao lado de um índio na orelha do Nove Noites. “Escritores são mentirosos profissionais”, dizendo o Mojids para toda a Wikipédia. E você chega, Flaubert, lá do passado, e o seu Madame Bovary c’est moi perdura. As circunstâncias em que foram ditas se perdem, são esquecidas, não são mencionadas na quarta capa nem na orelha nem no prólogo. Mas a frase segue, em todos os cantos do mundinho literário, excessivamente citada, abusada, ligando para sempre romancista e personagem, fazendo a tão temida conexão autor e obra, tão detestada por Barthes. Porra, Flaubert.



Antes de iniciar o post propriamente dito, umas palavrinhas aos novos visitantes. Desde que este blog foi listado pelo Vila-Matas em seu site como recomendado (muchas gracias!), o número de visitas aumentou radicalmente. Agora recebo visitantes novos, além dos 80 de todo dia que eram sempre os mesmos. Sendo o sítio de Vila-Matas em espanhol, é meu dever decepcioná-los dizendo que tudo aqui está em português. Não obstante, se você não tem problema com a língua pode encontrar coisas do seu interesse. Falo muita bobagem por aqui, e falo também de música e videogame. Imaginando que o que há em comum entre eu e você, novo leitor, é a literatura, aviso que existe uma lista de tags no lado direito, abaixo dos links. Lá é possível navegar por tópicos.

Bueno, ao post.

***

Cada pessoa tem sua birra com o cânone. A maioria é porque ele costuma ser definido por algum ocidental branquela que faz escolhas com base “apenas estética”, quando bem se sabe que toda escolha estética é também uma escolha ideológica. E daí se exclui um par de gente que foi excluída no passado e continua sem ser revisitada. Mas não estou aqui para falar disso.

Essa não é minha implicância. Não hoje. A minha é com a falta de um guia sincero para os clássicos da literatura. Quer dizer, como o Calvino disse, o ideal é que cada um forme sua própria lista do que é clássico. Porém, porém, porém me parece importante que existam listas. Eu, enquanto leitor contemporâneo, gostaria de ver alguém experiente sugerindo livros antigos que eu normalmente não leria, se não fosse essa lista. O que me incomoda? Geralmente as pessoas que abordam os clássicos são medrosos. Acham que estão lidando com matéria sagrada, intocável. Faz falta, na minha opinião, um guia ao cânone que diga: “Esse livro, olha, para a sensibilidade contemporânea não diz muito. Esse livro, nos dias de hoje, pode ser visto como um pé no saco”. Se toda escolha canônica é no fundo parcial (e pessoal), porque não brincar com isso?

Veja bem. Tomemos um leitor. Um leitor – não um estudante de letras ou um classicista. Um leitor que quer descobrir um livro antigo que seja uma boa leitura. Ele recorrerá ao cânone, provavelmente. E lá vão ter, digamos, as inovações apresentadas por Flaubert. Como ele foi pioneiro na investigação psicológica dos seus personagens. Como ele é um esteta radical, que passava horas trabalhando numa frase para descrever o modo que entra a luz através da lareira. E lá vai o leitor lusófono encarar Madame Bovary em português, onde não encontrará essa beleza transcendental da palavra. E a tal investigação psicológica não parecerá de tirar o fôlego, não para esse leitor acostumado com McEwan ou Roth. E o pioneirismo, então, da mulher que luta contra os grilhões da sociedade? Importante para a época, ninguém discute, mas. Mas. OK, o fato de que ainda é possível discutir a fundo o texto e ter opiniões divergentes acerca da tal Emma segue igual. Mas os livros envelhecem, e cada livro envelhece de uma maneira diferente. Eu sinto falta de um cânone que diga: “Ó, assim, Os irmãos Karamazov pode ter investigações sobre o humano fenomenais, mas, só para te avisar, vão ter 50 páginas com uma discussão religiosa totalmente datada.”

