Livros não deveriam ser adaptados para games, assim como games não deveriam ser adaptados para livros. Não os bons, ao menos. São formas de arte tão distintas que pensar nestas adaptações parece, de vez em quando, tentativas de imaginar uma obra arquitetônica no formato de uma canção de heavy metal (sim, isto foi uma distorção da frase “Falar sobre música é como dançar sobre arquitetura”). O que segue abaixo, uma lista de adaptações possíveis de livros para o mundo dos videogames, não passa, portanto, de uma brincadeira.

1)      Moby Dick, de Herman Melville

Moby Dick poderia funcionar muito bem no formato de um RPG de ação como Mass Effect 2: o protagonista caminhando pela nave (no caso, o navio) conversando com tripulantes, explorando ilhas vizinhas, resolvendo os problemas pessoais dos outros (imagine: um sidequest no qual você precisa fazer um favor a Queequeg, como vingar a morte de seu irmão na ilha de canibais de onde ele veio), enquanto a trama principal (a caça à baleia) se desenrola. Dilemas morais e longos monólogos aconteceriam.

2)      O paraíso é bem bacana, de André Sant’Anna

Jogos de videogame são divididos entre os “narrativos” e os “não-narrativos”. Games de esporte fazem parte do segundo tipo: são partidas descontextualizadas (no máximo, existem dentro de um campeonato). Não há diálogos ou enredo. Mas imagine que sensacional um jogo de futebol à moda de Fifa ou PES intercalado com uma trama envolvendo Muhammed Mané, de seu início na cidade de Ubatuba até o sucesso na Alemanha e a explosão inexplicável da bomba. Rá rá rá rá rá!

3)      O terceiro Reich, de Roberto Bolaño

Sempre que penso nos jogos de grand strategy da Paradox, como Europa Universalis e Hearts of Iron, me lembro do jogo de tabuleiro de guerra descrito por Bolaño neste livro. Seria muito fácil (mas moralmente complicado) adaptar O terceiro Reich para um jogo nesta linha. A diferença é que o jogador poderia escolher entre Udo Berger, o alemão turista, ou Queimado, o latino-americano torturado.

4)      A metamorfose, de Franz Kafka

Tecnicamente, a mais famosa novela de Kafka já recebeu uma adaptação bem livre para os games. Tá duvidando? Pesquise o jogo Bad Mojo, de 1996. Nele, você controla um homem que foi transformado em uma barata que precisa desviar de vários obstáculos – o que inclui ratos mortos, navalhas antigas etc. Sim, todos sabemos que Gregor Samsa vira um inseto mais próximo de um besouro, mas aceitemos a liberdade poética dos desenvolvedores. E que tal se saísse uma versão nova desse jogo, um Bad Mojo HD, quiçá mais fiel ao clássico de Kafka? E se o objetivo desta hipotética adaptação fosse realizar o sonho de Samsa, isto é, chegar ao trabalho na hora, sentar em sua cadeira, deixar o chefe contente?

5)      Ubik, de Philip K. Dick

Qual livro de Philip K. Dick não inspiraria um jogo? Difícil dizer. Ubik poderia ser recontado como um jogo em primeira pessoa, gênero dominante no cenário atual. A grande graça estaria na arma Ubik. Assim como Half-Life 2 revolucionou os jogos em primeira pessoa tendo uma arma de gravidade, Ubik teria uma arma de realidade – afinal, era isso que o spray Ubik fazia no romance de K. Dick: restaurava o real. Se Ubik representa Deus, pouco importa. Eu quero mais é espalhar o spray por aí.

6)      House of leaves, de Mark Z. Danielewski

O livro do Danielewski possui tantas referências pop e brincadeiras formais que ele é praticamente um videogame em forma de livro. Ainda assim, adoraria ver um jogo experimental de horror, na linha de Amnesia: The Dark Descent e Penumbra, no qual você caminha por lugares sombrios sem saber direito o que diabos está fazendo lá… até o momento em que toma um susto pavoroso e sai correndo para longe do computador.

7)      Idoru, de William Gibson

Os games devem tanto, tanto, tanto, tanto às ideias de Gibson, que é difícil imaginar que System Shock e Deus Ex existiriam se não fossem os livros de Gibson e o universo cyberpunk por ele criado. Ainda assim, faz falta um RPG futurista que seja uma adaptação fiel de suas obras (o Neuromancer de 88 não vale). Idoru tem todos os elementos de um bom RPG futurista: conspirações, corporações, ídolos virtuais…

8)      O tempo e o vento, de Erico Verissimo

A trilogia épica do autor gaúcho Erico Verissimo trata, entre outras coisas, de guerra e honra – temas perfeitos para o mundo dos games. Imaginem um Red Dead Redemption onde você controla o Capitão Rodrigo e participa de tensas escaramuças? Um faroeste sul-rio-grandense: meus olhos se enchem d’água só de pensar.

