Não, o blog não voltou, é apenas um espasmo post-mortem pois gosto de listas. Na verdade, acho que todo mundo gosta de listas, mas metade das pessoas finge odiar. Ou talvez muita gente odeie mesmo – e tudo bem.
Então segue a minha, pessoal & intransferível como sempre, movida por critérios estéticos insondáveis, incoerentes e quiçá incompreensíveis.
Melhor filme do ano
Vi poucos filmes no ano, mas, do que assisti, estou com o Zé Geraldo e não abro: Holy Motors, do francês Leos Carax. Não que eu tenha entendido tudo o que aconteceu na tela, não que eu tenha bolado uma interpretação muito fenomenal para o filme, nada disso. É um filme desvairado e hilário, do jeito que eu gosto. Me lembrou em vários momentos de Fando & Lis, que eu também gosto.
Melhor disco do ano

Mais de dez anos sem fazer um disco, e quando gravam um, é como se todo esse tempo não tivesse passado. Rotular “Allelujah! Don’t Bend! Ascend!”, do Godspeed You! Black Emperor, de “pós-rock” é jogar a banda canadense no lodaçal de cinquenta mil clones de Mogwai e Tortoise que povoam nosso universo, portanto um crime. GY!BE é música religiosa e música política ao mesmo tempo. É música mística, de revelação e elevação, e música urgente, de protesto. Não é à toa que usaram de trilha para o vídeo que registra a violência policial gratuita usada contra manifestantes em Porto Alegre.
Mas é este realmente o melhor disco do ano?
Sim, acho que o disco do GY!BE é o melhor disco do ano, o mais “música”, o mais “sério”, o mais “importante” etc. etc. etc. Todavia, não obstante, contudo, porém, o melhor disco do ano em termos de valor “afetivo” há de ser o novo dos Chromatics, Kill for Love. Para explicar o quanto gosto desse disco, porém, precisaria de muitos parágrafos, precisaria discorrer longamente sobre os anos 80, sobre repensar os anos 80, sobre sintetizadores, e sobre luzes vermelhas que iluminam um prédio em construção que posso ver pela janela do meu quarto. Não é um disco perfeito, há faixas com auto-tune grotesco numa voz masculina que poderiam – e deveriam – ser cortadas. Tô nem aí.
Melhor exposição do ano
No Rio de Janeiro: William Kentridge: fortuna, no IMS-RJ. Mas eu trabalho no IMS, então estou sob suspeita. Mas Kentridge é o cara, especialmente nas animações.
Em São Paulo: a discreta exposição de fotografias Observadores: fotógrafos da cena britânica de 1930 até hoje.
Melhor livro lançado em 2012 que li em 2012
Um útero é do tamanho de um punho, da poeta brasileira Angélica Freitas. De feminismo combativo, irreverência selvagem e humanismo desarmador, o livro da Angélica parece diferente de todos outros livros de poesia que li recentemente. Sem afetações, faz poemas com auxílio do autocompletar do Google. Quando se arrisca a fazer um poema mais tradicional, emociona. Não é um livro para todos, mas foi um livro para mim.
Melhor livro que não é de 2012 mas eu só li em 2012

De 2011, inédito no Brasil e sem previsão de publicação em solo nacional, esse livro de Ben Lerner, muito citado no ensaio sobre a “Geração teoria”, tem cara de “romance de formação tradicional”, mas apresenta discussões sobre arte contemporânea e a recorrente história da crise da representação e do fim da experiência, o que o coloca uns degraus acima de outros romances de formação lançados recentemente. Aqui está um trecho. Ah, já falei que é um livro engraçado? É um livro muito engraçado. E tem um narrador carismático obcecado por Ashbery.
Melhor jogo de 2012

Que coisa tão previsível. Eu, o eterno defensor do “videogame enquanto meio fértil para a criação artística” elegi Journey, o garoto-propaganda do “videogame é arte, cara!”, como jogo do ano. Mazanfã, é uma experiência sem igual. A interação com outro personagem que só emite notas musicais, que pode te ajudar, mas nem tanto, pois afinal, você terá ainda que percorrer todo o deserto, o visual, a história, a mística etc. etc. etc. Journey, sabe? Nem tem muito o que falar. Joga-se de uma sentada. Você sai da experiência sentindo a melhor da sensações. Nunca um título definiu tão bem uma obra.
Melhor show do ano
Num ano em que assisti a Justice, Ryuichi Sakamoto & Alva Noto, Feist, The Mission UK, John Zorn, Dirty Projectors, Eluvium, Of Montreal e várias outras bandas, fica até difícil escolher o melhor show, mas novamente seguirei o caminho da obviedade e direi que o maior de todos foi o Mogwai. Para a banda escocesa, deve ter sido um show curto, apressado etc. Para mim, que nunca tinha visto a minha banda preferida ao vivo, foi de perder a audição. Literalmente.