Parênteses: isso me lembra um remoto 2004, quando eu era um jovem apaixonado pelo cinema do Jodorowsky e do David Lynch e tinha criado, no orkut, a comunidade “Cinema surrealista é massa”. A comunidade acabou se tornando um moderado sucesso de público (para esse tipo de comunidade), mas eu recebia, com alguma frequência, mensagens pedindo: “Gosto muito do que é discutido na comunidade, porém o título me incomoda. “Massa”? Não poderia mudar para ‘Cinema surrealista é instigante’, ou ‘me faz refletir’, ou algo nessa linha?” E eu sempre respondia que não, de jeito nenhum, pois isso seria romper com a proposta da comunidade. Depois de um tempo acabei fechando a comunidade.

Sinto que serei mal interpretado por esse post. Não quero dizer que Bovary ou os Karamazov perderam seu lugar ou seu valor, nem que devam surgir novas edições “editadas”. O que quero dizer é: as pessoas que abordam esses livros o fazem com luvas delicadíssimas. Falta um guia canônico para o leitor de hoje, que busca clássicos não para ver sua relevância para a história da literatura, mas sim para ver o que os livros antigos ainda podem nos dizer hoje. Quer dizer, muito provavelmente existem guias e listas assim, parece algo rentável. Entretanto, além de minoria, não são tão levados a sério. Aí que está o que mais me incomoda na academia e em certos círculos de literatos: a ditadura da seriedade e da Literatura com L maiúsculo. Puxar Tolstói da estante como se fosse um monumento. Muitos desses livros podem, de fato, ser monumentos – para alguns, para os que estiverem naquele espírito, naquela sintonia. Muitos podem ser um inferno se forem abordados, a priori, como sagrados pelo leitor, e ele buscar e buscar e não encontrar nada lá. Espero ter feito algum sentido, espero não ter me afogado nas setenta contradições desse post.



Resenha de “Doutor Pasavento” publicada no Jornal do Brasil (Rio de Janeiro). Cópia online aqui. (ponho todas resenhas & etc. no meu blog por questões de arquivamento). Já escrevi outras cousas acerca de Vila-Matas no blog, basta clicar na tag acima ou ao lado.

DE LEITOR PARA LEITOR

Doutor Pasavento, romance de Enrique Vila-Matas lançado agora no Brasil, representa uma das obras mais complexas e herméticas do autor – e uma das mais recompensadoras também.

“Sou um leitor que escreve.” É assim que se define o catalão Enrique Vila-Matas em entrevista a Juan Villoro no documentário Café com shandy. De fato, com exceção de A viagem vertical, todos os outros romances de Vila-Matas disponíveis no Brasil comprovam que ele é um leitor tão compulsivo que suas leituras vazam para dentro do tecido narrativo. Em Bartleby & companhia, constrói um catálogo de escritores (a maioria real, alguns fictícios) que, por um motivo ou outro, abandonaram a literatura. Em O mal de Montano, a escrita surge para curar a pulsão negativa retratada em Bartleby. O autor parte para o exato oposto: personagens doentes de excesso de literatura.

Doutor Pasavento, originalmente de 2004, lançado agora no país pela CosacNaify, surge como continuidade natural das preocupações do autor. Inclusive, em texto coletado no livro Vila-Matas Portátil (que reúne artigos críticos acerca do catalão), o escritor afirma enxergar Pasavento como fim de uma “trilogia da metaficção”, composta por Bartleby & companhiaO mal de Montano. A metaficção seria uma espécie de prosa voltada a si mesma, que versa sobre o próprio ato de escrever e que coloca preocupações literárias no centro do palco.

Logo nas primeiras linhas de Pasavento já se pode vislumbrar a alta carga referencial da prosa de Vila-Matas, que, transformado em personagem, serve de narrador e protagonista. “De onde vem a sua paixão por desaparecer?” é a pergunta feita por ninguém menos que o fantasma de Montaigne (“inventor” do gênero ensaístico) ao alter ego do autor. A partir dessa premissa, da obsessão latente pelo desejo de desaparecer, tem início o romance. Convidado para dar uma palestra em Sevilha sobre as fronteiras entre realidade e ficção, assunto sobre o qual não tem interesse em discutir, o narrador aproveita-se de um sósia que encontra num trem para escapar do evento e, partindo dessa coincidência, assume a personalidade de um fictício psiquiatra, o doutor Pasavento do título. É curioso observar que o assunto adiado (as fronteiras da realidade e da ficção) acabou por ser o tema central do livro seguinte de Vila-Matas, Exploradores del abismo.