9)      Medo e delírio em Las Vegas, de Hunter Thompson

Só japoneses seriam capazes de adaptar qualquer livro de Hunter Thompson. Games ocidentais costumam ser muito comportados, e evitariam temas como alcoolismo e abuso recreativo de drogas. Mas é uma receita para o sucesso: um protagonista se deslocando por cenários delirantes, enfrentando morcegos e os demônios de sua própria imaginação.

10)   Finnegan’s Wake, de James Joyce

Um jogo de adventure à moda de Myst, no qual você passa a maior parte do tempo tentando entender o que diabos está fazendo e o que precisa ser realizado para avançar. De alguma forma (e uns dois meses depois), você chega ao final do jogo, e tenta extrair um sentido de tudo aquilo. Sente-se meio burro e vai atrás de alguma explicação na internet.

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Este texto foi originalmente publicado no fanzine Casmurros #3, que pode ser baixado aqui.

Também escrevi sobre a relação livros-games no IMS, falando de Walser e Skyrim.



- Música

1) Destroyer – Kaputt

(talvez não seja o melhor disco do Destroyer, mas é o mais coeso e relaxado, sem medo de soar brega).

2) Beastie Boys – Hot Sauce Commitee Pt. 2

Péééun uééén uééén uérem

3) Feist – Metals

Sei lá, gostei bem mais que qualquer outra coisa que a Feist já fez. Abandonou o lado “fofinho” de vez.

4) The Rapture – In the Grace of Your Love

Os fãs de The Rapture detestaram, eu adorei.

5) Esben & The Witch – Hexagons EP

(meu lado trevoso ainda pulsa)

Menções honrosas: Mastodon – The Hunter; Handsome Furs – Sound Kapital; St. Vincent – Strange Mercy; Tim Hecker – Ravedeath, 1972; Bon Iver – s/t

Decepções: Marissa Nadler – s/t; Explosions in the sky – Take care, take care; Mogwai – Hardcore will never die, but you will.

Cinema

Não vi filmes bons esse ano. Nenhum espetacular, ao menos. “Melancolia” é bacaninha, sei lá.

Games

1) Deus Ex: Human Revolution

O visual, a renovação do cyberpunk, o sneak perfeito, a tensão, as múltiplas possibilidades.

2) Elder Scrolls V: Skyrim

Se perder completamente pelo mundo, andar sem rumo, contemplar a aurora boreal.

3) Killzone 3

Desculpa, mas tem jetpacks.

Cinco bons livros lançados em 2011 no Brasil (fora de ordem)

“Retrato de um viciado quando jovem”, Bill Clegg

“Diário da queda”, Michel Laub

“Guerra aérea e literatura”, W.G. Sebald

“História do cabelo”, Alan Pauls

“Amor e obstáculos”, Aleksandar Hemon

Livros fracos que li em 2011: “Nêmesis”, de Philip Roth; “Claraboia”, de José Saramago.



Tenho escrito pra caramba em outros sites e, como consequência, tenho tido pouco tempo para produzir material inédito para o blog. Como sempre usei este espaço para compilar meus textos, nada mais lógico que eu linke aqui algumas destas participações:

1) Escrevi uma resenha sobre “Escuta só”, do Alex Ross, na Veja.com

2) Escrevi um texto irônico-engraçadinho-hiperbólico-com-alguns-traços-de-verdade para o IMS sobre a figura do jovem escritor brasileiro.

3) Escrevi um texto sobre os motivos (ou falta de) para ler literatura contemporânea, também no IMS.

4) Escrevi um texto para a seção Bastidores do Suplemento de Pernambuco (seção na qual escritores contam como foi a experiência de escrever seu livro) falando sobre meu retorno aos contos com A página assombrada por fantasmas.



Por muito tempo lutei com Os anéis de saturno, romance de Sebald disponível no Brasil há um bom tempo. Tentei ler uma vez. Parei na página 40. Tentei ler uma segunda. Parei na página 100. Um amigo me contou que a edição que eu lia era ruim, pois tinha uma tradução péssima de Lya Luft. Como não falo uma só palavra de alemão (mentira: Achtung! Zeitgeist!), não pude concordar ou discordar. Já outro disse que não havia nada de errado na tradução de Luft, que ela era exceletne. O problema é que Sebald não era para mim. Então abandonei W. G. Sebald por mais de ano – achando que o elogiadíssimo escritor alemão era um chato de galochas.

