Melhores de 2012

18/12/12 | Tags:

Não, o blog não voltou, é apenas um espasmo post-mortem pois gosto de listas. Na verdade, acho que todo mundo gosta de listas, mas metade das pessoas finge odiar. Ou talvez muita gente odeie mesmo – e tudo bem.

Então segue a minha, pessoal & intransferível como sempre, movida por critérios estéticos insondáveis, incoerentes e quiçá incompreensíveis.

Melhor filme do ano


Vi poucos filmes no ano, mas, do que assisti, estou com o Zé Geraldo e não abro: Holy Motors, do francês Leos Carax. Não que eu tenha entendido tudo o que aconteceu na tela, não que eu tenha bolado uma interpretação muito fenomenal para o filme, nada disso. É um filme desvairado e hilário, do jeito que eu gosto. Me lembrou em vários momentos de Fando & Lis, que eu também gosto.

Melhor disco do ano


Mais de dez anos sem fazer um disco, e quando gravam um, é como se todo esse tempo não tivesse passado. Rotular “Allelujah! Don’t Bend! Ascend!”, do Godspeed You! Black Emperor, de “pós-rock” é jogar a banda canadense no lodaçal de cinquenta mil clones de Mogwai e Tortoise que povoam nosso universo, portanto um crime. GY!BE é música religiosa e música política ao mesmo tempo. É música mística, de revelação e elevação, e música urgente, de protesto. Não é à toa que usaram de trilha para o vídeo que registra a violência policial gratuita usada contra manifestantes em Porto Alegre.

Mas é este realmente o melhor disco do ano?


Sim, acho que o disco do GY!BE é o melhor disco do ano, o mais “música”, o mais “sério”, o mais “importante” etc. etc. etc. Todavia, não obstante, contudo, porém, o melhor disco do ano em termos de valor “afetivo” há de ser o novo dos Chromatics, Kill for Love. Para explicar o quanto gosto desse disco, porém, precisaria de muitos parágrafos, precisaria discorrer longamente sobre os anos 80, sobre repensar os anos 80, sobre sintetizadores, e sobre luzes vermelhas que iluminam um prédio em construção que posso ver pela janela do meu quarto. Não é um disco perfeito, há faixas com auto-tune grotesco numa voz masculina que poderiam – e deveriam – ser cortadas. Tô nem aí.

Melhor exposição do ano

No Rio de Janeiro: William Kentridge: fortuna, no IMS-RJ. Mas eu trabalho no IMS, então estou sob suspeita. Mas Kentridge é o cara, especialmente nas animações.

Em São Paulo: a discreta exposição de fotografias Observadores: fotógrafos da cena britânica de 1930 até hoje.

Melhor livro lançado em 2012 que li em 2012

Um útero é do tamanho de um punho, da poeta brasileira Angélica Freitas. De feminismo combativo, irreverência selvagem e humanismo desarmador, o livro da Angélica parece diferente de todos outros livros de poesia que li recentemente. Sem afetações, faz poemas com auxílio do autocompletar do Google. Quando se arrisca a fazer um poema mais tradicional, emociona. Não é um livro para todos, mas foi um livro para mim.

Melhor livro que não é de 2012 mas eu só li em 2012

De 2011, inédito no Brasil e sem previsão de publicação em solo nacional, esse livro de Ben Lerner, muito citado no ensaio sobre a “Geração teoria”, tem cara de “romance de formação tradicional”, mas apresenta discussões sobre arte contemporânea e a recorrente história da crise da representação e do fim da experiência, o que o coloca uns degraus acima de outros romances de formação lançados recentemente. Aqui está um trecho. Ah, já falei que é um livro engraçado? É um livro muito engraçado. E tem um narrador carismático obcecado por Ashbery.

Melhor jogo de 2012

Que coisa tão previsível. Eu, o eterno defensor do “videogame enquanto meio fértil para a criação artística” elegi Journey, o garoto-propaganda do “videogame é arte, cara!”, como jogo do ano. Mazanfã, é uma experiência sem igual. A interação com outro personagem que só emite notas musicais, que pode te ajudar, mas nem tanto, pois afinal, você terá ainda que percorrer todo o deserto, o visual, a história, a mística etc. etc. etc. Journey, sabe? Nem tem muito o que falar. Joga-se de uma sentada. Você sai da experiência sentindo a melhor da sensações. Nunca um título definiu tão bem uma obra.

