a) A reclamação mais comum entre escritores é, sem dúvida, a falta de um público leitor. No entanto, estatísticas (sempre elas) mostram que nunca se leu tanto no país, no mundo. A pergunta que fica: mas o que exatamente estão lendo? E os autores complementam: literatura brasileira contemporânea que não.
b) Porém, quando pessoas comentam que “ninguém lê nesse país”, não se referem à “nova literatura brasileira”, mas à literatura de modo geral, creio, e é esse o foco do meu post (esqueçam autores brasileiros).
c) Um dos argumentos usados é que “no Brasil, o preço do livro é muito caro”. Vou me deter um pouco mais nesse ponto. Primeiro: quem disse que as pessoas não tem dinheiro para comprar livro? Olhem ao redor: chevettes tunados com rodas cromadas, Nikes espalhafatosos, celulares com trinta mil funções. Não é apenas a classe média que está comprando esses produtos. Nananinanão. A classe média-baixa e até a classe baixa tem sido vorazes consumidores de supérfluos da linha tecnológica (e estética). Sabem quanto custa para rebaixar um carro? O suficiente para comprar váários livros. Claro, surge o inteligente contra-argumento de que “de qualquer forma, 50 reais por um livro ainda parece um roubo” e também que “na Europa e nos EUA sai muito menos”. Em primeiro lugar, o custo de produção de um livro é menor para eles: papel sai mais barato, é impresso lá longe, explorando mão-de-obra barata, e, no caso dos EUA em si, só 1% dos livros publicados são traduções, ou seja, não há gasto com tradutor (que é das coisas que mais encarecem o livro). Isso porém, é só blábláblá perto do centro da questão: os livros saem mais baratos lá porque tem público leitor. As tiragens são muito maiores que as brasileiras. Tendo leitores (vulgo: mercado) de sobra, é fácil baixar o preço do livro.
d) Tratando das políticas de incentivo à leitura, acho que tem muitos equívocos na área. Em primeiro lugar, a idéia de que todo mundo deveria ler livros, uma idéia estapafúrdia. Quem não lê livros talvez seja muito mais feliz do que quem lê. Ler livros não traz nenhuma vantagem material ou simbólica, não iludam os não-leitores.
e) Por outro lado, o incentivo à leitura é importante para descobrir leitores em potencial, que não teriam acesso ao livro se não fosse por esse incentivo. Ler não é algo natural, exceto se os pais estão sempre lendo e a criança se habitua desde cedo com isso. Uma raridade no contexto atual, acredito. Pessoas com “vocação de leitor” (existe isso, em algum nível, creio, nem que seja no “prazer de ficar sozinho” e “tendência a introspecção”) podem se descobrir leitoras através de programas de incentivo.
f) “Ler livros não traz nenhuma vantagem material ou simbólica, não iludam os não-leitores”, eu disse no ponto d). Se tem algo que me irrita nessa história de leitores/não-leitores/o escambau, é que muita gente lê para “extrair algo do livro”. Não só auto-ajuda e “A arte da guerra para executivos”. Estou falando de fenômenos como a explosão de livros que se passam no oriente médio, que daí a pessoa lê para “ficar informada”, “compreender melhor a situação política”, e outros zzz. Esse leitor utilitarista (utilitarismo é a palavra-chave) nunca será um leitor de ficção fora dos bestsellers. Nunca.
g) Alguém criticou o acompanhamento que a Cia das Letras fez da HQ “Cachalote” no seu blog, dizendo que era um tratamento de Revista Caras. Rapaz, quem fez a crítica deve ser uma pessoa que reclama que não existem leitores. Que bom que estão fotografando os autores e mostrando sucesso. Aproxima a literatura do mundo, coloca lançamento de livros como algo massa de se ir, espetaculariza um pouco o ofício. Não há nada de errado nisso (desde que escritores não se deixem levar pelo ego e etc. e blábláblá). Lembro de comentário de Ítalo Ogliari para platéia de alunos do EJA: “as pessoas deveriam falar de livros da mesma maneira como recomendam um filme para uma pessoa: tu precisa ler isso aqui, é do caralho!”. Acho que atitudes como essa da Cia. meio que funcionam nessa linha. Gente se divertindo num lançamento. Fim. (o blog da Cia ainda tem outros mil acertos, especialmente ao dar voz aos editores e mostrá-los como pessoas de carne e osso – mas isso é assunto para outro post).
h) Voltando ao tópico de incentivo a leitura: nada mata mais leitores em potencial do que o ensino de literatura no colégio. Nada. Crianças obrigadas a ler Camões na 8ª série: não vai dar certo, nunca. Raríssimos professores de extremo talento conseguiriam levar isso adiante, fazer do currículo de clássicos brasileiros algo proveitoso. A grande maioria é incapaz. Tem que se mudar todo o ensino de literatura ou apenas jogá-lo pela janela.
i) Voltando ao d), a idéia de que todo mundo deveria ler livros. Puah. As pessoas não precisam de literatura para sobreviver. Talvez elas precisem de narrativas, e essas elas podem conseguir no cinema, no gibi, na televisão, no videogame. A literatura é apenas uma forma de narrar, uma dentre muitas possíveis, e ela não tem um lugarzinho sagrado e privilegiado na hierarquia.
j) Acho que é mais ou menos isso. Posso – devo – estar errado em muitos desses pontos, e sei que os (meus) leitores logo apontarão muitos desses erros.