Fast-forward para o presente. Lançam Guerra aérea e literatura (Companhia das Letras, 2011, 136 pg.) no Brasil. Baixo no Kindle um sample (o aparato tem essa função de downloadear um “primeiro capítulo” de amostra. Interesso-me instantaneamente pelo título (que em inglês é: On the natural history of destruction) e pela proposta: conferências que o autor alemão deu acerca do fato de que não houve um “eco literário” nas letras alemãs dando conta dos horrores presenciados pela população na época dos bombardeios dos aliados.

Sim, pois é verdade: nós, leigos, estamos acostumados a pensar, ainda que de forma inconsciente, na Segunda Guerra como: “maldades de Hitler” + “retaliação dos aliados”. Sim, sei que fui radicalmente simplificador, mas pense: “Segunda Guerra”. O que vem em mente? Auschwitz. E depois: Dia D, fim do Terceiro Reich. Claro, talvez pensemos nos milhões de russos que morreram no campo de batalha. Em Pearl Harbor. Em Hiroshima e Nagasaki. E os bombardeios nas cidades alemãs? E Dresden e Hamburgo e os milhares de civis mortos? Bem – ao menos os alemães devem lembrar disso. Mas, de acordo com a hipótese de Sebald, houve uma gigantesca amnésia coletiva.

Portanto, em Guerra aérea e literatura, Sebald mapeia, ao mesmo tempo, os horrores dos bombardeios e o retrato destes na literatura – retratos escapistas, mistificantes, floreados. Ou pior: a ausência de qualquer tentativa de retratar, simbolizar, mimetizar, representar.

E pronto. Estou convertido ao Sebaldismo. Não acho mais Sebald um chato de galochas. Mas há algo que ainda não entendo completamente. O uso de fotografias, recurso presente em todas as obras de Sebald das quais tomei conhecimento. Mencionei antes que comecei a ler o livro no Kindle – e desisti e migrei para a edição brasileira em papel por um motivo. Pelas fotos (que ficam pixeladas no e-reader).

No momento mais marcante do livro, Sebald fala da destruição de Hamburgo, de corpos queimados e do que acontece com um organismo que sofreu temperaturas impensáveis. Junto dessa descrição, há uma foto de corpos queimados. Juro que não entendo o motivo dessa foto. O ditado diz: “Uma foto vale mais do que mil palavras”. Meu querido ditado, você não conhece as mil palavras de Sebald. A descrição de Sebald é muito mais impressionante do que qualquer foto. As fotos de Sebald servem para quê? Provar que algo aconteceu? Ao falar de Alfred Andersch (escritor que consegue humilhar com uma mera epígrafe no início do capítulo), por exemplo, anexa a foto de uma carta escrita pelo autor. Precisava? Que informação a mais aquela carta nos dá? Olhar a caligrafia do autor tornará tudo mais presente, vivo? Não sei. O uso de fotografias em Sebald ainda é um enigma para mim.

A inclusão de fotografias na literatura é um artifício razoavelmente comum na produção contemporânea. Penso em dois autores que se valem bastante disso. Javier Marías, em Seu rosto amanhã, interrompe a narrativa para mostrar pôsteres antigos sobre os riscos de contar um segredo para outra pessoa durante a época da espionagem de guerra. É uma quebra curiosa, que tampouco entendo. Já o mexicano Mario Bellatin, em Los fantasmas del masajista, narra a história de um massagista especializado no tratamento de pessoas sem algum membro do corpo e sua mãe declamadora de rádio. Ao final da novela, inicia-se uma série de fotografias coloridas mostrando o que seria cada coisa: “a clínica”, “a mãe do massagista” etc. Este suplemento fotográfico ressignifica tudo o que foi lido anteriormente. Dá uma imagem (geralmente distorcida, bizarra, ou até cômica) para as palavras. Agora as palavras existem também em um plano imagético, concreto, mas que não revela nada. Bellatin não é um partidário da “verdade”: suas fotografias não encerram as palavras, não mostram “ó, foi assim”. Pelo contrário: escondem mais, tornam tudo ainda mais opaco e misterioso.

E as fotos de Sebald? Não entendo ainda. Acho que vou ter que continuar lendo o autor. Assim começam as crônicas de um recém-convertido ao Sebaldismo.