Melhor show do ano

Num ano em que assisti a Justice, Ryuichi Sakamoto & Alva Noto, Feist, The Mission UK, John Zorn, Dirty Projectors, Eluvium, Of Montreal e várias outras bandas, fica até difícil escolher o melhor show, mas novamente seguirei o caminho da obviedade e direi que o maior de todos foi o Mogwai. Para a banda escocesa, deve ter sido um show curto, apressado etc. Para mim, que nunca tinha visto a minha banda preferida ao vivo, foi de perder a audição. Literalmente.

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Espalhado por aí (parte II)

04/09/12 | Tags:

Como você deve ter percebido, este blog está MORTO. Isso não significa que parei de escrever, é claro. Tem pilhas de textos meus lá no Blog do IMS. Segue um resumo dos meus últimos textos, divido por assuntos:

BRINCANDO DE JORNALISTA MUSICAL E COBRINDO SHOWS

Of Montreal é o novo Dzi Croquettes? Não sei, mas foi forte.

Coisas que me fazem chorar que nem uma criancinha: show do Eluvium.

Perdendo a audição ao lado da caixa de som durante o show do Mogwai.

RETOMANDO A CINEFILIA

Por que diabos Hal Hartley foi esquecido?

Por que diabos Control me emociona tanto?

PERDIDO PELO ACERVO

Um texto sobre o jornalzinho que Ana Cristina Cesar editou aos nove anos de idade.

Um microtextinho sobre o dicionário de cinema que faz parte da biblioteca de Drummond.

LITERATURA ETC.

A alegria das epígrafes.

Coetzee e DFW, esses acadêmicos anti-acadêmicos que gostam, de vez em quando, do mundo acadêmico.

Prosa elegante, Wells Tower, Aleksandar Hemon.

Robert Walser e… Skyrim. Sério. (cada ideia…)

EPÍLOGO: ALGUMAS RESENHAS PUBLICADAS NO BLOG DA VEJA

Bonsai, de Alejandro Zambra.

Cães heróis, de Mario Bellatin.

História do cabelo, de Alan Pauls.

(tem várias outras, mas cansei de linkar).

Acho que é isso. Cuidem-se.

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Livros não deveriam ser adaptados para games, assim como games não deveriam ser adaptados para livros. Não os bons, ao menos. São formas de arte tão distintas que pensar nestas adaptações parece, de vez em quando, tentativas de imaginar uma obra arquitetônica no formato de uma canção de heavy metal (sim, isto foi uma distorção da frase “Falar sobre música é como dançar sobre arquitetura”). O que segue abaixo, uma lista de adaptações possíveis de livros para o mundo dos videogames, não passa, portanto, de uma brincadeira.

1)      Moby Dick, de Herman Melville

Moby Dick poderia funcionar muito bem no formato de um RPG de ação como Mass Effect 2: o protagonista caminhando pela nave (no caso, o navio) conversando com tripulantes, explorando ilhas vizinhas, resolvendo os problemas pessoais dos outros (imagine: um sidequest no qual você precisa fazer um favor a Queequeg, como vingar a morte de seu irmão na ilha de canibais de onde ele veio), enquanto a trama principal (a caça à baleia) se desenrola. Dilemas morais e longos monólogos aconteceriam.

2)      O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna

Jogos de videogame são divididos entre os “narrativos” e os “não-narrativos”. Games de esporte fazem parte do segundo tipo: são partidas descontextualizadas (no máximo, existem dentro de um campeonato). Não há diálogos ou enredo. Mas imagine que sensacional um jogo de futebol à moda de Fifa ou PES intercalado com uma trama envolvendo Muhammed Mané, de seu início na cidade de Ubatuba até o sucesso na Alemanha e a explosão inexplicável da bomba. Rá rá rá rá rá!

3)      O terceiro Reich, de Roberto Bolaño

Sempre que penso nos jogos de grand strategy da Paradox, como Europa Universalis e Hearts of Iron, me lembro do jogo de tabuleiro de guerra descrito por Bolaño neste livro. Seria muito fácil (mas moralmente complicado) adaptar O terceiro Reich para um jogo nesta linha. A diferença é que o jogador poderia escolher entre Udo Berger, o alemão turista, ou Queimado, o latino-americano torturado.