As estratégias adotadas pelo narrador para buscar o sumiço iniciam por essa adoção de uma personalidade fictícia e pela obsessão por Robert Walser, escritor que conseguiu a desaparição tanto na vida real como, de certo modo, na própria ficção. Na ficção? A escrita como um modo de sumir? Os pensamentos do narrador parecem conduzir à célebre frase de Georges Bataille: “Escrevo para apagar meu nome”. Na segunda e na terceira partes, as mais longas do livro, Vila-Matas abusa da mescla entre ensaio e romance, locomovendo-se por referências e citações para compor uma bela reflexão acerca da natureza da literatura. O autor catalão demonstra um incrível talento para desenhar relações inusitadas: através de Walser, passeia por Kafka e Sebald; a partir de uma rua em Paris, liga pessoas tão díspares como André Gide e Karl Marx.

O romance, estruturado praticamente como uma guia do apagamento (impossível não lembrar a famosa música do Radiohead, How to disappear completely), chega ao ápice na quarta parte, na qual o narrador furta a identidade de um escritor que existe, o recluso Thomas Pynchon, cujo rosto é desconhecido por todos. O tema da impostura não é novidade para Vila-Matas, que, com frequência, falsifica a própria biografia, mas em Pasavento alcança novas e instigantes reflexões. Imitador fracassado, o Pynchon de Vila-Matas acaba se tornando um Pinchon com “i”, preso entre o original e a cópia, entre o real e o falso, entre a verdade e a ficção e, portanto, questiona todo esse sistema binário de posições. Um leitor interessado em teoria e filosofia pode associar essa reflexão com a noção de différance, do filósofo desconstrutivista Jacques Derrida.

Dito tudo isso, cabe a pergunta: quem é o leitor de Vila-Matas? Existe um público interessado em uma ficção tão autorreflexiva, erudita, lotada de referências como a dele? Quantos leitores captarão as referências a O arco-íris da gravidade na última parte de Pasavento? Esse tipo de prosa, cuja preocupação central é a própria escrita, não seria de certo modo o fim da literatura? Maurice Blanchot, citado pelo próprio Vila-Matas, profetiza: “Para onde vai a literatura? Rumo a si mesma, que é seu desaparecimento”. Muitos detratores do catalão criticam justamente isso: faltam personagens humanos, dramas terrenos. Falar apenas de literatura não passaria de um exercício de umbiguismo?

Em defesa do autor surge a voz do argentino Alan Pauls, autor do brilhante O passado. Pauls defende que a principal razão para invejar Vila-Matas é que ele resolveu o conflito entre a “literatura de mundo” e a “literatura que fala de si”, pois através das reflexões acerca da própria literatura Vila-Matas alcança o humano, o metafísico e, por que não, o mundo.

Doutor Pasavento, neste contexto, surge como expressão máxima do estilo elaborado pelo autor. Quem já era entusiasta da sua prosa, provavelmente considerará este romance um dos melhores da sua carreira. Aqueles que repudiam esse tipo de ficção, encontrarão mais argumentos para criticá-lo. Sai ganhando o leitor disposto a se perder nas redes de infinitas relações literárias que Vila-Matas constrói, o leitor “enfermo de excesso de literatura” (a doença dos personagens de O mal de Montano), o leitor que não tem medo de, como o narrador de Doutor Pasavento, desaparecer no meio da ficção.