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Texto publicado originalmente no Meia Palavra.



Conselhos de Adorno

20/08/11 | Tags:

Já encontrei conselhos a escritores em dezenas de blogs e suplementos culturais. Quase qualquer autor já se dispôs a se manifestar nesta linha, de Rilke a Palahniuk (caraca, já perguntaram esse tipo de coisa até para mim). No entanto, acho que nunca vi citarem Adorno nestes espaços. Bem, talvez porque as sugestões de Adorno sejam mais úteis para ensaístas, ou para aqueles ensaístas que ainda não tiveram coragem de sair do armário e ficam brincando de ficcionistas por aí. Relendo Minima Moralia, notei que o filósofo banca o conselheiro um punhado de vezes durante o livro. O exemplo mais interessante que pincei está no texto de número 51, “Atrás do espelho”. Segue abaixo o meu recorte (tradução de Gabriel Cohn):

“Uma regra de segurança do escritor: examinar cada texto, cada peça, cada sentença para ver se o tema central se apresenta com suficiente nitidez. Aquele que busca exprimir algo está tão envolvido nisso que se deixa levar sem refletir. Fica-se “em pensamento” demasiado rente à intenção e esquece-se de dizer o que se quer dizer.

Nenhum aperfeiçoamento é tão pequeno ou insignificante que não devêssemos realizá-lo. Em cada cem alterações, cada uma pode parecer tola e pedante; juntas, podem representar um novo nível do texto.

Sem mesquinharia ao riscar passagens. A extensão do texto é indiferente e o medo de que nele não haja o bastante é pueril. Nada deve ser tido por digno de existir só porque está aí, foi escrito. Se várias sentenças aparentemente são variações da mesma ideia, então com frequência apenas exprimem diferentes tentativas de captar algo sobre o qual o autor ainda não tem domínio. Neste caso deve-se selecionar a melhor formulação e prosseguir o trabalho nela. Faz parte da técnica de escritura poder desistir até mesmo de ideias fecundas quando a construção o exige. (…)

Quem quiser evitar os clichês não pode restringir-se a palavras, se não quiser sucumbir à leviandade vulgar. A grande prosa francesa do século XIX era muito sensível a isso. É raro uma palavra isolada ser banal: também na música o tom isolado desafia a usura. Os clichês mais repugnantes são combinações de palavras do tipo que Karl Kraus fisgou: a qualquer preço, firme e forte, a mais não poder. Pois neles como que respinga o preguiçoso rio da linguagem choca, ao invés de o autor colocar pela expressão precisa aqueles obstáculos que se fazem necessários onde a linguagem deve se apresentar. Isso não vale apenas para as combinações de palavras, mas até para a construção de formas inteiras. Se ocorresse a um dialético marcar a transformação do pensamento ao longo de seu curso por um “mas” em cada cesura, então o esquema literário desmentiria a intenção não esquemática da proposta”.



Kafka em Auschwitz

25/07/11 | Tags:

Impressionante como o “método Kafka de narrar” se tornou, mais do que um estilo associado a Kafka, uma estratégia narrativa para contos e romances nos quais o narrador precisa descrever algo muito chocante/horrível/incompreensível. Explico. Talvez Kafka não tenha sido o pioneiro nisto (muito provavelmente não foi), mas suas narrativas tornaram popular o narrador que descreve, em tom monocórdio e sem afetações ou dramas, o maior horror. Muitos apontam que é justamente isso que causa o impacto em A metamorfose: o fato de que o narrador não fica gritando OMFG VIREI UM INSETO.

É muito fácil, portanto, detectar certa inspiração kafkiana em livros como Vida e época de Michael K., do Coetzee, e o romance que leio neste momento, Fatelessness, do húngaro Imre Kertész, onde um adolescente acaba indo parar em Auschwitz e descreve tudo com uma neutralidade assombrosa. Isso não diminui, claro, o talento de Kertész. Ninguém mais tem essa visão tão boba da influência. É apenas curioso observar como o “método Kafka” continua vivo e presente e útil. E como continua eficaz, tantos anos depois.



Quatro links

22/07/11 | Tags:

Eu falando sobre o livro Tóquio proibida, de Jake Adelstein, no Meia Palavra.

Eu falando sobre o meu livro novo no Mundo Livro.

Joca Terron falando sobre escritores e os problemas financeiros no Blog da Companhia.

Escritores falando mal de outros escritores.