4)      A metamorfose, de Franz Kafka

Tecnicamente, a mais famosa novela de Kafka já recebeu uma adaptação bem livre para os games. Tá duvidando? Pesquise o jogo Bad Mojo, de 1996. Nele, você controla um homem que foi transformado em uma barata que precisa desviar de vários obstáculos – o que inclui ratos mortos, navalhas antigas etc. Sim, todos sabemos que Gregor Samsa vira um inseto mais próximo de um besouro, mas aceitemos a liberdade poética dos desenvolvedores. E que tal se saísse uma versão nova desse jogo, um Bad Mojo HD, quiçá mais fiel ao clássico de Kafka? E se o objetivo desta hipotética adaptação fosse realizar o sonho de Samsa, isto é, chegar ao trabalho na hora, sentar em sua cadeira, deixar o chefe contente?

5)      Ubik, de Philip K. Dick

Qual livro de Philip K. Dick não inspiraria um jogo? Difícil dizer. Ubik poderia ser recontado como um jogo em primeira pessoa, gênero dominante no cenário atual. A grande graça estaria na arma Ubik. Assim como Half-Life 2 revolucionou os jogos em primeira pessoa tendo uma arma de gravidade, Ubik teria uma arma de realidade – afinal, era isso que o spray Ubik fazia no romance de K. Dick: restaurava o real. Se Ubik representa Deus, pouco importa. Eu quero mais é espalhar o spray por aí.

6)      House of leaves, de Mark Z. Danielewski

O livro do Danielewski possui tantas referências pop e brincadeiras formais que ele é praticamente um videogame em forma de livro. Ainda assim, adoraria ver um jogo experimental de horror, na linha de Amnesia: The Dark Descent e Penumbra, no qual você caminha por lugares sombrios sem saber direito o que diabos está fazendo lá… até o momento em que toma um susto pavoroso e sai correndo para longe do computador.

7)      Idoru, de William Gibson

Os games devem tanto, tanto, tanto, tanto às ideias de Gibson, que é difícil imaginar que System Shock e Deus Ex existiriam se não fossem os livros de Gibson e o universo cyberpunk por ele criado. Ainda assim, faz falta um RPG futurista que seja uma adaptação fiel de suas obras (o Neuromancer de 88 não vale). Idoru tem todos os elementos de um bom RPG futurista: conspirações, corporações, ídolos virtuais…

8)      O tempo e o vento, de Erico Verissimo

A trilogia épica do autor gaúcho Erico Verissimo trata, entre outras coisas, de guerra e honra – temas perfeitos para o mundo dos games. Imaginem um Red Dead Redemption onde você controla o Capitão Rodrigo e participa de tensas escaramuças? Um faroeste sul-rio-grandense: meus olhos se enchem d’água só de pensar.

9)      Medo e delírio em Las Vegas, de Hunter Thompson

Só japoneses seriam capazes de adaptar qualquer livro de Hunter Thompson. Games ocidentais costumam ser muito comportados, e evitariam temas como alcoolismo e abuso recreativo de drogas. Mas é uma receita para o sucesso: um protagonista se deslocando por cenários delirantes, enfrentando morcegos e os demônios de sua própria imaginação.

10)   Finnegan’s Wake, de James Joyce

Um jogo de adventure à moda de Myst, no qual você passa a maior parte do tempo tentando entender o que diabos está fazendo e o que precisa ser realizado para avançar. De alguma forma (e uns dois meses depois), você chega ao final do jogo, e tenta extrair um sentido de tudo aquilo. Sente-se meio burro e vai atrás de alguma explicação na internet.

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Este texto foi originalmente publicado no fanzine Casmurros #3, que pode ser baixado aqui.

Também escrevi sobre a relação livros-games no IMS, falando de Walser e Skyrim.



- Música

1) Destroyer – Kaputt

(talvez não seja o melhor disco do Destroyer, mas é o mais coeso e relaxado, sem medo de soar brega).

2) Beastie Boys – Hot Sauce Commitee Pt. 2

Péééun uééén uééén uérem

3) Feist – Metals

Sei lá, gostei bem mais que qualquer outra coisa que a Feist já fez. Abandonou o lado “fofinho” de vez.