Todo mundo mais ou menos interessado em literatura já ouviu falar da “Teoria do iceberg”, do Hemingway, que só partezinha do iceberg tá em cima d’água, ele esconde a maior massa. Ou seja, na literatura, muitas vezes vale mais o não-dito do que o dito. Bom, era só isso o que eu sabia sobre a teoria. Recentemente, graças a uma releitura de Hemingway (mestre), investiguei o Wiki dele e descobri a citação onde se menciona a teoria. Traduzo aqui:

“Se um escritor de prosa sabe o bastante sobre o assunto do qual está falando, ele pode omitir coisas que sabe e o leitor, se o escritor está escrevendo de forma verdadeira o bastante, sentirá essas coisas com tanta força como se o escritor as tivesse afirmado. A dignidade do movimento de um iceberg existe porque apenas um oitavo dele está acima d’água. Um escritor que omite coisas porque não as conhece apenas cria lugares vazios na sua escrita.”

Ei, essa é uma dica interessante, né não?

Ao mesmo tempo, fico pensando em todos os ataques que Hemingway recebeu justamente por escrever dessa forma (foi chamado até de anti-semita por causa do O sol também se levanta). Se tivesse dito as coisas claramente, teria se poupado de muito cansaço. Por outro lado, teria feito a prosa mais desinteressante de todas.



Folha – Em um trecho de “Doutor Pasavento” está escrito: “(…) penso no pouco saudável que, no fim das contas, foi publicar livros e tê-lo feito, em grande parte, para ter certa fama e depois poder administrá-la como um bom burguês e acabar dizendo banalidades em jornais e revistas, incapaz de ser o dono da mais ínfima partícula de terreno de índole privada, pessoal. Escrever é para isso”. O que fazer para que seja diferente?
Vila-Matas - Isso delineia um tema: em todo escritor verdadeiro há sempre um autêntico medo de ser descoberto como um não-escritor verdadeiro, que alguém conheça seus defeitos. Quanto mais verdadeiro e mais autêntico é, mais medo tem de ser descoberto.

Penso também numa frase de Elias Canetti, que diz que todo escritor famoso é um vencedor burguês que está ocupando o lugar de um escritor autêntico, de um escritor que está ausente. É terrível porque, na verdade, eu sempre entendi que o autor de sucesso suplantava o escritor de verdade, que era outro. Mas penso que pode ser que também suplante a ele mesmo, escritor, que só seria livre se não tivesse o nome que alcançou. Para isso, de todo modo, há também a solução de escrever com pseudônimo e voltar ao começo, escrever com toda a liberdade.

O resto tá ótimo e tá aqui.

Reli “Doutor Pasavento” para uma resenha no Jornal do Brasil. Já escrevi a resenha, mas só colocarei no blog quando tiver liberdade para tal, ou seja, depois de sair impresso no jornal.

Depois de ler essa entrevista senti vontade de mudar algumas coisas no meu texto, mas não. Mudar uma opinião por causa do que o autor fala sobre seu próprio livro não parece recomendável. Como dizia uma velha amiga minha, os livros não vem com “pocket writer” junto para te explicar o significado das coisas ou para te apontar caminhos de leituras.



Rapidíssimas (III)

24/02/10 | Tags:

Eu juro que logo volto a escrever normalmente no blog. A correria é grande porque estou terminando a reescrita/rerererevisão do meu livrinho de contos sobre o qual falei aqui.

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Quase toda semana alguém me manda (por motivos cômicos) algum absurdo de dissertação de mestrado que foi aprovada com A e que é composta do mais puro biriri acadêmico. É impressionante, os orientadores vão topando tudo, a banca tem vergonha de detonar e tchãrã, uma pessoa é mestre ou doutora tendo só papagaiado os teóricos da moda e bolado maneiras de não dizer nada através de apuds e op. cits. Enquanto isso, no mundo real, nas empresas que tem dinheiro, parece rolar uma certa meritocracia (quando não ocorre os Quem Indica): escolhem a pessoa não pela titulação, mas pela capacidade de fazer algo que preste. Daí a legião de pós-doutores acerca do Nada ficam coçando a cabeça se perguntando o que foi que deu errado, por quais motivos não estão ganhando tanto, &c &c.