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Pertencer ao novo século

18/07/11 | Tags:

É claro que, como se trata de Vila-Matas em um ensaio escrito por um personagem, nunca podemos saber qual o nível de seriedade do que está sendo dito. Nunca sabemos se, do outro lado, o autor não está sorrindo ou até rindo. De qualquer forma:

“Comecei a anotar, nas margens do meu artigo, os elementos – irrenunciáveis, imprescindíveis – que devem estar presentes em qualquer romance futuro que queira se sentir pertencente ao novo século:

A “intertextualidade” (escrita assim, entre aspas)

As conexões com a alta poesia

A escrita vista como um relógio que avança

A vitória do estilo sobre a trama

A consciência de uma paisagem moral em ruínas.”

(Enrique Vila-Matas, Perder teorías)

Por mais jocoso e absurdo que pareça tudo isso (ou talvez justamente por isso), é um exercício divertido esse de apontar diretrizes para o “romance do futuro”, brincadeira que V-M provavelmente pegou do Calvino.



Liner notes

06/07/11 | Tags:

Uma vez que meu livro “A página assombrada por fantasmas” já se encontra nas livrarias e que há pessoas lendo ele nesse exato instante, talvez seja legal usar esse espaço pessoal e intransferível para expor algumas liner notes. Não conheço nenhuma tradução decente para o termo. Liner notes são aqueles textinhos que vinham nos encartes de LPs e CDs e meio que comentavam algo sobre o disco, falavam de alguma anedota sobre a produção daquela música. Enfim, é um “plus a mais” para os leitores que leram o livro, gostaram, e querem saber alguma coisinha a mais sobre ele.

Claro, se você ainda não leu o livro, não leia de jeito nenhum os comentários a seguir.

1 – A nota do autor era bem mais longa, digressiva e explicativa. Meu amigo Emilio e meu amigo Bruno me convenceram a cortar tudo, deixando apenas o essencial.

2 – Três livros me serviram de base para “A página assombrada por fantasmas” , e não tenho vergonha em admitir a influência brutal dessas obras:  1) Chamadas telefônicas, de Roberto Bolaño (o conto “O escritor no castelo alto” tem um final que faz referência ao fim de “Uma aventura literária”); 2) Exploradores del abismo, de Enrique Vila-Matas; 3) Sonho interrompido por guilhotina, de Joca Reiners Terron.

3 – O conto “Amanhã, quando acordar” entrou nos 47″ do segundo tempo no lugar de “Vim, vi e perdi”, um conto gigantesco que, por mais que eu reescrevesse, nunca ficava consistente. Minha editora Vivian me ajudou no possível e no impossível. Não adiantou. Se “Vim, vi e perdi” tivesse entrado, o livro teria umas 30 páginas a mais. Escrevi “Amanhã, quando acordar” para a revista Arte & Letra no início de 2011 e se encaixou muito bem (acho) no conceito do livro.

4- Um dos principais temas do livro, para mim – só agora, que o livro já está na rua, me dei conta disso – é: “como os livros, ao invés de unir, separam as pessoas”. Ou algo assim. Pensarei mais. Parece horrível esse resumo, né? Fazer o quê.

5 – Sim, “Algum lugar no tempo” destoa do resto do livro. Por isso que o coloquei no centro. Ele é o que justifica a existência de todo o resto. Ele é a “centrepiece”, e é um pilar de sinceridade no meio de um oceano de ironia. É, também, o único conto autobiográfico do livro – ainda que muitas adaptações tenham sido feitas para funcionar enquanto conto.

6 – Já que o assunto é “autobiográfico”, que conste que a frase final do livro não tem naaaaaada de autobiográfica. Aquele conto foi escrito um mês antes da Rocco entrar em contato comigo pela primeira vez. A “geração Z”, também, não se refere a nenhum grupo de escritores que conheço.

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Dormi no ponto e esqueci de avisar que saiu o último volume da revista online que edito na Não Editora, a Cadernos de Não Ficção (e que agora é co-editada pelo Bruno Mattos). Como tudo referente a esse volume atrasou, nada mais coerente do que atrasar o post de blog sobre a revista. Não? OK, deixem para lá. O link para baixar o PDF está aqui. O link para ver a versão folheável no browser está aqui. O tema dessa edição é “literatura e outras artes”. Traz um texto tri massa da Simone Campos sobre videogame. Também tem um texto pra lá de bacana do Caio Yurgel sobre Jonathan Franzen e os livros magricelas da literatura brasileira atual. E também… ok, abram logo, tá cheia de coisas legais.