4) The Rapture – In the Grace of Your Love

Os fãs de The Rapture detestaram, eu adorei.

5) Esben & The Witch – Hexagons EP

(meu lado trevoso ainda pulsa)

Menções honrosas: Mastodon – The Hunter; Handsome Furs – Sound Kapital; St. Vincent – Strange Mercy; Tim Hecker – Ravedeath, 1972; Bon Iver – s/t

Decepções: Marissa Nadler – s/t; Explosions in the sky – Take care, take care; Mogwai – Hardcore will never die, but you will.

Cinema

Não vi filmes bons esse ano. Nenhum espetacular, ao menos. “Melancolia” é bacaninha, sei lá.

Games

1) Deus Ex: Human Revolution

O visual, a renovação do cyberpunk, o sneak perfeito, a tensão, as múltiplas possibilidades.

2) Elder Scrolls V: Skyrim

Se perder completamente pelo mundo, andar sem rumo, contemplar a aurora boreal.

3) Killzone 3

Desculpa, mas tem jetpacks.

Cinco bons livros lançados em 2011 no Brasil (fora de ordem)

“Retrato de um viciado quando jovem”, Bill Clegg

“Diário da queda”, Michel Laub

“Guerra aérea e literatura”, W.G. Sebald

“História do cabelo”, Alan Pauls

“Amor e obstáculos”, Aleksandar Hemon

Livros fracos que li em 2011: “Nêmesis”, de Philip Roth; “Claraboia”, de José Saramago.



Tenho escrito pra caramba em outros sites e, como consequência, tenho tido pouco tempo para produzir material inédito para o blog. Como sempre usei este espaço para compilar meus textos, nada mais lógico que eu linke aqui algumas destas participações:

1) Escrevi uma resenha sobre “Escuta só”, do Alex Ross, na Veja.com

2) Escrevi um texto irônico-engraçadinho-hiperbólico-com-alguns-traços-de-verdade para o IMS sobre a figura do jovem escritor brasileiro.

3) Escrevi um texto sobre os motivos (ou falta de) para ler literatura contemporânea, também no IMS.

4) Escrevi um texto para a seção Bastidores do Suplemento de Pernambuco (seção na qual escritores contam como foi a experiência de escrever seu livro) falando sobre meu retorno aos contos com A página assombrada por fantasmas.



Por muito tempo lutei com Os anéis de saturno, romance de Sebald disponível no Brasil há um bom tempo. Tentei ler uma vez. Parei na página 40. Tentei ler uma segunda. Parei na página 100. Um amigo me contou que a edição que eu lia era ruim, pois tinha uma tradução péssima de Lya Luft. Como não falo uma só palavra de alemão (mentira: Achtung! Zeitgeist!), não pude concordar ou discordar. Já outro disse que não havia nada de errado na tradução de Luft, que ela era exceletne. O problema é que Sebald não era para mim. Então abandonei W. G. Sebald por mais de ano – achando que o elogiadíssimo escritor alemão era um chato de galochas.

Fast-forward para o presente. Lançam Guerra aérea e literatura (Companhia das Letras, 2011, 136 pg.) no Brasil. Baixo no Kindle um sample (o aparato tem essa função de downloadear um “primeiro capítulo” de amostra. Interesso-me instantaneamente pelo título (que em inglês é: On the natural history of destruction) e pela proposta: conferências que o autor alemão deu acerca do fato de que não houve um “eco literário” nas letras alemãs dando conta dos horrores presenciados pela população na época dos bombardeios dos aliados.

Sim, pois é verdade: nós, leigos, estamos acostumados a pensar, ainda que de forma inconsciente, na Segunda Guerra como: “maldades de Hitler” + “retaliação dos aliados”. Sim, sei que fui radicalmente simplificador, mas pense: “Segunda Guerra”. O que vem em mente? Auschwitz. E depois: Dia D, fim do Terceiro Reich. Claro, talvez pensemos nos milhões de russos que morreram no campo de batalha. Em Pearl Harbor. Em Hiroshima e Nagasaki. E os bombardeios nas cidades alemãs? E Dresden e Hamburgo e os milhares de civis mortos? Bem – ao menos os alemães devem lembrar disso. Mas, de acordo com a hipótese de Sebald, houve uma gigantesca amnésia coletiva.