(isso não é uma regra geral, existe gente maravilhosa titulada, é só um medo grande que eu sinto quando penso no sistema acadêmico).

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O jogo Bioshock 2 é o ápice do desenvolvimento que iniciou em Half-Life 1, ou seja, de obrigar o jogador a pensar estratégias criativas para cada situação, muitas vezes sem perceber que está fazendo isso. Uma delícia, portanto.

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Revendo Uma noite alucinante [Evil Dead 2] me dei conta de como a carreira inteira do Jim Carrey parece um plágio da atuação pioneira do Bruce Campbell nesse filme.

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Voltando à literatura, me pus a pensar naquilo que sempre dizem: “Quando os escritores de hoje morrerem, não vão publicar as cartas compiladas, mas os e-mails.” Meu pensamento foi para outras rotas. Pensem naqueles agentes literários selvagens que cavocam os arquivos, os computadores e os moleskines dos autores atrás de contos nunca publicados. Exemplo mais radical dos dias de hoje é o do Bolaño, que se encontram qualquer fragmento minimamente coerente já correm para publicar (El secreto del mal é prova disso, um livro que deveria existir só para os estudiosos mais hardcore do Bolaño) e ganhar uns trocados.

Enfim, no mundo de hoje, onde os HDs externos são uma maneira bastante popular de armazenar arquivos com segurança, imagina se morre o autor. Para quem não sabe, HDs externos tem senhas criptografadas que nem a própria empresa pode ceder. Se a única pessoa que sabe a senha falece, puf, ninguém mais terá acesso aos arquivos ali contidos. Nem um hacker monstruoso conseguiria. Faz a gente pensar sobre esses agentes descarados, né não? (nota: não sou contra toda publicação póstuma e até fiquei feliz de ler El secreto del mal, mas tem coisa ali que parece exploração, não literatura).



Atenção 5% de leitores interessados, segue OUTRO post sobre videogames (desculpem, estou de férias).

Um amigo meu dia desses refletiu sobre como a palavra indie estava denegrida. Se alguém falava em indie rock, a primeira imagem que vinha em mente era de algo como The Killers ou outra banda com The ____. Se falava em cinema indie, se pensava em filmes melosos com o Michael Cera. Se falava em HQs indies, se pensava em dramas cômicos com sujeitos desajustados e problemas familiares. Era questão de tempo até indie se tornar tipo emo, uma designação pejorativa, sempre. Eis então que eu retruquei: ei, mas e o indie gaming?

Sim, os jogos independentes. Pouca grana, muita criatividade. Equipes pequenas, gráficos mais simples.

O recente boom da indústria videogamística levou ao desenvolvimento de toda uma “blockbusterização” dos jogos. Cada vez mais próximos de Hollywood, o que importa são as explosões realísticas, o sujeito matando alienígenas das maneiras mais cinematográficas (o adjetivo não poderia funcionar melhor). É a lógica dos Call of Duty, do Uncharted 2. Tem muita coisa boa aí, claro. Call of Duty 4 rende cenas de beleza estarrecedora (testemunhar a explosão de uma bomba atômica em um flashback em primeira pessoa). Mas. Mas.

Começa a se espalhar, mais do que nunca, a cultura do indie gaming. Enquanto as grande softhouses buscam maneiras de deixar a representação do movimento da água do rio mais perfeita, gente como o Jonathan Blow desenvolve uma pérola como Braid. Já falei de Braid aqui? Acho que não. Mas falo dele no meu artigo sobre videogames na Vida Simples 91 que sai em março (onde tento convencer o leitor que videogames são culturalmente interessantes). Voltando ao Braid. Pegam uma estrutura clássica de plataforma, sugada de Super Mario Bros., e experimentam com ela. E se mais importante que “pular em cima dos monstros” fosse o controle do tempo? Poder brincar com o tempo como se fosse um looping do Sonic. E se os gráficos, na ausência de grana e equipe para criar um 3d perfeito, buscassem uma estética das pinturas impressionistas de Renoir? E se a premissa não fosse salvar a princesa, mas sim recuperar memórias perdidas? E se o final apoteótico fosse possível só na linguagem dos videogames (impossível na literatura, no cinema, na HQ…)? Esses são os segredos de Braid, um dos melhores jogos que já joguei.