Portanto, em Guerra aérea e literatura, Sebald mapeia, ao mesmo tempo, os horrores dos bombardeios e o retrato destes na literatura – retratos escapistas, mistificantes, floreados. Ou pior: a ausência de qualquer tentativa de retratar, simbolizar, mimetizar, representar.

E pronto. Estou convertido ao Sebaldismo. Não acho mais Sebald um chato de galochas. Mas há algo que ainda não entendo completamente. O uso de fotografias, recurso presente em todas as obras de Sebald das quais tomei conhecimento. Mencionei antes que comecei a ler o livro no Kindle – e desisti e migrei para a edição brasileira em papel por um motivo. Pelas fotos (que ficam pixeladas no e-reader).

No momento mais marcante do livro, Sebald fala da destruição de Hamburgo, de corpos queimados e do que acontece com um organismo que sofreu temperaturas impensáveis. Junto dessa descrição, há uma foto de corpos queimados. Juro que não entendo o motivo dessa foto. O ditado diz: “Uma foto vale mais do que mil palavras”. Meu querido ditado, você não conhece as mil palavras de Sebald. A descrição de Sebald é muito mais impressionante do que qualquer foto. As fotos de Sebald servem para quê? Provar que algo aconteceu? Ao falar de Alfred Andersch (escritor que consegue humilhar com uma mera epígrafe no início do capítulo), por exemplo, anexa a foto de uma carta escrita pelo autor. Precisava? Que informação a mais aquela carta nos dá? Olhar a caligrafia do autor tornará tudo mais presente, vivo? Não sei. O uso de fotografias em Sebald ainda é um enigma para mim.

A inclusão de fotografias na literatura é um artifício razoavelmente comum na produção contemporânea. Penso em dois autores que se valem bastante disso. Javier Marías, em Seu rosto amanhã, interrompe a narrativa para mostrar pôsteres antigos sobre os riscos de contar um segredo para outra pessoa durante a época da espionagem de guerra. É uma quebra curiosa, que tampouco entendo. Já o mexicano Mario Bellatin, em Los fantasmas del masajista, narra a história de um massagista especializado no tratamento de pessoas sem algum membro do corpo e sua mãe declamadora de rádio. Ao final da novela, inicia-se uma série de fotografias coloridas mostrando o que seria cada coisa: “a clínica”, “a mãe do massagista” etc. Este suplemento fotográfico ressignifica tudo o que foi lido anteriormente. Dá uma imagem (geralmente distorcida, bizarra, ou até cômica) para as palavras. Agora as palavras existem também em um plano imagético, concreto, mas que não revela nada. Bellatin não é um partidário da “verdade”: suas fotografias não encerram as palavras, não mostram “ó, foi assim”. Pelo contrário: escondem mais, tornam tudo ainda mais opaco e misterioso.

E as fotos de Sebald? Não entendo ainda. Acho que vou ter que continuar lendo o autor. Assim começam as crônicas de um recém-convertido ao Sebaldismo.

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Texto publicado originalmente no Meia Palavra.



Conselhos de Adorno

20/08/11 | Tags:

Já encontrei conselhos a escritores em dezenas de blogs e suplementos culturais. Quase qualquer autor já se dispôs a se manifestar nesta linha, de Rilke a Palahniuk (caraca, já perguntaram esse tipo de coisa até para mim). No entanto, acho que nunca vi citarem Adorno nestes espaços. Bem, talvez porque as sugestões de Adorno sejam mais úteis para ensaístas, ou para aqueles ensaístas que ainda não tiveram coragem de sair do armário e ficam brincando de ficcionistas por aí. Relendo Minima Moralia, notei que o filósofo banca o conselheiro um punhado de vezes durante o livro. O exemplo mais interessante que pincei está no texto de número 51, “Atrás do espelho”. Segue abaixo o meu recorte (tradução de Gabriel Cohn):

“Uma regra de segurança do escritor: examinar cada texto, cada peça, cada sentença para ver se o tema central se apresenta com suficiente nitidez. Aquele que busca exprimir algo está tão envolvido nisso que se deixa levar sem refletir. Fica-se “em pensamento” demasiado rente à intenção e esquece-se de dizer o que se quer dizer.

Nenhum aperfeiçoamento é tão pequeno ou insignificante que não devêssemos realizá-lo. Em cada cem alterações, cada uma pode parecer tola e pedante; juntas, podem representar um novo nível do texto.

Sem mesquinharia ao riscar passagens. A extensão do texto é indiferente e o medo de que nele não haja o bastante é pueril. Nada deve ser tido por digno de existir só porque está aí, foi escrito. Se várias sentenças aparentemente são variações da mesma ideia, então com frequência apenas exprimem diferentes tentativas de captar algo sobre o qual o autor ainda não tem domínio. Neste caso deve-se selecionar a melhor formulação e prosseguir o trabalho nela. Faz parte da técnica de escritura poder desistir até mesmo de ideias fecundas quando a construção o exige. (…)

Quem quiser evitar os clichês não pode restringir-se a palavras, se não quiser sucumbir à leviandade vulgar. A grande prosa francesa do século XIX era muito sensível a isso. É raro uma palavra isolada ser banal: também na música o tom isolado desafia a usura. Os clichês mais repugnantes são combinações de palavras do tipo que Karl Kraus fisgou: a qualquer preço, firme e forte, a mais não poder. Pois neles como que respinga o preguiçoso rio da linguagem choca, ao invés de o autor colocar pela expressão precisa aqueles obstáculos que se fazem necessários onde a linguagem deve se apresentar. Isso não vale apenas para as combinações de palavras, mas até para a construção de formas inteiras. Se ocorresse a um dialético marcar a transformação do pensamento ao longo de seu curso por um “mas” em cada cesura, então o esquema literário desmentiria a intenção não esquemática da proposta”.



Kafka em Auschwitz

25/07/11 | Tags:

Impressionante como o “método Kafka de narrar” se tornou, mais do que um estilo associado a Kafka, uma estratégia narrativa para contos e romances nos quais o narrador precisa descrever algo muito chocante/horrível/incompreensível. Explico. Talvez Kafka não tenha sido o pioneiro nisto (muito provavelmente não foi), mas suas narrativas tornaram popular o narrador que descreve, em tom monocórdio e sem afetações ou dramas, o maior horror. Muitos apontam que é justamente isso que causa o impacto em A metamorfose: o fato de que o narrador não fica gritando OMFG VIREI UM INSETO.

É muito fácil, portanto, detectar certa inspiração kafkiana em livros como Vida e época de Michael K., do Coetzee, e o romance que leio neste momento, Fatelessness, do húngaro Imre Kertész, onde um adolescente acaba indo parar em Auschwitz e descreve tudo com uma neutralidade assombrosa. Isso não diminui, claro, o talento de Kertész. Ninguém mais tem essa visão tão boba da influência. É apenas curioso observar como o “método Kafka” continua vivo e presente e útil. E como continua eficaz, tantos anos depois.



Quatro links

22/07/11 | Tags:

Eu falando sobre o livro Tóquio proibida, de Jake Adelstein, no Meia Palavra.

Eu falando sobre o meu livro novo no Mundo Livro.

Joca Terron falando sobre escritores e os problemas financeiros no Blog da Companhia.

Escritores falando mal de outros escritores.

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Pertencer ao novo século

18/07/11 | Tags:

É claro que, como se trata de Vila-Matas em um ensaio escrito por um personagem, nunca podemos saber qual o nível de seriedade do que está sendo dito. Nunca sabemos se, do outro lado, o autor não está sorrindo ou até rindo. De qualquer forma:

“Comecei a anotar, nas margens do meu artigo, os elementos – irrenunciáveis, imprescindíveis – que devem estar presentes em qualquer romance futuro que queira se sentir pertencente ao novo século:

A “intertextualidade” (escrita assim, entre aspas)

As conexões com a alta poesia

A escrita vista como um relógio que avança

A vitória do estilo sobre a trama

A consciência de uma paisagem moral em ruínas.”

(Enrique Vila-Matas, Perder teorías)

Por mais jocoso e absurdo que pareça tudo isso (ou talvez justamente por isso), é um exercício divertido esse de apontar diretrizes para o “romance do futuro”, brincadeira que V-M provavelmente pegou do Calvino.