Braid parece ser uma daquelas obras que pega um gênero e… entorta o coitado. Como o indie rock, quando funciona, também parece pegar estruturas padrões e reposicioná-los em uma lente esquisita (alô, Wolf Parade). O melhor, porém, é que Braid não é exceção. Há Machinarium (ver 2 posts atrás), há World of Goo (arte) e há os jogos de Terry Cavanagh.

Terry Cavanagh. Um sujeito que retornou aos pixels do 8-bits para mostrar que eles não estavam esgotados. Recentemente ele lançou um jogo pago, mas o resto está todo disponível gratuitamente aqui. Hoje fiz meu irmão Pedro (designer de joguinhos) jogar na íntegra o Don’t Look Back, experimento em plataforma do Cavanagh. “Genial” foi o comentário dele, após a segunda reviravolta metafísica que encerra o jogo/a narrativa. Algo tão simples como um homenzinho pixelado matando cobras e aranhas (referência mais do que direta ao Pitfall do Atari) pode ser aberto para um universo de significados. É por jogos como esse que quando opino que “jogos são culturamente relevantes” não me refiro apenas à cultura de massa, adaptações de Tomb Raider ao cinema e etcs.

É isso que me incomoda no jornalismo dos grandes jornais de games. São matérias direcionadas para o público infanto-juvenil e geralmente estão na seção de informática do jornal. Meu sonho é que um dia os videogames ocupem uma seção nos cadernos de cultura dos jornais. Ainda falta crítica séria no Brasil dedicada aos games.

[UPDATE] Só para constar, nos E.U.A. já tem gente que detesta o indie gaming, dizendo que são jogos preguiçosos posando de artê. Talvez comece a rolar isso, eu que dei sorte nas minhas escolhas do que jogar até agora.



Estou no Uruguai com acesso limitado a Internet. Isso explica minha ausência por aqui.

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Além de estar lendo alguns originais que prometi há décadas para amigos e para a Não, li Corazón tan Blanco, do Javier Marías, que serve como uma espécie de prelúdio ao Seu rosto amanhã, por compartilhar personagens e temas. Não obstante, Corazón funciona perfeitamente como uma obra em si (foi pensada assim) e me parece o ponto de partida ideal para alguém que quer experimentar um só livro do Marías. De fato, com tantos críticos na orelha chamando o livro de obra-prima, até me sinto mais tranquilo de usar esse termo tão batido. Que livro! Marías é digressivo, inconclusivo. Usa uma mescla de ensaio e ficção, como boa parte da tradição hispano-hablante. Em muitos momentos me lembra um Lobo Antunes mais acessível, mais narrativo. Quando notei que faltavam só 50 páginas para terminar o Corazón me deu uma dor. Passei a ler mais lentamente cada página, na esperança de que o livro durasse mais. Mas acabou. Tem escritores desse tipo, criadores de uma prosa tão deliciosa e crocante que podem estar falando de qualquer assunto, ainda assim continuarão interessantes. Javier Marías escrevendo sobre a história das listas telefônicas seria interessante. Sem brincadeira. Então logo que terminei comprei mais dois livros do cara, até porque aqui um livro dele sai 19 reais. Que eu saiba o Corazón tem em português em edição pocket da Cia. Das Letras. Não ler me parece criminoso.

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Estou lendo agora também Salvatierra, romance recente do argentino Pedro Mairal. O estilo do Mairal me lembra muito o do Daniel Galera, o que não deixa de ser engraçado, pois tenho quase certeza que um não leu o outro e vice-versa. Mais comentários sobre o livro do Mairal quando eu terminar a leitura.

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Macedonio Fernández é um fantasma. Estou tentando comprar seu romance Museo de la novela de la eterna e não acho em lugar algum, nem sob encomenda. Socorro.

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Os dias estão nublados, o que favorece a leitura. Tem uma sacadinha agradável boa de sentar e escrever. No free shop comprei um punhado de cervejas maravilhosas que só experimentaria com preços reduzidos, como foi o caso. Destaco especialmente a Fuller’s Discovery, uma blonde riquíssima de sabores. Leve, refrescante e ao mesmo tempo intrigante. Como uma música pop bem grudenta e ainda assim criativa e original.

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Cuidem-se.



Eu e a Mariana (ref. minha namorada) acabamos de zerar o Machinarium, primeiro longo adventure dos criadores do Samorost, e pensei que valia a pena gastar umas palavrinhas para falar do gênero adventure. Sei que 85% dos meus leitores visitam o blog por causa do blá blá blá literário, 10% pela música-cinema-e-cerveja, mas gosto de pensar que existe 5% de interessados em videogames. Esse é para os 5%, então. (ops, esqueci de incluir na matemática aqueles que entram só para falar mal, desculpa aí gurizada).

Pois, os adventures. Quando ganhei meu primeiro computador, lá por 1991, um 386 DX40 com 4 MB de RAM, ele vinha só com UM JOGO. O mouse não era um periférico muito popular na época, e só fui ter o sistema Windows alguns anos depois. Esse jogo se chamava Maniac Mansion, e tinha como protagonista uns jovens que entravam numa mansão amalucada governada por cientistas malucos e tentáculos gigantes. Eu tinha sete anos na época. Sete.

C64_Maniac_MansionVeja bem, o jogo envolve resolver uma série de “quebra-cabeças” (embora seja incorreto chamar eles assim) como descobrir que a chave está debaixo do tapete, e para isso precisa “mover” o tapete. Tudo em inglês, claro. Vocês sabem como é saudável para uma criança ter acesso a um jogo desses? OK, alguém vai dizer que saudável é o piá ir pra rua jogar futebol e viver a vida. Mas ignorando isso, pensando que ele se renderá a um entretenimento de massa. Aos sete anos de idade, aprendi todos os verbos em inglês que estão na imagem. Quando clicava no objeto (usando o cursor do teclado como mouse) ainda aparecia o nome. E ainda existiam os adventures de texto, como Police Quest, que tudo era digitado pelo usuário (”open door”). Não só aprendi acidentalmente inglês (e foi realmente jogando videogame que sei o inglês que sei hoje) como (acredito) desenvolvi o raciocínio lógico. São os adventures que me dão esperança numa função “pedagógica” do videogame. Quando os pais se apavoram “ohh, deveria eu deixar meus filhos jogar?”, tenho vontade de mostrar para eles jogos assim. Claro que não vejo nada de errado em jogar games de tiro e corrida quando criança, mas os adventures, ah, os adventures.

Só que eles saíram de moda. Por um longo período, pós-época de ouro da LucasArts (Sam’n'Max! Monkey Island!), pós-Myst, pós-Phantasmagoria (tentativa de usar filmagens live action para captar a atenção), ninguém deu bola para os adventures. Pararam de ser fabricados pelas grandes empresas, que preferiram investir em no máximo RPGs de ação. Acho que o principal culpado da queda dos adventures foi o desenvolvimento gráfico. O realismo nos gráficos causou uma euforia que fez o público esquecer o simples prazer de ficar coçando a cabeça tentando descobrir o que tem que fazer.

O tempo passa, gamers envelhecem, e muita gente voltou a se perguntar o que  tinha acontecido com os adventures. E então, o que aconteceu? Pois, as grandes empresas continuam ignorando o gênero. Porém, com o boom da internet e a facilitação do game design, muitas pequenas empresas como a TellTale Games e a Amanita Design voltaram a produzir adventures, agora dividindo em jogos menores (os tais episódios) e cobrando preços mais acessíveis (no máximo dos máximos 19 dólares para um game mais longo). E, livres de ter que agradar um grande público, passaram a experimentar.

machinarium_03_fullMachinarium, que mencionei na primeira linha, é prova disso. O jogo, criado por um pessoal da República Tcheca, traz gráficos desenhados a mão, robôs tragicômicos, referências a Atari, trilha sonora digna de um disco ambient que a Pitchfork elogiaria. O jogo não utiliza diálogos (uma criança não aprenderia inglês, portanto), mas exercita o raciocínio nos mais diversos fronts de batalha: do puzzle mais hardcore ao uso do ouvido musical. O encanto permanece o mesmo que na época que eu jogava o primeiro Sam’n'Max.

O adventure vive.

[UPDATE] Após conversa na caixa de comentários, pensei uma cousinha. Sim, são puzzles mesmo que os adventures oferecem, mas a graça dos adventures é que eles disfarçam os quebra-cabeças. Ou seja, obrigam o gamer a pensar fingindo que estão apenas contando uma história interativa.



a-fraction-of-the-wholeTerminei semana passada o tijolão A fraction of the whole, do Steve Toltz, e não consigo entender direito porque não gostei do livro.

1. O livro foi “descoberto” pela Bensimon em Paris. Steve Toltz é um autor australiano que ainda não estourou muito por esses lados aqui. Daniel “Mojids” Felizzardi amou o livro e defendeu o romance como eu só tinha visto ele fazer com The last samurai da Helen DeWitt. Tiago “Ductilissimo” A., fez defesa similar. Então eu tive que conferir, não?

2.1 A primeira coisa que me incomodou no livro, é que nas 520 páginas dele não param de acontecer coisas. Sério, parece romance picaresco. A cada página um episódio diferente. A cada 50, uma reviravolta. Uma morte a cada 100.

2.2 Mas dá para reclamar de uma coisa dessas? Essa minha incomodação é válida? Será que eu gosto é de livro parado, livro chato, livro não-narrativo? Que espécie de argumento é esse?

3.1 Outra coisa que me incomodou é o humor, o livro é constantemente “engraçadinho”/”espertinho”. Na verdade as palavras mais adequadas para definir A fraction of the whole seriam “witty” e “clever”, e acredite, são palavras sem equivalente no português. A cada parágrafo tem uma observação espertinha acerca da vida, o universo e tudo mais.

3.2 De novo: dá para reclamar de uma coisa dessas? Não dá! Por que me irritou? Não sei! Me irritou como me irritou acontecer coisas demais! Será que isso quer dizer que gosto de um livro chato, sem humor?

4.1 e .2 O livro é todo bem construidinho: bons personagens, boas descrições. Parece resultado nota A de um curso de creative writing. Segue bem a tradição anglófona de literatura. Está, na minha opinião, bem na linha de autores norte-americanos como Safran Foer & cia. E isso também me incomodou! Deus do céu, estou chato.

5.1 Por fim, é um livro que não constrói algo no final. É composto de pequenas frações do todo, mas no final da leitura, senti ter saído dela incólume.

5.2 Mas não seria esse o propósito do livro? Olha o título, “uma fração do todo!”, o livro não pretende construir um grande significado final. E existe algo mais ridículo no século XXI do que esperar um todo? Não deveria ficar feliz com os fragmentos, com a impossibilidade do todo? Sim, eu deveria, todo meu conhecimento me orienta para isso. E, no entanto, não fiquei feliz.

Um resumo: Eu não gostei do livro, embora não tenha conseguido largar ele. Pior, não consegui encontrar um só argumento válido para explicar porque eu não gostei do livro. Se eu fosse pago para resenhar a obra, provavelmente faria uma resenha positiva, pois não dá para eu me render a um impressionismo tão obscuro, dá? Não, não dá. E ainda assim, não consigo ficar em paz.

Um resumo sobre o resumo: O que eu quis dizer com esse post? Acho saudável explicitar, já que muita gente me entende errado nessas bandas. ORAS, SIMPLES, só que eu não entendo meus procedimentos de leitura, ou então que meu processo de fruição é diferente dos meus procedimentos críticos, frios. E que conclusão podemos tirar disso? Não sei! Isso não é desesperador?